Elida Almeida: “Sinto que faço parte de uma geração de ouro”

Pertence à nova geração de artistas cabo-verdianos que retratam o Cabo Verde atual. E é enquanto integrante desta geração que apelidou o seu terceiro álbum de Gerason Nobu. O trabalho é agora apresentado ao vivo ao público cabo-verdiano com três shows que prometem cair no agrado do público porque afinal, cantar em Cabo Verde tem sempre um “sabor especial”, confessa Elida Almeida em entrevista ao Balai.

Gerason Nobu saiu no mercado em 2020, em plena época de pandemia, por consequência só este ano a artista teve oportunidade de apresentar-se em palco com o CD. E depois de uma tournée na Europa é a vez de Praia, Sal Rei e Mindelo receberem esta filha de Santa Cruz (interior de Santiago).

Admite que cantar na terra natal tem sempre um “sabor especial”: pode falar em crioulo, brincar em palco, ter familiares na plateia, além do que, diz em jeito de brincadeira, em Cabo Verde não tem de estar constantemente a explicar ao público sobre o quê que está a cantar. “Quando explico (para o público lá fora), vejo que faz mais sentido para eles”.

Faz questão de preparar ao pormenor cada show previamente, nomeadamente as músicas, a dança, mais especificamente o torno, entre outros detalhes. “Há todo um trabalho a ser feito antes do momento em que o público recebe o concerto”.

Questionada se já teve um público difícil ou até desafiador, a cantautora diz que sim, “sobretudo porque a música de Cabo Verde é ainda reconhecida lá fora, como a morna e a coladeira”.

“Quando as pessoas vão descobrir a minha música, primeiramente vão porque querem ouvir música de Cabo Verde que é ‘sabi’, sem a certeza do que vão encontrar em mim. Sou de uma nova geração que é ousada aos olhos desse público que conhece a música de Cabo Verde que lhes foi vendida nessa altura (antigamente). A minha forma de fazer música tradicional de Cabo Verde é mais ousada, mais moderna, com mais influências, claro que estou constantemente a encontrar um público que exige um maior esforço de mim, mas o incrível é que no final este mesmo público mostra grande satisfação, e, normalmente, a sua avaliação é sempre boa”.

No seu currículo estão atuações em mais de 17 países africanos, alguns dos quais conheceu no âmbito da tournée enquanto vencedora do “Prémio Descoberta RFI 2015”, e cita o exemplo do Chade, país de maioria muçulmana, onde encontrou um público bastante conservador. A plateia, esmagadoramente masculina, segundo Elida, lotou o recinto principalmente para ver quem era a mulher que tinha vencido o prémio RFI.

Muitos cabo-verdianos se identificam com o meu trabalho por se reverem nele

“Segredu’s”, um tema que conta com a participação de outras duas cabo-verdianas, Nitry e Indira, é o mais recente single da artista e fala dos vários desafios que as mulheres ainda enfrentam no seu dia-a-dia, como o assédio, por exemplo, mas não é de hoje que a realidade social está presente nas composições desta artista que se assume como feminista.

“Na maioria das vezes, canto sobre o que a Joana está a sentir, o que o Paulo quer dizer ou o que o Francisco tem entalado na garganta. Esse é o meu modo de tirar para fora a minha arte – espelhar o que está a acontecer na sociedade e tentar decifrar a dor dos outros. E com “Segredu’s” não foi diferente”.

O tema surgiu espontaneamente durante uma videochamada entre amigas e o videoclipe foi gravado na cidade da Praia. “Acabámos por falar de segredos da maioria das mulheres cabo-verdiana e elas abraçaram esta música”, diz a cantora que se mostra feliz pelo impacto que o single está a ter.

“Forti Dor”, tema que faz parte do álbum Kebrada (2017) e fala sobre a perda de uma mãe, foi inspirado em factos reais depois do relato da mãe de Elida que lhe ligou a lamentar o falecimento do filho adolescente de uma vizinha.

“Em parte, a minha mãe sentiu aquela dor e eu escrevi a música sobre o que a minha mãe me contou (…) Tem sido esse o meu método de escrita e por isso que muitos cabo-verdianos se identificam com o meu trabalho por se reverem nele. Nas minhas músicas sentem a minha dor, a minha alegria e tenho a intenção de continuar com este método de escrita”.

