Bertânia Almeida: “A morna tem a sua própria essência que a torna intemporal”

A artista que nasceu em São Nicolau divide a sua vida entre a arquitetura e a música tradicional, tendo recentemente lançado o seu álbum de estreia “Descobri”.

Após um interregno de 10 anos, Bertânia Almeida regressou aos palcos em 2019 e lançou o seu primeiro disco “Descobri” em 2023. Em entrevista ao Balai, esta arquitecta de formação revela que agora quer dedicar-se mais à música. A artista natural de São Nicolau está nomeada este ano em duas categorias dos CVMA.

Bertânia Almeida tem 39 anos e nasceu no Tarrafal de São Nicolau, ilha onde teve contacto com a música desde tenra idade através dos pais.

“Os meus pais sempre ouviram música em casa, essencialmente géneros tradicionais, cresci nesse ambiente e ganhei sensibilidade. (…) Lembro que o meu pai sempre teve uma insistência em falar comigo sobre mornas, autores e o significado de cada letra. Ele tinha essa preocupação, mas na altura eu não ligava, tinha outras referências musicais”, conta em entrevista ao Balai.

Bertânia Almeida recorda que ouvia músicas de Bana – “que é um dos maiores intérpretes de Cabo Verde” – Cesária Évora, Ildo Lobo – “uma grande referência na música tradicional” – Pantera, que diz que era um artista “incrível”, bem como de artistas internacionais como Caetano Veloso, Maria Bethânia, Tom Jobim, entre outros.

Ainda pequena mudou-se para a ilha de São Vicente na companhia dos pais que continuaram a incentivá-la para a música.

“Em 1996, a minha mãe inscreveu-me no concurso Pequenos Cantores e acabei por ficar em primeiro lugar. Os meus pais sempre me incentivaram em relação à música, talvez viam algo em mim que eu na altura não prestava atenção, nem ligava. Gostava de cantar, mas não tinha nenhuma ambição em ser cantora.”

O seu contacto mais profundo com a música viria a acontecer em 2002 quando rumou para Portugal para cursar Arquitetura na cidade de Coimbra, onde integrou um grupo de estudantes que cantavam músicas tradicionais de Cabo Verde. Juntamente com o grupo, Bertânia fez várias atuações em terras lusas e chegou a atuar na ilha de São Vicente. “(…) Era uma entrega de corpo e alma à nossa música. Posso dizer que esse apego para a música, sobretudo pela morna, começou em Portugal.”

Depois de concluir os estudos regressou a Cabo Verde em 2009, tendo deixado a música de lado. “Houve muitas mudanças na minha vida, tanto familiares como a nível de projetos. Queria dedicar-me à minha área de formação e a música acabou por ficar de lado durante 10 anos.“

Após um interregno de dez anos e com a sensação de que lhe faltava algo, Bertânia Almeida regressou aos palcos em 2019, tendo começado na ilha do Sal e depois em São Vicente. Foi nessa altura que conheceu pessoalmente Rufino Almeida, de nome artístico Bau, com quem viria a gravar o seu primeiro álbum mais tarde.

Sempre admirei o Bau como músico e fiquei contente de o ter conhecido pessoalmente. (…) Depois de alguns espetáculos, estreitamos a amizade, ganhei confiança e o abordei sobre o meu desejo de realizar um trabalho só de voz e guitarra. Fiquei com receio se ele iria aceitar devido ao músico que ele é e da sua experiência. É um músico renomado e eu estava apenas a começar na altura, mas arrisquei e ele aceitou e ficou até muito contente porque é algo que ele gosta. Passei a frequentar a sua casa para ensaiar, mas sem nenhum espetáculo à vista, apenas para fazer um repertório e nos conhecermos, tentar criar uma sintonia entre nós e isso foi bastante importante”, conta.

No início de 2020, Bertânia Almeida fez a sua primeira apresentação a solo no Centro Cultural do Mindelo ao lado de Bau e, segundo diz, apesar do distanciamento imposto devido à pandemia da covid-19, “foi um momento importante e marcante”.

No ano seguinte, criou a sua empresa de arquitetura e a sua maior preocupação era formar uma equipa que pudesse confiar para delegar funções de forma a poder dedicar-se também à música.

