Cinco dédadas de Independência: m’nha Cabo Verde, bo stâ buzin?

Nasci há 49 anos e meio, na outrora ilustre ilha de São Nicolau, hoje, a ilha esquecida, como gosto de dizer. Posso dizer que cresci juntamente contigo, Cabo Verde independente, e hoje sou uma mulher de meia idade. Eu sou de meia idade, mas tu, Cabo Verde, enquanto país autónomo, ainda és uma criança, ou talvez um pré-adolescente. E como todo pré-adolescente ainda não sabes o que és, e muito menos o que queres.

Eh m’nha Cab Verde, bu stâ buzim? Quando recebi o email da Cris dizendo que para o mês de julho estavam a desafiar os cronistas a escreverem sobre o teu percurso como país independente, pensei fazê-lo em forma de poesia, mas tendo consciência da minha pequenez enquanto poeta, decidi escrever-te esta carta, e contar como temos crescido juntos.

No dia da tua independência eu era um feto de quase 3 meses, que ainda se encontrava no aconchego do ventre da minha saudosa mãe, lá em Olt Listrada, na casinha que até hoje é de pedra e barro coberta de palha. A mesma casa que ilustra estas linhas que escrevo-te. A mamã disse que lá daquele alto, ela viu as pessoas “montod” nas poucas carrinhas que a outrora ilustre ilha de São Nicolau, hoje a ilha esquecida, tinha, e que ao ver o entusiasmo com que gritavam e acenavam a bandeira da independência, ela ter pensado para com os seus botões “vamos lá ver como vai ser agora, Maria”.

Eu nasci e nós mudamos para São Vicente, e a razão que o meu pai deu para a minha mãe, foi que a minha mana mais velha já ia entrar no liceu, e saniclau já não tinha liceu, mas acredito que o real motivo tenha sido a grande seca de 1976, o ano em que eu nasci.

Em São Vicente fomos viver em Monte Sossego, o bairro que me viu desmamar, aprender a andar, e a falar, por isso peço desculpas pelo meu criolo que não é de São Nicolau, mas sim uma mistura de Soncent e Sintanton.

A minha infância, à semelhança da infância das milhares de outras crianças da altura, foi vivida na rua, cuidada pela comunidade. Passamos por dificuldades, umas mais que outras, mas todas nós frequentamos a escola primária. Sou da geração de quando se implementou a refeição quente nas escolas primárias. Ainda sinto o sabor da bolacha rica em B12, sinto o cheiro da camoca com leite, e do cobiçado pêra seco. E olha que hoje, quase aos 50 anos de vida, voltei a consumir esse “combo” por conta das necessidades que o envelhecer impõe !!

Tu, Cabo Verde, foste construído do nada ou do quase nada. Sabes, a minha mãe tinha por hábito deixar o rádio sempre ligado, e enquanto eu fazia os meus “mandados” de casa ia ouvindo as intervenções das sessões do parlamento do tempo do partido único, e apesar da minha tenra idade, eu não entendia muito bem como é que sendo um único partido a mandar e a fazer parte do parlamento, como é que haviam pessoas no parlamento que discordavam do que era feito.

Lembro quando se deu a abertura política, do entusiasmo generalizado, principalmente dos muitos jovens afoitos, que queriam a liberdade, a sonhada liberdade para dizer, fazer e falar o que bem entendessem. Muitos jovens do meu bairro foram presos durante a campanha para as eleições de 1991. Foi um “abol”.

Mas, uma coisa me marcou: no dia 14 de janeiro, dia seguinte às eleições, eu fui às aulas normalmente, e uma carrinha cheia de jovens entrou no estacionamento do Liceu, e os jovens que desceram fizeram algo impensável: picharam as paredes do Liceu!!! Paredes que haviam sido pintadas meses antes com o apoio financeiro e braçal dos pais dos alunos.

Isso me causava uma certa confusão, e na altura com 14 anos, eu pensava “a liberdade é isso? “, porque para mim não passava de falta de educação e vandalismo. Mas, na altura, a minha mãe disse-me que na Independência havia sido a mesma coisa: a ânsia de ser independente, a raiva reprimida contra o colonizador fez com que muitos cabo-verdianos destruíssem várias coisas deixadas pelos portugueses.

Eu segui via rádio, a aprovação da tua/nossa constituição da república. A discussão de cada vírgula, cada ponto, ponto e vírgula, preposições …. minha mãe dizia-me sempre que quando viu aqueles jovens todos felizes com a independência, nem passava pela cabeça que a filha que trazia no ventre viria a ser tão politizada. Mas sou resultado dela, da minha mãe e do meu pai, que como qualquer emigrante, não gostava do PAICV nem do partido único, devido a forma pouco amiga com que foram tratados na altura.

A minha mãe era uma mulher ponderada, e preocupava-se com os políticos que decidiam candidatar-se a primeiro ministro, porque segundo ela, tu, Cabo Verde, não tinhas nada, não produzias nada e eras dependente dos apoios externos, e no entanto, os teus filhos cabo-verdianos passavam/passam o tempo inteiro à espera que o Governo faça tudo. Isso era o que a minha mãe pensava, e ela tinha razão.

