A felicidade é também ela solteira

Há meses que estou para escrever esta crónica, a qual assinala a minha estreia no mercado editorial da terra que me viu nascer. Talvez por isso mesmo tenha adiado adiado adiado... até chegar ao ponto de incorrer no sério risco de incumprimento com a palavra dada, para mim mais sagrada do que qualquer pacto de sangue.
Foto @ Pixabay

Ainda que a tenha alinhavado mal recebi o convite para integrar a equipa de cronistas do Balai.CV, só agora é-me possível passar para o digital aquilo que há muito bailava no mental. Assim, eis-me aqui – de roupão, máscara facial, caneca de chá, pés gélidos e com dois eventos para coprotagonizar daqui a algumas horas – a efetivar a minha parceria com um projeto prestes a subir ao palco, após meses de árduo ensaio nos bastidores.

Em mais uma daquelas fantásticas sincronicidades da vida, calhou fazê-lo a 20 de março, dia internacional daquela que é uma das presenças assíduas no meu blog e sobre a qual muito gosto tenho eu em escrever. Por esta razão, esta crónica assenta precisamente nos dois pilares da minha escrita: solteirice e felicidade, dois conceitos (aparentemente) incompatíveis à primeira vista, mas completamente enamorados após o primeiro encontro.

 

Por inacreditável que possa parecer, a felicidade é também ela solteira, na medida em que só precisa de si mesma para ser. Antes de desenvolver esta ideia, é de bom tom referir que, de acordo com a infopedia.pt, a palavra felicidade deriva do latim augurium, que significa augúrio e sorte, dando assim a entender que ela “não depende do ser humano, mas sim de algo exterior a ele.”

 

Por ser tão essencial à condição humana, a felicidade é desde sempre alvo de muita curiosidade, logo de muita indagação. Várias foram as mentes brilhantes que se debruçaram sobre o assunto, desde Arsitóteles a Hegel, passando por Kant, Rousseau, Nietzsche, Rimbaud ou Espinosa. De todos eles, identifico-me particularmente com a posição do Rousseau, que considera que ela “não é algo que se encontre longe, mas sim dentro da própria alma, não tendo origem exterior”.

 

Acreditar que a felicidade depende de fatores externos é o mesmo que acreditar que os solteiros são necessariamente infelizes; coisa que sei eu bem não ser de todo verdade. Assim como o amor só precisa de coração, a felicidade precisa tão somente de vontade. De que outra maneira se explica a existência de pessoas genuinamente felizes quando tudo o resto parece conspirar a seu desfavor? De que maneira se explica a apetência natural do cabo-verdiano para a felicidade?

 

A gente da minha terra, da qual sinto um orgulho que não cabe no peito, é – a meu ver – o melhor exemplo de que a felicidade é um estado de espírito (ou de alma, como o definiu o filósofo francês), e a expressão “pobre ma confortado” é um reflexo dessa pré-disposição natural para ser feliz do jeitinho que dá para ser. É das coisas de que mais sinto falta na minha vida de estrangeira em terra alheia, essa abundância de pessoas genuinamente felizes, independentemente da sua condição física, económica, social ou amorosa.

 

Que povo este meu, este nosso, que todos os dias inspira-me a ser fiel à essência que tão bem o carateriza: a morabeza. Tem melhor exemplo de que a felicidade é solteira, ou seja, que anda leve, livre e solta por esses “dez graozinho di terra qui Deus espaia na meio di mar”?

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Sara Sarowsky

Sara Sarowsky

"Radicada em Lisboa, é blogger, cronista, inspiring talker, cupido profissional, organizadora de eventos e tudo o mais que a desafiar. Por gostar de ser/estar feliz, a sua escrita é recheada de humor e positividade, com uma pitada de sarcasmo pelo meio".

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