Antigas alunas cabo-verdianas criam bolsa de estudo em universidade americana

A Bolsa de Estudos intitula-se Paula Ortet’12 & Lizandra Gomes’10, é associada à Bridgewater State University, uma universidade pública nos EUA, e o primeiro estudante abrangido pela bolsa deverá receber o apoio financeiro no início do ano letivo de 2022/23.
Foto cedida pela Bridgewater State University

A ideia de criar uma bolsa para apoiar estudantes cabo-verdianos na Bridgewater State University surgiu há alguns anos. Determinadas, as cabo-verdianas Paula Ortet e Lizandra Gomes conseguiram angariar os fundos necessários para dar entrada numa bolsa de estudos na instituição que as acolheu criando a Bolsa de Estudos Paula Ortet’12 & Lizandra Gomes’10.

 

Conheceram-se e ficaram amigas na Bridgewater State University, uma universidade pública em Massachusetts, EUA. Satisfeita com a experiência que teve na universidade estadual, Lizandra Gomes foi oficialmente finalista em 2010 e conta, em entrevista ao Balai, que sempre quis fazer algo em prol da instituição.

 

Já Paula Cristina Ortet começou a fazer a sua formação em Biologia na Bridgewater em 2008 e foi finalista em 2012. “(Enquanto estudantes internacionais) Tanto eu como a Lizandra não tínhamos tantas oportunidades de apoio financeiro como os estudantes locais”.

 

Lizandra acrescenta que são poucas as bolsas de estudo para as quais os estudantes internacionais podem candidatar-se, como, inclusive, acabou por fazer.

 

Ciente destes constrangimentos, Paula lançou um desafio à amiga.

 

“Um dia fomos jantar e a Paula disse-me: “Estou a pensar criar uma bolsa de estudos (scholarship) e gostava de fazer este projeto contigo”. Liza prontamente abraçou o projeto até porque a ideia ia ao encontro do que já tinha pensado.

 

“É uma forma de ajudar não apenas os estudantes que chegam de Cabo Verde como de apoiar com os custos das propinas a comunidade estudantil cabo-verdiana nos EUA”, explica Paula.

 

O objetivo das jovens foi desde o início encontrar uma forma de “ajudar financeiramente (outros alunos), já que qualquer que fosse o montante, estariam já a apoiar”.

 

Na altura em que Liza frequentou a universidade de Bridgewater as propinas para os estudantes internacionais rondavam os 20 mil dólares anuais. Atualmente o montante é superior.

 

Entretanto, as duas jovens não sabiam todas as nuances por detrás da criação de uma bolsa de estudos numa universidade estadual. “Pensávamos que tínhamos só de angariar os fundos e depois entregar à universidade para a doação”.

 

A primeira reunião com a fundação da universidade responsável pela doação de fundos da universidade aconteceu há cerca de 5 anos. “Explicaram-nos que teríamos cerca de cinco anos para angariar 25 mil dólares. Olhamos uma para outra e pensámos: Onde é que já nos fomos meter”.

 

As jovens explicam que o montante angariado fica numa “espécie de conta poupança” gerida pela fundação da escola que reinveste este montante de modo que a bolsa acaba por ser vitalícia.

 

A próxima etapa foi escolher alguns critérios para os candidatos à bolsa. “Sabíamos que queríamos beneficiar estudantes cabo-verdianos ou descendentes, principalmente os estudantes internacionais ou out-of-state (fora do estado de Massachusetts)”. Outro critério é o GPA (Grade Point Average) ou seja, o aproveitamento escolar, por isso os estudantes poderão candidatar-se a partir do segundo ano letivo.

 

As duas promotoras da bolsa não fazem parte do comité que faz a seleção dos candidatos, mas podem indicar os membros que constituem o painel, sendo que Paula e Liza já decidiram que querem que uma pessoa da comunidade cabo-verdiana faça parte deste comité.

 

Segundo explica Paula, as candidaturas para a bolsa deverão ser abertas a partir de janeiro/fevereiro de 2022 e o primeiro estudante abrangido pela bolsa deverá receber o apoio financeiro no início do ano letivo de 2022/23.

