Após batalha contra dependência química, Paulinha quer reconquistar palcos

Cedo começou a destacar-se na música cabo-verdiana, mas Paulinha viu a sua trajetória interrompida devido ao envolvimento com o álcool e as drogas. Em entrevista ao Balai, a artista conta como foi o processo de recuperação e a sua volta para a área da música após algum tempo afastada.

Filha de pai bravense e mãe de São Vicente, a cantora Paula Teixeira, mas conhecida por Paulinha, conta que o seu interesse pela música começou desde a infância e que transformava tudo ao seu redor em melodia. Inspirada por artistas como Cesária Évora, Gil Semedo, Grace Évora, Suzanna Lubrano e Celine Dion, Paulinha encontrou na música uma forma de expressão que logo se tornou em paixão e aos 14 anos deu início à carreira como cantora.

Embora tenha estudado Fisioterapia, com interesses na área do desporto e massoterapia, a cantora decidiu dedicar-se à música e atualmente também exerce a profissão de aromaterapeuta e faz óleos para cabelo e pele.

A residir atualmente em Cabo Verde, a cantora conta que viveu por algum tempo nos Estados Unidos da América, país onde se formou na área da música e concluiu o ensino secundário.

Dependência de álcool e as drogas

A jornada de Paulinha não foi isenta de obstáculos. A cantora conta que no período que começou a cantar era muito tímida e a pressão de se apresentar diante do público a levou a buscar refúgio no álcool e nas drogas. Acrescenta que seguia o exemplo de uma das suas referências, a cantora Cesária Évora, que na época bebia e fumava. “O que começou como uma forma de enfrentar a timidez se transformou numa dependência”.

“Com o tempo envolvi-me mais com o álcool e o cigarro e depois de alguns anos comecei a fumar marijuana e entrei num ciclo de usar todo o tipo de drogas”, lamenta.

Paulinha emigrou para os EUA para continuar os estudos e em 2013 após o nascimento da filha e do lançamento do seu primeiro CD, começou a usar cocaína de forma abusiva o que resultou na sua perdição. “Esta dependência química fez-me planear a minha morte, que originou a perda da minha autoestima, do meu emprego, da minha dignidade, do respeito aos próximos e entrei em depressão. Tentei suicidar-me e fiquei quatro dias em coma”.

A dependência química acabou por prejudicar a sua vida profissional, chegou ao ponto de não cumprir os horários dos shows, explica. Além disso, todo o dinheiro que ganhava a trabalhar era gasto em bebidas e drogas e como resultado diz que perdeu a voz e manchou a sua imagem pública, afetando a sua reputação e credibilidade como artista.

Processo de recuperação

Todas as dificuldades que enfrentou com a dependência fizeram Paulinha perceber que estava a acabar com a sua vida. Foi quando resolveu procurar ajuda.

“Fui para a Granja de Achada São Filipe em 2022, onde fiquei 6 meses internada em recuperação e foi uma das melhores decisões que tomei”, revelou. Consequentemente, teve de dar uma pausa na sua carreira musical para se focar no tratamento.

Após a recuperação, a cantora explica que recuperou a confiança da sua família, principalmente da filha da qual acabou por se afastar quando estava em recuperação. A mesma acrescenta que resgatou a autoestima, a saúde e a carreira como cantora.

Durante o processo do tratamento, a artista contou com várias ajudas sem as quais seria difícil conseguir, nomeadamente, das autoridades, da família, de amigos e colegas de trabalho, enfermeiros, terapeutas e teve muita fé em Deus.

Por outro lado, Paulinha diz que quando estava internada ouvia músicas que lhe deram força para continuar a lutar e cita os singles “Só Bensons” e Dexam Bua” do rapper Helio Batalha e também as músicas do artista Ga Da Lomba. “Para além de ouvir estas músicas escrevi alguns singles, entre eles “Dia de Amanhã” que significa que o ontem já passou e que temos que aproveitar da melhor forma o nosso presente, também escrevi quatro louvores, para agradecer a Deus por ter me dando força para lutar pela minha vida”.

“Hoje sou uma pessoa em recuperação e não tenho vergonha por causa disso, aconselho aos jovens que estão a passar pela mesma situação a buscar ajuda porque o nosso país tem respostas, como por exemplo, o Centro de Saúde de Tira Chapéu, a Granja de Achada São Filipe, as Tendas Al Shadai, a Fazenda Esperança e entre outras instituições”, disse.

Pede aos jovens a nunca experimentar as drogas porque é um caminho sem volta, o que às vezes acontece por curiosidade ou divertimento mas que leva à dependência, por isso a melhor forma de evitar este tipo de situação é não experimentar.

“O certo não é resolver um problema com o outro problema, é o caso do suicídio, as pessoas decidem tirar a suas vidas pensando que esta é a melhor solução. Aconselho a pedir ajuda e apelo à sociedade para não julgar e ser mais empática com as pessoas que estão a passar por uma depressão, ansiedade ou qualquer tipo de dependência”, acrescentou.

Hoje com 39 anos, Paulinha diz que tem muita gratidão ao seu passado e que antes se via com autopiedade e tristeza, mas que agora é uma vencedora por recuperar a sua sobriedade.

O regresso à música

Após seis meses internada na Granja de Achada São Filipe, em 2023 Paulinha voltou a dedicar-se à carreira como cantora e lançou o seu primeiro single pós-tratamento intitulado de “Seja Feliz”. O título da música tem a ver com o empoderamento e apelo à felicidade da mulher e ao mesmo tempo representa o rosto das mulheres cabo-verdianas.

A cantora revelou que foi bem acolhida pelo público e que recebeu vários feedbacks positivos por estar de volta.

Este ano participou na abertura da 10.ª edição do Atlantic Music Expo, AME, onde diz que foi bem recebida pela organização e pela plateia. A experiência de atuar no AME foi muito positiva porque Paulinha diz que se sentiu muito feliz e amada por reviver a sensação de estar de novo em palco a cantar e a conviver com jovens artistas e outras individualidades presentes.

A cantora acredita que está preparada para voltar ao estúdio para gravar novos projetos e revelou que no dia 11 de maio deste ano vai atuar nos Estados Unidos da América com a participação de um artista surpresa.

“Os meus planos são manter-me em recuperação, gravar novas músicas, fazer duetos com outros artistas e em breve tenho uma surpresa boa para os meus fãs que vai ser gravada nos Estados Unidos da América. Só tenho a dizer que já estou de volta com muita música, dança, garra, força e resiliência”, finalizou.

Cidália Semedo/Estagiária

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