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Definitivamente, 2026 é um ano mágico. E quando se faz uma promessa para o Santo Amaro, tens de a cumprir. Porque faço essa afirmação? Passo a explicar: quem me conhece e segue nesse mundo digital sabe que há uma década que faço a contagem crescente dos dias do ano, aliados a desafios malucos que crio para mim mesma.
Quando, em janeiro, iniciei a minha habitual contagem e apelidei 2026 de “Livro Mágico” — em que cada dia seria uma página —, não passava pela minha imaginação fértil e criativa que teria um mês de junho e de julho tão à flor da pele. Chamo 2026 de ano mágico porque é o ano em que completei 50 anos de vida, e foi lá em São Nicolau, em Canto Fajã, onde o meu umbigo foi enterrado antes da minha mudança para São Vicente aos 11 meses de idade.
Por ser um ano com um marco tão significativo, prometi a mim mesma que o viveria da forma como quero viver o resto da minha vida: a fazer mais coisas que eu gosto e da forma como gosto — como se ninguém estivesse a ver, até porque, na realidade, ninguém está a ver mesmo.Comecei o ano pagando uma promessa: pedalar 50 km de bicicleta em Mindelo em memória de uma amiga que completaria cinco décadas de vida caso estivesse ainda neste plano. E olhem que completar 50 km em São Vicente não é assim tão fácil, pois a ilha é pequena.
E foi assim que, às vésperas do 1º jogo de Cabo Verde na Copa, estava eu no Tarrafal em frente à Igreja de Nhô Santo Amaro, decidi conversar com o Santo e prometi-lhe que, caso Cabo Verde não perdesse com a Espanha, eu, Vera Lúcia, iria fazer o Gran Fondo (100 km de bike) antes do 2º jogo dos Tubarões Azuis. Não perdemos, e paguei todas as minhas culpas e nhas pekôd, pagando os 100 km, pois quando se faz uma promessa ao Nhô Santo Amaro tens de cumprir, não vá Aquele a quem não devemos “mentar” o nome fazer das suas.
E não é que contra o Uruguai, os Tubarões Azuis, que já tinham entrado para a história das Copas ao não sofrerem golos da Espanha, “fincaram” não 1, mas 2 golos ao Uruguai?! E quem marcou o primeiro golo de Cabo Verde? Um menino do Bairro Craveiro Lopes, o Kevin “Lenini” Pina! Descrever o que senti quando ele fez aquele golo não cabe na tinta de todas as canetas e nem no papel de todos os cadernos (sim, sou analógica)! Só sei que chorei de pura felicidade e, maluca que sou, prometi a mim mesma que iria pedalar 100 km por ele: Kevin Lenini.Iria pedalar para que ele pudesse ter mais uma história improvável para contar à filha e aos netos, caso ele venha a tê-los. Na minha mente de desenhadora de sonhos por meio de palavras, passou este diálogo provável entre os netos dele e os meus bisnetos (sim, bisnetos, porque tenho idade para ser mãe do Kevin), em que um Kevin Neto virará para uma Didi Bisneta e dirá, todo cheio de orgulho: “Nha Avô Kevin Lenini é quem marcou o 1º golo de Cabo Verde numa Copa do Mundo, e o teu avô, kuse kel fazi?”E a minha Didi Bisneta responderá: “Nha Avô não sei, mas a minha bisavó prometeu fazer uma pedalada de 100 km de bicicleta para quem fizesse o 1º golo de Cabo Verde na Copa, e cumpriu!”
Sim, prometi e cumpri! Muitos poderão dizer: “Mas por que pedalar tantos km por alguém que não conheces?”. E eu direi: cumpri, assim como todos os rapazes dos Tubarões Azuis prometeram dignificar esse meu Cabo Verde que tanto amo, e cumpriram. Precisamos dar exemplos bons aos mais novos para que cresçam a acreditar que é possível fazer sempre o melhor que cada um traz dentro de si. Se eu voltaria a fazer os 100 km? Voltaria, porque pedalar não me mata, mas com certeza faz com que eu fique mais forte.
E pedalar traz-me a certeza que ter 50 anos é continuar a ter a audácia que o jovem do Bairro Craveiro Lopes teve ao chutar a bola para o fundo da baliza. O Livro Mágico de 2026 já passou da metade e continuo a escrevê-lo , página a página, kilómetro a kilómetro. E que venham os próximos capítulos.

"Patxê parloa que cresceu em São Vicente, e que fala o crioulo com sotaque de S. Antão. Relações Públicas de formação, ambientalista de coração, adora ler, e escrever é a forma que encontrou de enfrentar os demónios e os anjos que habitam em si. Deve à minha mãe o gosto pela escrita e o tom sarcástico. Escreve mais prosa do que poesia e é sempre sobre a realidade do outro entrelaçado com a sua, com doses q.b de ironia. Uma “contadora de estórias dos outros” e se não fosse Relações Públicas, seria Astronauta"