 

Mais de 20 mil dólares angariados online

 

Paula e Liza não só conseguiram angariar o montante esperado como ultrapassaram a meta dos 25 mil dólares ( cerca de 2.300 contos cabo-verdianos). Apesar da angariação ter começado ainda há cinco anos, o grosso do montante foi angariado este ano, 2021.

 

Em abril passado, a propósito do Giving Day, um dia dedicado à solidariedade e às doações, Liza e Paula lançaram uma campanha online para angariar o montante em falta. “Em menos de 24 horas, ultrapassamos os 14 mil dólares”.

 

Liza que já fez angariação de fundos em campanhas políticas nos EUA sugeriu à amiga que procurassem saber junto da Universidade se seria possível atribuir-lhes um montante igual ou semelhante ao arrecadado, uma prática comum nas doações para as campanhas políticas americanas.

 

A universidade acedeu em atribuir-lhes mais cinco mil dólares e o montante global alcançou os 28 mil dólares. “Foi um choro e uma alegria para nós, antigas alunas e jovens profissionais que sequer sabiam como iam arranjar os fundos, mas que conseguiram alcançar o objetivo”.

 

A proeza foi tanta que a Universidade decidiu dedicar um artigo para falar sobre o feito alcançado, tendo em conta, principalmente, a idade das jovens.

 

As cabo-verdianas explicam que podem continuar a contribuir com fundos para a bolsa. “Quanto mais dinheiro angariarmos maior será o montante depois distribuído aos estudantes”.

 

Como não existe a obrigação de um montante anual mínimo, Lizandra salienta que pretendem continuar a contribuir para o fundo, mesmo que seja através de outras angariações.

“O nosso objetivo é ir aumentando essa conta poupança já que quanto mais elevado for o valor mais ajudas os estudantes poderão ter”, adianta Paula.

Às vezes não tens noção do que podes fazer pela tua comunidade”

“Criar uma bolsa de estudos é um motivo de satisfação pessoal para as duas, bem como criar oportunidades para outras pessoas. Sempre foi esse o nosso foco. Em vez de esperar para que outras pessoas criem as oportunidades, vi que nós também podemos criar algo do qual outros estudantes podem beneficiar”, diz Liza.


Paula partilha da mesma opinião e salienta que espera que esta ação sirva de inspiração para outros membros da comunidade. “Acho que poderá incentivar outras pessoas que talvez já tenham terminado os estudos ou que queiram apoiar a comunidade. Todos sabemos que estudar nos EUA é caríssimo e toda ajuda é bem-vinda, aliás qualquer aluno que estuda cá sabe disso”.


Liza salienta ainda o facto de terem sido “duas mulheres, jovens a conseguir alcançar este feito. “Às vezes não tens noção do que podes fazer pela tua comunidade, em termos práticos.”


Liza Gomes e Paula Ortet, de estudantes a profissionais bem-sucedidas


Formada em Matemática e Teatro pela Bridgewater, Liza Gomes diz que adorou a sua experiência enquanto estudante universitária e que foi com muito foco e disciplina que conseguiu fazer os dois cursos, apesar de ter sido exaustivo.


Trabalhou em Telecomunicações, mas desde 2013 enveredou pela área financeira e liderou a angariação de fundos em campanhas políticas, a nível estadual. Desde 2019 é Vice-Chefe de Gabinete do Departamento do Tesouro do Estado de Massachusetts.


No entretanto, teve tempo de concluir um MBA, em maio deste ano, com especialidade em Empreendedorismo.


“Sempre quis ajudar a minha comunidade, mesmo que seja de longe” e quem sabe no futuro haja outras formas de ajudar, diz a jovem.


Depois de se ter licenciado em Biologia, Paula Ortet trabalhou na Universidade de Harvard, onde descobriu a sua paixão pela investigação que a levou a apostar num doutoramento em Bioquímica, tendo concluído os estudos em 2020.


Atualmente trabalha como investigadora numa farmacêutica em Cambridge, Massachusetts.

 

 

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