Crónica: Eu, a Corrida pelo Clima e uma Banda sonora

Fui correr pelo clima. A minha segunda corrida de 5km deste ano de 2025 e a segunda corrida desde que quebrei o pé em 2020. Corri na categoria Veteranos! Sim, sou uma veterana com todo o orgulho e os "ais" e "uis" que vêm juntos. Fiz o percurso sempre a pensar em desistir e caminhar, mas a banda sonora que levei ao ouvido não quis colaborar.

Como numa competição, eu apareci trajada para a corrida. E como a Lily Braun, entrei na pista com um olhar esperançoso e vi, graças a Deus, que eu não era a única veterana com a cara de quem iria para um sofrimento voluntário de 5 Km, tudo em nome do Clima.

Ao som de versos como “sabias que o amor verdadeiro não pede nada em troca?” e “as today i know i ‘m living for tomorrow”do George Michael e Mary J Blige, percorri o primeiro km. Acreditando ser abençoada por ter acordado num beautiful day, comecei a penosa subida da rampa da Terra Branca, com o joelho direito a gritar socorro, o pé esquerdo a lembrar-me que não devo abusar da sorte, e que devo parar com esses desafios que não interessam a ninguém.

Mas, eis que Trakinamente, ao som do Avé Maria, lá fui passo a passo, encurtando a distância entre o Homem de Pedra e a rotunda da Terra Branca. Santíssima Mãe de Deus, mais uma subida!! Dessa vez é o D’nôs que me encara e “para e descansa” diz-me aquela vozinha da preguiça, aquela que nos diz que correr sem motivo é coisa de gente doida. “Que correr dói, e que procurar a dor de forma intencional é sinal que a alma não vai bem. Que quer se punir.”

No meu caso, a dor, o “pain” me fez ser uma Believer, uma crente que escreve coisas lindas e loucas enquanto se predispõe a testar seus limites. Como a música diz, a dor quebrou-me, mas transformou-me em uma Believer, fez-me acreditar que consigo tudo o que eu me propuser a conseguir. Esse tudo pode ser um fracasso ou sucesso. Vai depender da perspectiva, do ponto de vista que eu tiver.

Com o D’nôs conquistado, continuo a lutar com os meus pensamentos, mas a música que trago ao ouvido faz-me ver mais uma vez que Big Girls não choram, pois apesar da saudades que tenho do meu amor, preciso seguir com a vida, e para além disso faltam três enormes quilômetros para a meta, e não sou mulher de desistir, mesmo que o joelho podre esteja a implorar pelo atirar da toalha, e os pulmões a lembrarem-me que preciso recomeçar as minhas aventuras malucas com a bike.

Com a promessa de ser sempre tua amiga, e tu, meu eterno amor, chego à rotunda dos negócios estrangeiros. Decido que só mais três minutos e vou abrandar o passo, mas eis que deixo-me cegar pelo The Weekend, e sem me aperceber meus pés aceleram ao som do Blinding Lights e decido que não posso parar sem sentir teu toque. Mas estás longe.

A Assembleia Nacional surge imponente ao meu lado e penso, é desta que reduzo o passo, e começo a caminhar, afinal não cometi o crime maior, que foi matar o Cabral, mas o 2Pac com o “Changes” me obrigam a manter o ritmo de corrida, porque that’s the way it is, e as coisas nunca mais serão iguais depois desta corrida. Se eu quiser fazer a diferença, se eu quiser continuar a diminuir a minha pegada ambiental no mundo, preciso fazer “some changes”, mudar minha forma de viver, mudar minha forma de comer, mudar a forma como trato os outros, mudar a forma com trato a mim mesma. Desistir de correr ao som dessa música seria desrespeitar o 2Pac e o significado que a música “changes” sempre teve na minha vida.

Assim, reunindo o último fôlego, e as últimas forças dos músculos das pernas, mas principalmente do cérebro, cortei a meta da corrida pelo clima. Eu, uma veterana que não ocorre há nove meses, completei os 5km em 35 minutos.

Parabéns para mim! Parabéns por procurar sempre estar do lado certo da história, e por nunca desistir perante um desafio. Mesmo que esse desafio seja correr uns míseros 5 km num passo de lesma. Mas pelo menos eu fui, e tu?

 

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Vera Figueiredo

Vera Figueiredo

"Patxê parloa que cresceu em São Vicente, e que fala o crioulo com sotaque de S. Antão. Relações Públicas de formação, ambientalista de coração, adora ler, e escrever é a forma que encontrou de enfrentar os demónios e os anjos que habitam em si. Deve à minha mãe o gosto pela escrita e o tom sarcástico. Escreve mais prosa do que poesia e é sempre sobre a realidade do outro entrelaçado com a sua, com doses q.b de ironia. Uma “contadora de estórias dos outros” e se não fosse Relações Públicas, seria Astronauta"

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