“As festas de São João no Porto Novo são o que são porque houve quem as resgatasse em 1996”, diz ator Jorge Martins

O ator e realizador Jorge Martins, um dos impulsionadores das festas de São João no Porto Novo, Santo Antão, disse hoje que as festividades “são o que são” atualmente porque houve quem resgatasse a tradição, há 26 anos.

Em 1996, estas festas de romaria “já davam mostras de desaparecimento”, numa altura em que “os romeiros para tocarem e colarem o ‘son jon’ era preciso realizar concursos”, explicou à Inforpress Jorge Martins, que disse que, nessa ocasião, “as tradições eram, praticamente inexistentes”.

Perante o declínio das festas, Jorge Martins, conjuntamente com outros impulsionadores desta manifestação popular, decidiu criar “uma comissão de resgate” da qual fizeram parte ainda os ativistas João do Rosário, o falecido cantor Mikinha, o artesão e ator João Baptista Delgado, o engenheiro Manuel Ramos e outros.

“Quando em 1996, as festas de romaria de São João já davam mostras de desaparecimento em que os romeiros para tocarem e colarem era preciso concurso, as tradições estavam praticamente inexistentes, criei uma comissão de resgate das festas, liderada por mim. Decidimos, mediante uma investigação sobre as tradições, trazer todos esses elementos à ribalta”, sublinhou Jorge Martins.

Na altura, adiantou a mesma fonte, o então presidente da câmara municipal, Joel Barros, “acolheu de bom grado” a iniciativa destas pessoas e decidiu colaborar na recuperação das festividades que estavam em “morte lenta”.

“Percorremos todos os cantos da ilha de Santo Antão à procura de colaboradores que, massivamente, disponibilizaram meios e recursos para ornamentar de verde Porto Novo desde o recinto de 5 de Julho até ao cais acostável”, enalteceu Jorge Martins.

Nesse ano, foi construída a aldeia cultural onde foi montado um trapiche com “cola boi”, com moagem de cana de açúcar, com a produção de grogue através de um alambique instalado nesse espaço, que viria a ser requalificada em 2013.

A aldeia cultural, que retratava a antiga aldeia do Porto Novo, antes de se tornar vila em 1962, recebeu um casamento à moda antiga, com cavalo, mulas e carroça que transportava os noivos, com o “boxon” e todos preparativos a sua volta, incluindo o roubo da noiva.

Ao artesão Sebastião Monteiro “Betxinha” foi pedido que construísse tambores que foram comprados e distribuídos aos jovens para poderem aprender a tocar e participar das festividades.

A comissão de resgate incentivou as coladeiras para se envolverem nas festas, realizou uma feira de produtos hortícolas, dinamizou o artesanato e a gastronomia com fongos, cuscuz quente e torrado, batata assada com leite de cabra, guisado de “Menel Antone”, feijão verde com cabrito, papa de abóbora, catchupa, milho verde, milho em grão e caldo de peixe.

Foram ainda resgatados os rosários, roscas e bonecas, a tradição de ramos e do “colá fgid”, além de muitos outros hábitos ligados aos festejos que estavam a cair no desuso, avançou Jorge Martins, lembrando que, nessa época, foram mobilizados “milhares de pessoas” para a peregrinação da imagem do santo.

A peregrinação já ia enfraquecendo e que se ressuscitou graças à forte mobilização”, exaltou.

“Nos dois anos seguidos (1997 e 1998), os peregrinos multiplicaram-se e podemos garantir que se hoje as festas de São João são aquilo que são é motivado ao forte investimento que fizemos para as salvaguardar e as promover”, apontou Jorge Martins.

A aldeia cultural recebeu danças e musicas tradicionais, com violino, violas de dez cordas, cavaquinho, “bantxe” e chocalho, tendo ainda o teatro com Juventude em Marcha feito parte do leque de atividades.
Reativou-se também o baile popular no recinto 05 de Julho e a tradição de verbena, ou seja, um baile de conjunto realizado de dia.

A partir de 2017, com a classificação das festas de São João como património cultural imaterial nacional, esta manifestação cultural e religiosa ganhou uma grande dimensão, sendo, neste momento, considerada uma das mais populares de Cabo Verde e o “maior atrativo turístico” deste concelho.

Inforpress

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest

Agenda