Assol Garcia: “O meu sonho é ver a música tradicional a ganhar palco nos festivais de Cabo Verde”

A artista natural da ilha do Fogo afirma, em entrevista ao Balai, que a música tradicional é mais valorizada fora de Cabo Verde e que a valorização passa pelo reconhecimento dos artistas que cantam esse género.
Foto@cedida por Assol Garcia

A música entrou de forma espontânea na vida de Assol Garcia e hoje a sua missão é cantar Cabo Verde, algo que diz que faz com muita paixão.

“Sempre tive essa paixão pela música e abraçar os géneros tradicionais foi uma grande paixão, não uma escolha, porque sempre me tocou fortemente. Recordo que quando era pequena gostava de ouvir música tradicional, especialmente a morna. (…) A morna é a minha âncora onde posso expressar os meus sentimentos sejam eles de tristeza ou de felicidade”, confessa Assol Garcia.

No final do mês de novembro, a artista natural da ilha do Fogo, radicada nos Estados Unidos da América, lançou no mercado o seu segundo trabalho discográfico “Ecos de Mim”, que sucede “Alma Di Minino” de 2015. Ambos os trabalhos espelham a sua ‘paixão incondicional’ pelos ritmos tradicionais.

“Ecos de mim” foi gravado em quatro países e levou três anos para ficar pronto, devido à pandemia da covid-19. O álbum conta com a participação de mais de 35 artistas, bem como de diferentes produtores como Kim Alves, que é responsável pela maioria das faixas, Toy Vieira, Kaku Alves, Khaly Angel, Djim Job e Calú Monteiro.

“‘Ecos de mim’ é tudo de mim para os meus fãs e para todas as pessoas que gostam do meu trabalho”, diz e acrescenta que o feedback tem sido positivo.

Este trabalho tem um sabor especial para a artista que contou com a colaboração do seu primeiro filho que desenhou a capa de “Cores do Amor”, uma composição do compositor, músico e produtor brasileiro Heberth Azzul. “A família é o nosso suporte e o meu filho deu o seu grande contributo e pode expressar o seu sentimento na capa de um dos meus trabalhos. Para mim é algo muito especial.”

“Ecos de Mim” já foi apresentado apenas no Luxemburgo e, segundo a artista, o show “foi muito bom” apesar de ter mudado todo o repertório, visto que as pessoas estavam com vontade de ouvir o primeiro disco. “Foi incrível porque quando cheguei ao palco as pessoas cantavam comigo todas as faixas do disco, praticamente o público ajudou-me a fazer o show. Foi uma troca muito especial e agora tenho que regressar para apresentar o segundo disco”, diz entre risos.

Em finais de maio e início de junho a artista pretende apresentar o CD em quatro ilhas do arquipélago e em outubro será a vez da Holanda. “Tudo o que faço em relação à música é dedicado aos meus fãs e acredito que este ano vou ter muitas oportunidades de fazer shows e de estar perto deles e sentir as suas energias perto de mim porque fiz da música a minha vida, do palco o meu mundo e os meus fãs com certeza são a minha maior inspiração.”

Valorização do género tradicional

Questionada sobre se a música tradicional é valorizada em Cabo Verde, apesar de acreditar que a nova geração tem feito um excelente trabalho para a sua preservação e elevação, Assol Garcia diz que ainda há um caminho longo a percorrer em prol da valorização.

“O meu sonho é ver a música tradicional a ganhar palco nos festivais de Cabo Verde. Podiam dar mais oportunidade para os artistas do género tradicional. (…) Acho que isso é um aspeto muito importante que devia ser discutido em Cabo Verde. Acho que a música tradicional é mais valorizada fora do arquipélago, apesar de termos grandes amantes de coladeira, funaná, etc, que sempre marcam presença nos shows.”

Assol Garcia acrescenta ainda que os artistas do género tradicional têm mais oportunidades fora do que no próprio país e quando atuam em Cabo Verde precisam se “impor” para ter condições para realizar um show razoável.

“Os artistas de outros géneros têm um grande favorecimento em termos da organização de um show (em relação aos do tradicional). Vê-se logo uma diferença nesses tipos de géneros”, salienta e diz que é preciso valorizar todos os artistas cabo-verdianos independentemente do género.

Nos seus trabalhos, a artista foguense sempre faz questão de cantar temas de compositores de renome da música cabo-verdiana como forma de salvaguardar os seus trabalhos.

“Canto música tradicional com muita alma e amor e a minha preocupação é tentar preservar o nome dos grandes artistas, muitos infelizmente já faleceram. (…) Criei até um projeto que já vai na Rapsódia II que é Mornas e Memórias que visa dar continuidade a nossa morna e resgatar músicas que foram gravadas há vários anos e dar-lhes uma nova roupagem de forma a preservá-las e mostrar à nova geração que a morna é a nossa identidade, logo não podemos deixá-la cair no esquecimento e deixar os grandes nomes para trás.”

“Eu e o Kim Alves temos uma afinidade musical extremamente forte”

Encontraram-se pela primeira vez num restaurante no centro da cidade da Praia onde Assol cantava, encantado pela sua voz, o compositor, produtor e multi-instrumentista Kim Alves prometeu-lhe gravar um disco, algo que viria a acontecer anos mais tarde nos EUA.

“Eu e o Kim Alves temos uma afinidade musical extremamente forte e para além de ser o meu produtor e diretor musical é um amigo do peito. Sempre tivemos essa conexão musical e amizade fora de série. Sempre foi um prazer trabalhar com o Kim (Alves) desde o primeiro álbum que ele aceitou gravar comigo.”

A cantora está nomeada nos International Portuguese Music Awards (IPMA) com o single “Caxon ka tem cofre” da autoria de Kim Alves. Esta é a terceira vez que Assol Garcia está a ser nomeada. “Para mim só de levar a música de Cabo Verde para o evento já é uma grande vitória.”

Assol está nomeada na categoria “World Music Performance” ao lado da mindelense Cremilda Medina com quem partilha a mesma paixão pela a morna.

“Estar ao lado de Cremilda Medina para mim é um grande prazer. Temos uma grande amizade como irmãs e nos identificamos uma com a outra. A Cremilda tem uma forma de cantar, tem uma doçura e uma forma de expressar que para mim é um dos requisitos que fazem parte dos artistas que admiro. E a Cremilda é uma grande cantora, sem falar que ela é uma pessoa muito meiga e dócil.”

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