Tu passaste muitos anos a receber ajuda externa e foste crescendo e desenvolvendo da melhor forma que foi possível. Mas, a certa altura acho que algo descarrilou. Para entendermos melhor vou fazer uma analogia entre eu e tu: eu já sou uma mulher de meia idade, e tu, enquanto país independente és um adolescente, e normalmente na adolescente temos a tendência para descarrilar porque ainda não sabemos se somos peixe ou carne. 

Acho que isso aconteceu porque aqueles que foram eleitos para tomarem conta de ti não souberam planificar-te enquanto país, não souberam traçar um plano coerente do país que queriam. E quando não sabemos o que queremos ser, acabamos por ser tudo. Tu precisas que paremos e pensemos que país queremos, e mais importante de tudo: que estabeleçamos um pacto de país, decidir o que queremos para este pedacinho de terra, onde somente sete ilhas é que são importantes e as outras duas são deixadas de lado como se os cabo-verdianos que lá vivem fossem cidadãos de terceira.

Precisamos decidir o que queremos em termos de Saúde, em termos de Turismo, Transportes e principalmente Educação. Porque acho que enquanto país, estamos complementamente perdidos no que diz respeito à Educação.

Meu Cabo Verde, a minha geração, a que teve o privilégio e a oportunidade de sair do país para estudar, conhecer outras realidades e regressar para contribuir para o teu crescimento e desenvolvimento, mas que entretanto não conseguiu produzir um ÚNICO líder digno desse nome, me deixa envergonhada, porque isso mostra que somos uma geração imatura. A tua filha Roselma disse uma coisa que precisamos urgente fazer: precisamos democratizar a democracia. Os políticos precisam pensar em ti Cabo verde, e não somente nos seus respectivos intestinos, e nós, o teu povo, precisamos pensar em ti enquanto um coletivo que somos, porque se continuarmos neste caminho em que cada um só pensa no seu intestino, não conseguiremos construir nada para deixarmos como legado. Se num futuro, a minha filha me disser que a minha geração deixou um Cabo Verde difícil para a geração dela tentar consertar, eu vou lhe dar razão.

Claro que não tenho só coisas menos democráticas a dizer-te aqui. Tenho coisas boas também. Tu conseguiste grandes feitos, principalmente no sector da saúde. De um país que tinha seis médicos, hoje tens trezentos e tal, dois hospitais centrais, três ou quatro hospitais regionais, centros de saúde, todos equipados minimamente. Já estás na transição epidemiológica há quase duas décadas. Hoje, as doenças resultantes da falta dos cuidados primários já não causam mortes. Hoje, as mortes são devidas às chamadas doenças não transmissíveis /adquiridas pelo estilo de vida. E aqui entra o mas (risos) … Mas, o que tens feito, o que temos feito para que a saúde seja realmente uma realidade? Onde estão as políticas de saúde que ensinam a população a alimentar-se corretamente para prevenir as doenças adquiridas, a exercitar-se para evitar obesidade e doenças do coração? Mas como exercitar-se se a segurança não está garantida? Se uma simples caminhada pode pôr em risco a minha vida por causa de assaltos e agressões? Se o grogue é mais barato que água e é acessível a todos?

São essas pequenas coisas que devem ser pensadas e planificadas, mormente num país pequeno como tu.

Tu começaste do nada, conseguiste transformar esse nada em alguma coisa, mas falta-nos conseguir transformar essa alguma coisa em algo consistente que beneficie a todos.
É com tristeza que digo-te que somos um país com um fosso social muito grande, com um povo que tornou-se preguiçoso e arrogante, à medida que foste crescendo. Nós perdemos aquele orgulho de “tirar um dia de trabalho” para construir um “buraco de casa”. Nos tornamos em autênticos mendigos, sempre a pedir, a exigir que o Estado nos ajude e nos dê as coisas. Fomos na contramão do que é ser independente e dono dos nossos destinos.

Termino estas linhas dedicadas ao teu 50º Aniversário de Independência, com uma frase do Norberto Tavares que acredito deveria ser o mantra de cada um dos teus filhos “ka nu dexa tudu pa nos Stadu fazi, nu djunta mon e no kompu nos Kabu Berdi”

Feliz 50 Anos m’nha Cab Verde

Viva a Independência!

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Vera Figueiredo

Vera Figueiredo

"Patxê parloa que cresceu em São Vicente, e que fala o crioulo com sotaque de S. Antão. Relações Públicas de formação, ambientalista de coração, adora ler, e escrever é a forma que encontrou de enfrentar os demónios e os anjos que habitam em si. Deve à minha mãe o gosto pela escrita e o tom sarcástico. Escreve mais prosa do que poesia e é sempre sobre a realidade do outro entrelaçado com a sua, com doses q.b de ironia. Uma “contadora de estórias dos outros” e se não fosse Relações Públicas, seria Astronauta"

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