Ter que partir e querer ficar

Ter que partir e querer ficar

Há uma realidade em Santo Antão que, na minha opinião, já não podemos continuar a ignorar: os nossos jovens estão a partir. Partem para São Vicente, Sal, Boa Vista, para outras ilhas e para a diáspora, à procura de trabalho, formação e oportunidades que sentem não encontrar na sua própria terra.

E há algo que, pessoalmente, me entristece ainda mais: há jovens que querem ficar em Santo Antão, que amam a sua terra e gostariam de construir aqui o seu futuro, mas acabam por partir porque sentem que não têm outra alternativa.

Muitos partem para Sal e Boa Vista, enfrentando realidades em que o custo de vida e as condições de habitação são muito diferentes e onde os salários nem sempre acompanham essas despesas. Ainda assim, preferem enfrentar essas dificuldades a permanecer numa realidade que, na sua perceção, lhes oferece poucas perspetivas de futuro.

Isto deveria fazer-nos parar e refletir.

É triste ouvir representantes da nossa ilha dizerem que está tudo bem quando, para muitos jovens e famílias, a realidade sentida é bem diferente. Há problemas que não desaparecem simplesmente porque deixamos de falar deles.

Na minha opinião, não precisamos de discursos que escondam as dificuldades. Precisamos, antes de tudo, de coragem para reconhecer aquilo que não está bem e vontade para procurar soluções.

As autarquias e os responsáveis públicos têm aqui uma responsabilidade enorme. Não podem impedir os jovens de partir — e nem devem. Mas podem e devem criar condições para que partir seja uma escolha e não uma obrigação.

Precisamos de mais oportunidades de emprego, de apoio ao empreendedorismo, de formação profissional, de investimento, de habitação e de novas atividades económicas que permitam aos jovens desenvolver os seus projetos na própria ilha.

E há algo que torna esta situação ainda mais preocupante: Santo Antão não tem falta de talento.

Temos grandes talentos espalhados por Cabo Verde e pelo mundo. Temos profissionais altamente qualificados, empresários, professores, técnicos, médicos, engenheiros e tantos outros quadros que nasceram ou têm raízes profundas em Santo Antão.

Muitos dos grandes quadros deste país têm origem em Santo Antão.

E muitos deles, depois de anos fora, continuam a sentir vontade de regressar. Querem voltar à sua terra, trazer consigo a experiência adquirida, investir, criar projetos e contribuir para o desenvolvimento da ilha.

Mas regressar também precisa de ser possível.

As dificuldades relacionadas com os processos alfandegários, os custos associados à entrada de bens e equipamentos e outras despesas e burocracias são preocupações frequentemente sentidas por quem pretende regressar e começar uma nova etapa em Cabo Verde.

Quando alguém decide voltar para a sua terra, deveríamos estar a facilitar esse regresso e não a criar obstáculos desnecessários.

Imagino muitas vezes o que Santo Antão poderia ganhar se conseguíssemos criar verdadeiras pontes com essa comunidade espalhada pelo país e pelo mundo.

Quantos conhecimentos poderiam regressar? Quantos projetos poderiam nascer? Quantas empresas poderiam ser criadas? Quantos jovens poderiam ser inspirados?

Não se trata de pedir a todos que regressem definitivamente. Trata-se de criar condições para regressar e contribuir.

Porque, quando um jovem parte, não parte apenas uma pessoa. Parte um talento, uma ideia, uma força de trabalho e uma possibilidade de contribuir para o desenvolvimento de Santo Antão.

Por isso, a pergunta que deveríamos fazer não é apenas: “Por que razão os nossos jovens estão a partir?”

Mas também:

“O que estamos a fazer para que um jovem que quer ficar não seja obrigado a partir?”

E, para aqueles que já partiram, deveríamos perguntar:

“O que estamos a fazer para que possam regressar?”

Santo Antão tem gente capaz, tem recursos, tem beleza, cultura e potencial. O que precisamos é de transformar esse potencial em oportunidades reais.

Eu acredito que os nossos jovens não deveriam ter de escolher entre amar Santo Antão e procurar uma vida melhor.

Porque partir é um direito. Mas ter de partir quando se queria ficar é um sinal de que alguma coisa precisa de mudar.

E talvez esteja na hora de deixarmos de dizer que está tudo bem e começarmos a olhar de frente para a realidade.

Porque uma ilha que vê os seus jovens partir não pode simplesmente perguntar por que razão foram embora. Também precisa perguntar o que fez — ou deixou de fazer — para que eles sentissem que tinham de partir.

E, sobretudo, precisa de começar a criar condições para que aqueles que ainda querem voltar possam dizer novamente:

“Eu quero regressar. E desta vez, quero ficar.”

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Aluísio Oliveira

Aluísio Oliveira

Nascido em São Vicente, criado em Santo Antão e atualmente residente na ilha do Sal, Aluísio Oliveira construiu o seu percurso entre o empreendedorismo, a educação e a intervenção social. Empresário nas áreas dos transportes e do comércio, concilia a atividade empresarial com a função de Subdiretor de Assuntos Sociais, Inclusão e Cidadania do Complexo Educativo Manuel António Martins (CEMAM).

Atento às transformações da sociedade cabo-verdiana, tem particular interesse pelas questões relacionadas com a juventude, educação, inclusão, cidadania e responsabilidade social. Através da sua intervenção e dos seus textos de opinião, procura trazer para o espaço público temas que considera fundamentais para o desenvolvimento da comunidade.

Outros artigos