Dominado por artistas de rap e afro house, primeiro dia do Gamboa 2024 termina depois das 7h00 da manhã

A angolana Irina Barros foi a única voz feminina a atuar no certame que contou com onze atuações onde os géneros do rap e afro house estiveram em maioria.

A 30.ª edição do Festival do Gamboa 2024 arrancou na noite desta sexta-feira, 17, na cidade da Praia com onze atuações, maioritariamente masculinas. Cordas do Sol, Irina Barros, Loreta KBA, Djedje, CESF, Julinho KSD, MC Acondize, Kino Cabral, MC Tranka Fulha, PCC e Boy Game e Vado Más Ki Ás são os artistas que atuaram no primeiro dia do certame que este ano homenageia o artista e empresário Heavy H.

A abertura do certame ficou a cargo do grupo santantonense Cordas do Sol que subiu ao palco por volta das 22h30, tendo brindado o público, ainda pouco presente, com vários sucessos como “Flor de Paul”, “Manhe Joana”, “Shó Pardal” e “Lume d’Lenha”. Quatro décadas após a participação nas festividades do município da Praia, o jornalista e artista Homero Fonseca subiu ao palco a convite dos Cordas do Sol para interpretar um tema da autoria do grupo.

No final da atuação o representante do grupo, Arlindo Évora, disse que é uma honra abrir um festival com a dimensão do Gamboa e elogiou a pontualidade do evento. “Esta é a primeira vez que estou a ver um festival em Cabo Verde a começar no horário e isso já é uma vitória.” No próximo ano o grupo completa 25 anos de carreira e promete muitas novidades.

O relógio passava das 23h40 quando ritmos tradicionais deram lugar à Kizomba na voz da angolana Irina Barros, a única artista feminina a atuar no primeiro dia. Apesar de ser a sua estreia no palco do Gamboa, o público cantou do início ao fim os temas da cantora, que partilhou o palco com o artista Mr. Carly com quem gravou o single “Nu Tenta Evita”

Pisar o palco do Gamboa pela primeira vez foi uma experiência “fantástica” para a artista. “O facto de poderem dar a uma mulher de outra cultura o poder de pisar este palco é perfeito”, disse e acrescentou que espera que nas próximas edições tenham mais mulheres no certame.

Rap domina Gamboa

De seguida, foi a vez do rapper Loreta KBA fazer também a sua estreia no festival, tendo interpretado vários temas, desde as antigas composições aos mais recentes trabalhos.

Em entrevista à imprensa no final da atuação, o artista disse que o show foi a concretização de um sonho alimentado desde a juventude ao acompanhar as atuações de outros artistas que admirava desde aquela época.

“Imagina, eu um jovem que nasceu em Lisboa e que sempre acompanhou na televisão os shows de Gil Semedo, Jorge Neto, Beto Dias e Splash. O meu sonho sempre foi a música e sonhava em subir neste palco, por isso este dia é extremamente importante para mim e agradeço aos meus fãs que me fizeram chegar aqui”, disse e revelou que brevemente vai lançar um novo álbum que contém músicas de diferentes estilos, “das mais dançantes às baladas e comoventes”.

Por volta das 01h00 da manhã, após uma pausa dos palcos, o rapper Djedje atuou na Gamboa pela terceira vez e disse ter sido “uma sensação inexplicável”, uma vez que se encontra numa fase mais imersiva da sua carreira e que a recepção do público, entre jovens da nova geração, contribuiu para um momento prazeroso. O regresso, segundo o artista, serviu para manter o público atento sobre os trabalhos que o mesmo tem estado a desenvolver.

Questionado sobre como vê a evolução do hip hop em Cabo Verde, Djedje disse que evoluiu muito. “Para dizer a verdade não tinha a noção que iriam levar o hip hop para outro nível. Mas estou contente de ver onde o hip hop já chegou, é visível e ainda tem mais por onde ir”.

De seguida foi a vez do rapper Christaldo Edmilson Semedo Freire, de nome artístico CESF, cantar várias músicas de sucesso, tendo levado o público ao delírio.

CESF, que proporcionou ao público um “clima de romantismo” no palco, com direito a luzes e flores, mostrou o seu deslumbre em atuar pela primeira vez no palco da Gamboa. “Foi uma sensação incrível e senti-me em família, foi um prazer enorme, fiquei bastante contente e não há lugar melhor para atuar que não seja em casa”, disse no final da atuação.

