Cópia D Cópia: “É muito complicado ser um profissional da música em Cabo Verde”

Batizado como Gilson da Veiga, o jovem nascido em São Lourenço dos Órgãos, na ilha de Santiago, foi viver no bairro da Calabaceira, cidade da Praia, quando tinha quatro anos. Foi neste bairro que cresceu e onde teve o seu primeiro contato com a música. Nesta entrevista, Gilson conta um pouco sobre o seu percurso musical, as dificuldades enfrentadas e os incentivos, bem como as pessoas chave e onde ambiciona chegar.

A música, conforme relata o artista, sempre esteve presente na sua vida. Desde a infância, que Gilson relata ter convivido com artistas cabo-verdianos de renome como os Ferro e Gaita, Manuel di Candinho, Djulai e o cantor que mais o influenciou, o antigo vizinho Beto Duarte.

Ao contrário dos artistas citados, o jovem optou por apostar no rap, o género musical com o qual mais se identifica.

“No rap os que mais me influenciaram foram Shade B e Djédjé (…) ouvia muito as músicas do Shade B e o meu pai obrigava-me a parar, mas quando ele saía e minha mãe ia vender, eu aproveitava para as reproduzir (…) houve um período em que recebi um walkman da minha prima e mais tarde recebi um CD do Tupac de um amigo (…) desde aquele dia passei a ouvir rap de manhã à noite.”

Em 2013, começou a dar os primeiros passos na música, quando em um momento de lazer com os amigos um deles decidiu lançar um desafio para que todos cantassem uma música. Ao contrário da maioria, Gilson aceitou o desafio e cantou uma música que ele mesmo compôs em poucos minutos. Segundo o jovem, os amigos gostaram da sua voz e o incentivaram para continuar a cantar.

Este incentivo levou o jovem cantor, que ainda não era conhecido como Cópia D Cópia, a criar um grupo musical que batizou de “Poetas Music”. Em 2018, o grupo veio a dissolver porque os membros tiveram de viajar à procura de uma vida melhor.

“Tínhamos um grupo que estava a conseguir o seu espaço. Pisamos palcos como o Gamboa Jovem, o festival d’Areia Grande em Santiago e vários palcos de atividades realizadas em diferentes bairros da capital (…) lançámos várias músicas, mas a que mais nos projetou foi o single “Bu manera de ser” (…) com a dissolução do grupo comecei a cantar a solo e lancei cerca de cinco músicas no Youtube.”

Cópia D Cópia surge numa provocação

O nome artístico Cópia D Cópia surgiu quando em 2014 o grupo lançou um single de provocação direcionado a um outro grupo de rap cujo nome Gilson não revela. Nesta troca de punchlines (parte final de uma piada/ ideia/ rima que provoca uma resposta ou reação do ouvinte (em tradução livre)), surge um outro grupo que nada tinha a ver com as “farpas” lançadas pelo Poetas Music e que acabou por entender que a mensagem era para eles.

“A mensagem chocou-os e, posteriormente, eles responderam com uma música onde nos chamaram de Cópia D Cópia (…) ou seja nós copiávamos dos Detroit Kabuverdianu, mais concretamente, de um dos membros deste grupo, o Edyoung, e este fazia o mesmo com um outro rapper que não me lembro quem é (…) daí, comecei a usar o nome em jeito de ironia. Os meus amigos também passaram a chamar-me assim, acabei por gostar e passei a usar (a alcunha).”

Glória, Karta d’um Mendigo e o último, Barman, são algumas das músicas publicadas na página do Youtube de Cópia D Cópia. Nas suas músicas, o artista diz que retrata as vivências sociais vividas por ele e por outras pessoas na cidade da Praia.

“O Barman é um tema que representa coisas que já vivi e os meus amigos também (…) o mesmo acontece com a Carta d’um Mendigo. São problemas sociais onde tento colocar uma dose de emoção.”

O rapper, que diz ser um pouco tímido, conta que muitos não acreditam, mas já compôs um funaná, inclusive esta música faz parte do álbum “Nha alma Gémea” (2016) do artista e amigo Beto Duarte. O funaná intitulado de “Zinga Npinga” é uma música que escreveu a pedido de Duarte e que retrata um momento protagonizado pelo amigo, conta o rapper.

“É muito complicado ser um profissional da música em Cabo Verde”

A capacidade financeira, segundo o cantor de 28 anos, sempre foi uma barreira para conseguir sustentar a sua carreira musical. Antes de fazer parte da produtora Harmonia (maio de 2021), o rapper conta que toda a sua música era custeada pelo próprio.

“Um jovem em Cabo Verde para investir seriamente na música sem apoio é algo muito difícil. No meu caso não é diferente. A minha carreira musical só melhorou em 2018, quando comecei a trabalhar numa empresa. Uma parte do salário eu investia nas minhas músicas. Imagina, num país onde o salário mínimo é de 13 mil escudos e, por vezes, só para gravar apenas um áudio é preciso gastar cinco mil escudos ou mais (…) imagina um trabalho de audiovisual completo. É muito complicado ser um profissional da música em Cabo Verde.”

Sobre o feedback do público em relação aos seus trabalhos, Cópia D Cópia diz ter recebido várias mensagens a felicita-lo e que por vezes nem acredita que as mensagens são verídicas.

“Em 2018, reparei que os meus trabalhos estavam a ter um melhor andamento, quando um amigo, chamado Paulino Sequeira, decidiu colaborar comigo na parte técnica (…) tinha alguns trabalhos publicados no YouTube, mas com a parceria com o Paulino e o Nipox decidi apagar várias das minhas músicas nesta plataforma por não terem uma qualidade que queria.”

O sonho de uma colaboração com Tony Fika

Apesar de ser rapper, Gilson da Veiga realça que se tivesse que escolher um artista cabo-verdiano para fazer uma música, escolheria o Tony Fika. O motivo desta escolha é por se identificar com as músicas deste cantor de funaná, batuco, kizomba e afrobeat. 

“Os meus amigos dizem que eu sou um rapper “zuckeiro” isto porque ouço muita kizomba e zouk (…) O músico que mais gosto é o Tony Fika, gosto também do Denis Graça (…) já cheguei de trocar mensagens com o Tony Fika e nestas trocas de mensagens fiquei com a impressão que futuramente podemos fazer uma música.”

O cantor confessa que está a trabalhar no lançamento de mais duas músicas para este ano e do seu primeiro álbum que ainda não tem data de lançamento. Revela ainda que o seu sonho é atuar nos festivais da Gamboa, na cidade da Praia, e no Baía das Gatas, em São Vicente.

Marcel dos Santos / Estagiário

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