Descobri”, um álbum que mostra a riqueza da morna

No ano passado (2023) a parceria com Bau resultou num trabalho discográfico denominado “Descobri”, que segundo a artista diz “é a redescoberta da música” visto que passou muito tempo sem qualquer envolvimento nessa área. “(…) De certo modo, também é um convite para as pessoas descobrirem quem é Bertânia. O que proponho neste disco é a minha forma de interpretar e sentir a música, sobretudo a morna que é um género de eleição neste álbum.”

“Descobri” traz temas de B.Leza, Vasco Martins, Mário Lúcio, Antero Simas, Juloca Pereira, Amândio Cabral e Tibau Tavares. “ (…) quis mostrar a riqueza que temos na nossa morna. Trouxe mornas de diferentes ilhas, cada ilha tem a sua sonoridade, uma particularidade própria”, diz e acrescenta que “a morna tem a sua própria essência que a torna intemporal”.

Para Bertânia Almeida, “a morna significa liberdade na forma de cantar, sentir e de expressar”.

Mais espaço para géneros tradicionais

Questionada sobre se a morna é valorizada em Cabo Verde, a artista responde que sim, mas alega que podia ser mais e que é preciso apostar mais na promoção dos artistas que cantam os géneros tradicionais.

Sabemos que a promoção de um artista que canta os géneros tradicionais é diferente dos outros. As rádios nacionais têm feito um excelente trabalho na promoção desses artistas, mas precisamos trabalhar mais a nível de festivais. (..) Não temos muita aparição de artistas de música tradicionais, sobretudo da morna”, diz e acrescenta que ainda há um longo caminho a percorrer e que cabe aos artistas persistirem nisso.

Ainda em 2023, Bertânia Almeida, acompanhada por Bau e outros artistas, apresentou “Descobri” nos showcases do Atlantic Music Expo, AME, na cidade da Praia e, segundo diz, foram bem-recebidos e bastante aplaudidos. “Gostei imenso e foi uma oportunidade de conhecer outros artistas e de confirmar essa riqueza cultural que temos, cada um no seu género. Fiquei contente de ver jovens a trabalhar na música com muita qualidade”, diz e revela que pretende realizar um outro show na Praia ainda este ano.

Dilema entre música e arquitetura

Atualmente, a sãonicolauense divide o seu tempo entre os palcos e as obras, mas diz com uma gargalhada que, se pudesse, focava-se apenas na música.

“A arquitetura é a área que escolhi e que me tem sustentado ao longo desses anos em Cabo Verde. No que tange à música, estou a começar agora, então não posso largar tudo de repente. (…) É um dilema que vivo”, afirma Bertânia que trabalha há 14 anos na área de arquitetura.

Questionada sobre o que pensa sobre o debate que foi recentemente levantado sobre a formalização do setor artístico em Cabo Verde, a artista diz que seria um grande passo, uma vez que, os artistas são vistos, em muitos casos, como entretenimento e não como profissionais que precisam ser respeitados. “Em termos de cache, há algumas pessoas que pensam que devemos atuar gratuitamente. É preciso ser visto como um trabalho, mas os próprios artistas precisam estar seguros em relação a isso e afirmar a sua posição.”

Nomeação nos CVMA, um reconhecimento do trabalho

Bertânia Almeida está nomeada na XIII edição dos Cabo Verde Music Awards (CVMA) nas categorias Artista Revelação, com o tema “Um Porta Aberte”, e Morna do Ano, com “Amor Profundo”, um tema que diz que tem sido bastante apreciado pelo público.

“É gratificante para mim receber estas duas nomeações (…). É o meu primeiro álbum e fico bastante feliz por saber que as pessoas mesmo no início da minha jornada estão a reconhecer o meu trabalho”, diz e acrescenta que é um estímulo para continuar a levar a música cada vez mais longe.

Levar “Descobri” para os palcos

No que tange a ambições para o futuro, a artista diz que este ano quer investir mais na música e levar o álbum “Descobri” para fora do país, a começar pela Europa onde já tem alguns concertos agendados.

“Quero dar a conhecer esse trabalho. Tenho planos de continuar a trabalhar na música tradicional e fazer parcerias com outros músicos como por exemplo o pianista Carlos Matos, tenho grande vontade de trabalhar com ele e já começamos a falar sobre isso e, quem sabe, mais à frente possa vir a surgir uma parceria, ele é uma pessoa bastante sensível à música tradicional. (…) Tivemos um encontro quando ele esteve em São Vicente para apresentar o seu trabalho. Foi uma experiência incrível.”

Artigo editado as 12h30 do dia 03/05/2024.

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