O jovem artista que também está nomeado nos CVMA, na categoria Afrobeats/Afrohouse do Ano, com a música “Pidi La” em parceria com Dj Beekay, disse estar contente com o feito e que não tem muitas expectativas em relação ao prémio, sendo que o reconhecimento pelo trabalho “já basta”.

E o rap continuou com Julinho KSD que subiu ao palco quando faltava pouco para às 03h00 da manhã.  O rapper que há cinco anos tem “representado a cultura cabo-verdiana em Portugal” reconhece a aceitação do público pelos trabalhos musicais que agora tem estado a cantar em crioulo.

O artista que também está nomeado nos CVMA, na categoria de “Música Popular do Ano” com o tema “Mónica”, em parceria com Soraia Ramos, disse que não espera nada e que apenas está a deixar as coisas fluírem.

Seguiu-se um filho da casa, o MC Acondize que com a sua energia contagiante fez a areal da Gamboa sacudir com direito a fogo de artifício. O artista interpretou temas como “É pa Pila”, “Vizinha fofokera”, “Bu Sta Mutu Avontade”, “Só Badjon”, “Ai Dinheru” e “Nu Ka Sta Para”.

No final, o artista que estava de partida para Portugal mostrou-se feliz com a atuação.  “Para mim foi maravilhoso. Tudo o que aconteceu foi o que já tínhamos planeado. (…) Estou na minha zona e sinto-me amado na Praia, então estava à espera dessa energia do público.”

Kino Cabral indignado com a falta de convites para festivais

Após uma década de ausência, Kino Cabral regressou ao palco do Gamboa por volta das 05h00 da manhã deste sábado, 18. Acompanhado de uma banda e bailarinos, o cantor interpretou vários temas de sucessos.

No final da sua atuação, o artista que já tem mais de três décadas de carreira e dez álbuns no mercado mostrou-se indignado perante a falta de convites para atuar nos festivais nacionais.

Acho um pouco triste pelo trabalho que já fiz, pela história, desde que comecei no grupo Livity, há festivais onde não participo há 10 anos. (…) Acho que precisamos de variedade (nos festivais). (…) O mais triste é quando trazem artistas que não são cabo-verdianos por um valor enorme que dava para colocar três ou quatro artistas, essa é a minha maior mágoa. Fomos um dos pioneiros de mudança de música de Cabo Verde, estou a falar dos anos 90, começamos com os Livity, (…) Acho que deviam ser valorizado os artistas da década de 1990 e muitas vezes sinto-me menos valorizado principalmente eu no meio dos meus colegas, acho que lhes são dadas mais oportunidades.”

Por volta das 06h00 da manhã deste sábado, 18, o alinhamento do festival foi alterado por motivo de viagens. O artista Vado Mas Ki Ás que estava encarregado de encerrar o primeiro dia teve que fazer a sua estreia mais cedo. O rapper brindou o público com vários temas e disse que lutou muito para pisar este palco.

O Gamboa deixou-me sem ar, espero regressar nas próximas edições”, disse apressado para ir para o aeroporto.

Diretamente de Paris, chegou o MC Tranka Fulha que literalmente acordou no Gamboa saindo da cama. Depois de ter sido retirado do cartaz em 2019, este é o segundo ano consecutivo que o MC atua no certame. “ Quando comecei várias pessoas duvidaram de mim, mas senti que iria fazer algo que iria surpreender a todos. Gosto de fazer coisas diferentes sem copiar ninguém”, afirmou no final.

Coube aos artistas PCC e Boy Game encerrar o primeiro dia da 30.ª edição do Gamboa com um público que ainda se mantinha firme, mas já um pouco disperso. No final das atuações, ambos os artistas que pisam o palco pela segunda vez revelaram ao Balai que os fãs podem esperar por novidades ainda este ano.

O Festival do Gamboa 2024 prossegue este sábado, 18, com a atuação dos Tubarões, Gardénia, Heavy H – o homenageado desta edição, David Brazão, Nelson Freitas, Deejay Télio, Tó Semedo, Neyna, Elji Beatzkilla, Zé Espanhol, Kamoka, Apollo G e Rods Wires.

Aline Oliveira

Aline Oliveira

Sócia-fundadora, jornalista e editora de conteúdos do Balai Cabo Verde.

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Nélida Vaz

Nélida Vaz

Jornalista e editora de conteúdos do Balai Cabo Verde.

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