Anané Vega: “É importante para mim ter a influência de Cabo Verde no meu trabalho”

De passagem por Cabo Verde depois de quatro anos, a DJ e produtora de origem cabo-verdiana Anané Vega que afirma que não programa uma playlist antes de ir atuar, falou ao Balai sobre a sua editora, a diversidade cultural que passou a celebrar e a importante presença da cabo-verdianidade no seu trabalho.

Anané Vega esteve em Cabo Verde em finais de abril para atuar no âmbito de uma série de shows dedicadas ao afrohouse que tiveram lugar no Warehouse na Cidade da Praia, e aproveitou também para celebrar mais um aniversário na terra natal.

Celebrar o aniversário no país onde nasceu teve um sabor especial, nas palavras de Anané Vega, até porque a última vez que esteve em Cabo Verde foi para participar no Atlantic Music Expo, AME, em 2018.

A residir há longos anos nos EUA, Ana Cristina Monteiro Martins Vega, mais conhecida no meio artístico como Anané diz que Cabo Verde está sempre presente no seu trabalho. “Sempre e em qualquer oportunidade que tenho falo sobre Cabo Verde e, também, na música que faço há influência das minhas raízes”, explica.

Revela que como cantora os primeiros temas que compôs foram em crioulo, mas também ao lado do marido Louie Vega, produtor musical americano de origem porto-riquenha, fez adaptações mais modernas de temas em crioulo e cita exemplos como Bem ma Mi (2008), Terra Longe (2011) e Sodade (2013). “Para mim é importante ter a influência e a presença de Cabo Verde no meu trabalho”.

Há cerca de 13 anos que Anané criou a sua própria editora discográfica – a Nulu Music. “Fomos das primeiras labels com influência afro em termos de dance music”. Depois de alguns anos surgiu a Nulu Electronic que é mais dedicada à música eletrónica, como diz o nome.

Salienta que não tem tanto contacto como gostaria com o público cabo-verdiano e faz uma revelação curiosa: “não tenho uma playlist quando vou atuar, nunca programo a música. Para mim atuar ou ser artista é ter uma conexão com o público e é uma oportunidade de ver e sentir com é que o público está a sentir com o que estou a tocar”. Daí que tenta sempre “estar aberta para introduzir outros estilos que talvez o público nunca ouviu, para ver se as pessoas estão recetivas à música que está a tocar”.

Quanto às colaborações e trabalhos com artistas cabo-verdianos, a DJ e produtora recorda que já trabalhou com o Djeff Afrozila. “O primeiro trabalho musical dele foi através do Nulu”, e cita outros nomes como Sylvie, Johnny Ramos, a nível de exemplo. Mas há muitos outros artistas com os quais gostaria de trabalhar, diz. É o caso de Mayra Andrade, Dino D’Santiago, bem como Tito Paris, Nelson Freitas, Lura, entre outros.

Celebrar a diversidade

 

Enquanto filha de mãe cabo-verdiana e pai português, Anané cresceu em Pawtucket, Rhode Island, nos EUA, e confessa que a questão identitária esteve sempre presente até passar a celebrar a mistura de culturas.

“Hoje em dia é tão importante (falarmos disso) sobre quem somos (…) com tanta mistura é mais fácil falar sobre isso, mas naquele tempo na América (onde cresceu), a minha cor e o meu cabelo eram diferentes das minhas colegas na escola. Então, eu não tinha uma identidade, naquela altura falava-se mais em preto ou branco, hoje em dia já são as cores do arco-íris. Hoje já não é assim, é mais fácil, pelo menos para mim, ser uma mistura e poder falar da diversidade cultural. Sinto-me rica por ter culturas diversas e agora poder passar e falar sobre isso com o meu filho. Levou-me algum tempo para me encontrar. Estava na América e queria tanto ser americana. Passaram os anos, com a idade e com a experiência da vida mudaram a forma de pensar e passamos a aceitar o que somos. Comecei a entender que é algo especial: ter várias culturas e viver e celebrar a diversidade das culturas”.

Confessa que apesar de atuar frequentemente em países como Itália, Espanha, Grécia, gostaria de apresentar-se mais em Portugal.

Com cerca de 20 anos de carreira, a sua ambição maior, neste momento, é de continuar a trabalhar, a viajar pelo mundo para continuar a conhecer pessoas e lançar carreiras de outros artistas.

“Quanto mais idade temos, mais queremos as coisas simples. Neste momento, a minha felicidade é ver as carreiras dos artistas que lançamos a alcançar o sucesso”.

Até agora já ajudou a lançar mais de 200 artistas através da Nulu onde trabalham com profissionais de Itália, África do Sul, Angola, Moçambique, Grécia, Brasil, Puerto Rico, entre outros.

Em jeito de balanço, hoje acredita que fez as escolhas certas e explica porquê. “Na vida não devemos pensar: ‘Ah eu devia ter feito’. Na nossa jornada da vida, devemos acreditar que tudo foi como era suposto. Olhando para trás se há coisas que não fazia? Pode ser. Mas tudo o que eu fiz me tornou no que sou hoje”.

A menina de Patwucket que cresceu com dois irmãos, viveu sempre numa família tradicional. A mãe sempre lhe dizia que para sair de casa teria de se casar. “Passei a minha juventude a escapar à noite pela janela”.

Começou a trabalhar ainda com 15 anos e, por vezes, não ia as aulas. Comprava um bilhete de autocarro para Nova Iorque. Olhava para aqueles prédios e sonhava com o dia que poderia viver nessa cidade.Um dia teve a coragem de participar num casting para bailarinas num show da MTV. No dia seguinte, ligaram para sua casa e a mãe que atendeu o telefone não lhe deixou aceitar proposta.

“Acho que por ter crescido nesse contexto que sempre quis ser uma voz para as mulheres não só para as artistas (…) sinto que tenho essa responsabilidade como ser humano”.

Quando optou por ser DJ ainda sofreu alguns olhares preconceituosos até porque esta área foi até bem pouco tempo dominada por homens. “Chegava para ir trabalhar de vestido e saltos altos e toda a gente perguntava: Quem é o DJ hoje à noite? E pensavam que era o meu assistente. Eu dizia: ‘Sou eu’”. Foi o único momento que sentiu essa pressão a nível profissional, mas Anané diz que prefere pôr mais atenção nas coisas positivas.

Para o futuro, garante que vai estar mais próxima do país onde nasceu.

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