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Em novembro, estive a acompanhar, de perto, a partida fugaz da minha tia, consumida pelo cancro.
De longe, avistamos a sua casa, pintada de cal branca, com um portão de ferro cuja cor agora foge-me à memória. Descemos a ribeira, outrora caminho de água; à medida que subíamos em direção à sua residência, aumentava o meu batimento cardíaco e um aperto na boca do estômago.
Recebeu-nos com alegria na voz, saída de um corpo magro e debilitado. Se o contacto não tivesse sido logo direto, diria que não era de uma pessoa gravemente doente. Uma força de viver, num corpo extremamente frágil e certa de estar prestes a partir.
Não lhe consegui responder, mas o meu coração reforçou aquelas palavras. Ela tinha toda a razão…
Passámos a tarde a conversar. Ela sentada no chão, com a cabeça apoiada na palma da mão e o cotovelo na pontinha do sofá de dois lugares; no outro sofá, a minha mãe num canto e eu apertada à minha tia, que insistia em falar de outras mortes. A fulana que teve a mesma doença e não aguentou, a sicrana que ouviu dos médicos que tinha dois meses de vida e viveu anos…
Partilhavam histórias da juventude, erros, contavam sobre gente que teve pouca sorte, muita sorte… A minha tia não falava como quem fosse morrer, apesar de a minha mãe me ter ligado logo de seguida quando ouviram, juntas, o relatório médico.
Desabafou-nos as suas dores, as mágoas e tentava justificar algumas decisões e atitudes que lhe custaram parte da alegria de viver. Era como se não falasse para nós. Senti, em cada palavra, desculpas a si mesma. Um implorar, suave, manso, pela compreensão de todos.
Sempre fui tagarela, mas naquele dia as palavras fugiram-me. Todas elas. Não percebia os meus sentimentos. Uma paz estranha no coração que me fazia sentir culpa. “Oh Deus, tudo, menos perder a minha sensibilidade.” As minhas primas, as suas filhas, principalmente a mais velha, por estarem longe, sofriam o mundo.
Regressei à minha casa e passei quase a noite toda em claro. Naquele dia, percebi alguma beleza em morrer, uma certa paz na despedida. Queria que os outros percebessem isso e acolhessem a partida da minha tia. Nem todas as partidas têm o privilégio da despedida.
Escrevo entre lágrimas de quem começa a perceber que a morte também tem a sua beleza, e não me perguntem o que isso pode ser. É apenas uma voz que me canta cá dentro e transborda pelos meus olhos. Não. Nada tem a ver com esconder-me atrás das dores das minhas perdas, algumas delas trágicas. Muitas vezes choro as minhas saudades com um sorriso nos lábios.
Estou aqui a tentar escrever, e perdoem-me. Não escreve o meu cérebro, mas o meu coração. Existe uma certa beleza em sabermos que a pessoa vai partir e temos tempo para conversar, ajustar e celebrar os momentos vividos. Existe, também, beleza no morrer.
Este texto foi originalmente publicado pela autora a 20 de junho de 2022 nas redes sociais.

"Sou a Jacky lá de casa e a primeira barriga da minha mãe.
Quase nada frequentei o pré-escolar, mas as letras misturaram-se aos desenhos ainda cedo para mim. Rabisquei poemas de amor, toda minha infância e agora mulher, escrevo as vidas que me chegam, atuo sobre as escritas dos outros e até canto (desafinada, claro). As palavras fascinam-me tanto. Nas suas mais variadas formas. E não é que elas têm vida? Permita-se."







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