Com quase 17 anos de estrada e uma pausa pelo meio, dupla Rapaz 100 Juiz está de volta à ribalta em 2024

Depois de cerca de cinco anos longe dos palcos, a dupla que se tem destacado com as suas músicas de intervenção está de volta à ribalta e promete mais músicas e lançamentos para este ano.

Prestes a completar 17 anos de carreira como Rapaz 100 Juiz, a dupla Péricles da Costa (Pnc) e Carlos Monteiro (Cmc) está de volta depois de estar cerca de cinco anos longe dos palcos. Em entrevista ao Balai, os artistas naturais da ilha de Santiago recordam o percurso marcado por desafios.

É impossível ter 17 anos (de carreira) sem desafios. No início, houve muitas barreiras do próprio hip hop, (…) a aceitação não foi fácil. (…). Depois enfrentamos a barreira financeira, que se calhar todos os músicos cabo-verdianos têm. (…) Houve muitas barreiras de pessoas, políticas, posso assim dizer. E, ultimamente, lidamos um pouco com a distância, mas que agora já começou a diminuir”, conta Pnc.

Apesar de considerar que a separação não os afetou em termos de trabalho, Cmc alega que “se calhar a nível de química perderam um pouco”, mesmo com os recursos tecnológicos que facilitam o trabalho à distância. “Estarmos juntos em estúdio a criar uma música de raiz é necessário e não há tecnologia que supere isso.”

A residir atualmente nos EUA, a dupla explica que partiu em busca de novas oportunidades.

“(…) Queríamos maior estabilidade familiar e financeira e veio calhar numa época que para mim foi positiva, porque não passei a quarentena em Cabo Verde para ver os músicos a sofrerem imensamente. (…) Chegou a hora de construir família e levar a vida para a frente porque metade da minha vida foi apenas música”, diz Péricles que confessa que agora vive melhor e pode dedicar-se à música. “Vida estável, estou mais saudável para a música.”

Já Carlos, que já chegou a viver durante três anos em Portugal, diz que queria “experimentar algo novo”.

Preparado, o single que “ofuscou” o álbum PIB, mas que ecoou em grandes palcos

A dupla Rapaz 100 Juiz tem três álbuns no mercado e vários singles de sucesso, entre os quais “Preparado”, uma colaboração com a dupla Calema, que já conta com 17 milhões de visualizações no YouTube.

“Preparado” é um dos temas do álbum PIB e segundo Péricles e Carlos a música “ofuscou” o trabalho discográfico lançado em agosto de 2018. O lançamento do álbum aconteceu 15 dias depois da divulgação do single que já era um sucesso tanto em Cabo Verde como noutros países lusófonos.

“(…) Começamos uma tournée com os Calema pelo norte de Portugal, depois Paris (França) e tivemos muito tempo fora de Cabo Verde. Depois iniciamos a nossa própria tournée. Por estes dois motivos não tivemos oportunidade de promover o álbum, porque realmente estávamos ocupadíssimos. (…) Depois veio a pandemia e piorou. (…) É por causa disso que dizemos que ofuscou, mas talvez por um lado bastante positivo. (…) (Ofuscou) porque não tivemos a oportunidade de mostrar ao povo o quão grandioso era o álbum”, explica Péricles.

Por sua vez, Carlos diz que “tinha a noção que (Preparado) iria ser uma das músicas com mais visualizações (no YouTube), mas que não esperava atingir 17 milhões. “Não estávamos preparados”.

De acordo com os rappers, o tema teve grande repercussão para ambas as duplas e atualmente estão em contacto para novas colaborações. “No outro dia, a produtora dos Calema disse que já é altura de viajarmos para Portugal para uma segunda (colaboração). Temos uma boa conexão com a Klasszik, acredito que seja por causa da nossa forma de trabalhar”, salienta Péricles que avança que haverá muitas colaborações com a produtora.

Em 2019, “Preparado” ecoou em dois grandes palcos europeu, Coliseu de Lisboa (Portugal) e L’Olympia (França). Segundo a dupla cabo-verdiana estes “foram sem dúvida os pontos altos” da carreira.

Ainda no mesmo ano, a convite de Loony Johnson, a dupla também interpretou o tema no festival Baía das Gatas, um palco que almejam regressar, mas com um show próprio. “De todos os festivais municipais, Baía das Gatas é o único que ainda não fomos como Rapaz 100 Juiz”, diz Péricles que espera que o novo projeto lhes abra esta porta.

Colaboração com Sara Tavares, um sonho não concretizado

A malograda Sara Tavares era a artista dos sonhos da dupla para uma de colaboração, apesar de várias tentativas não chegou a ser concretizado, algo que lamentam muito.

“Há vários anos numa entrevista dissemos que a nossa artista de colaboração de sonho era a Sara Tavares. (…) Antes de produzirmos o nosso terceiro álbum estivemos a falar com a Sara sobre um single. Enviei-lhe três músicas, mas nenhuma fluiu. Lembro-me que ela começou a gostar da terceira, mas do nada as respostas ficaram curtas e demoradas. Não sabia que ela estava a lidar com a doença. (…) E agora recebemos esta notícia. É um sonho que parou. Dói, mas a vida continua. Ela deixou o seu legado”, diz Péricles e acrescenta que a Sara Tavares foi uma grande artista e que as suas músicas são intemporais.

Novo Rapaz 100 Juiz, mas sem perder a essência

A dupla santiaguense encontra-se em Cabo Verde e escolheu a Cidade Velha como o cenário das gravações do videoclipe do próximo single, uma colaboração com o artista Loony Johnson, que retrata a “morabeza crioula”.

Segundo os integrantes, o tema vai compor um EP juntamente com os já conhecidos “Bem Flam”, uma colaboração com Garry que já conta com mais de 450 mil visualizações no YouTube, e “Nha Primero Amor”, que contou com a participação de Sos Mucci e Dareal General. “É um projeto de canções de amor e vai ficar bonito”, diz Péricles.

Para este ano, Rapaz 100 Juiz promete mais músicas de intervenção e novas sonoridades, mas “sem perder a essência”. “Vai ser um 2024 recheado de coisas boas”, avança Carlos.

Questionados sobre como veem a realidade atual de Cabo Verde, Péricles diz que o país está “financeiramente difícil e com o poder de compra muito baixo” e Carlos acrescenta que a emigração de jovens é um sinal de que algo não está bem.

No ponto de vista de Péricles é “urgente ter novas políticas para os jovens e é que a juventude pense Cabo Verde de uma forma diferente.” “Acho que as duas coisas têm que chegar a um encontro.”

Regressar ao país para já não está nos planos da dupla até porque voltar seria “retroceder nos sonhos e objetivos.” “Agora voltar sempre para festivais e com música, sim.”

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