Para escrever faz questão de estar atenta a tudo o que acontece à sua volta, mesmo vivendo atualmente em Portugal gosta de acompanhar as notícias do arquipélago. “Tento estar por dentro de tudo, da política à religião, do que se passa em Cabo Verde. Acho que se um dia deixar de fazer isso, corro o risco de perder a minha essência que é falar dos cabo-verdianos para os cabo-verdianos”.

Se por um lado é lhe mais fácil cantar os seus próprios temas, esta filha de Santa Cruz sempre fez questão de se desafiar e gravar composições de outros artistas. Já gravou temas dos Bulimundo, de Uziel Sança, vários temas de Manú Reis, como Tchika e Zomban, entre outros.

“Cantar temas de outros artistas é desafiante e gosto de ter pelo menos três composições (de outros artistas) no meu disco”. Ao que explica que “um artista, querendo ou não, acaba sempre por criar uma identidade melódica na sua maneira de compor, então as suas músicas acabam por ficar parecidas (…) e cantar músicas de outros acaba por trazer outras cores aos discos”.

Sendo da sua autoria ou de compositores que fez questão de interpretar, há temas que são sempre pedidos durante as suas atuações. Internacionalmente, diz que é sem dúvida Bersu d’Oro (2017), já em Cabo Verde não podem faltar temas como Nta Consigui (que não pode tirar do repertório), Joana, Nhu Santiago, Tchika, Zomban, entre outros.

“A cada dia que passa, quanto mais álbuns, singles e EP vou acumulando é mais complicado fazer o repertório. O mais engraçado é o que os meus músicos estão sempre a dizer: “Esta não podes tirar, esta também não (risos)”. Cada dia é mais complicado tirar músicas”.

Numa entrevista que deu em 2020 ao Luxemburger Wort, o jornalista Nuno Ramos de Almeida escreveu: “Elida Almeida. Demasiado jovem para tanta vida”. Apesar de se ter identificado com o título, a cantora diz que ela não é uma exceção na realidade cabo-verdiana. “Muitas cabo-verdianas são mães ainda muito cedo ou então têm de tomar conta dos irmãos porque as mães têm de sair para trabalhar. Por isso digo sempre, nós (cabo-verdianas) temos as costas largas e aonde vamos conseguimos nos desenrascar”.

E é esta vivência que lhe permitiu ser a compositora que é? “Sim, principalmente isso. Lembro-me da altura em que compus ‘Nta Konsigui’. Tinha 17 anos. Estava sozinha com os meus dois irmãos, de 13 e 15 anos, estava na escola, o meu filho tinha meses e a mãe estava na ilha do Maio a trabalhar. Nesse dia estava tudo mal, estava no desespero total. Desabei e escrevi esta música”.

Sinto que faço parte de uma geração de ouro

Sente-se honrada por pertencer a esta nova geração de artistas cabo-verdianos, Gerason Nobu. “Sinto que faço parte de uma geração de ouro, que está a ser uma peça importantíssima para que a música de Cabo Verde faça uma transição para algo mais internacional e seja mais competitiva em relação a outros países do continente, por exemplo”.

Mas será que nesta transição não se corre o risco de se perder a essência da música cabo-verdiana? “Obviamente que corremos esse risco, mas é como em tudo na vida. Para evoluir é preciso ganhar algo, mas também perder para ter espaço para adicionar esse algo”.

Elida Almeida defende que é possível levar a música cabo-verdiana ao mais alto nível da ‘competição’ ao lado de potencias africanas como a Nigéria, Costa do Marfim, Guiné-Conacri, que estão mais na moda a nível de ritmo, sem esquecer da tradição.

Sei o que estou a tentar fazer e a tentar deixar na música de Cabo Verde”

Tem consciência de que existem críticos mais conservadores para os quais ela não teria tanta essência da música de Cabo Verde como outros cantores, pelo facto de ter posto uma guitarra elétrica num funaná, por exemplo, mas, Elida acredita que está sempre agarrada à tradição.

“Estou aberta a receber esse tipo de críticas porque sei qual é o contributo que estou a dar para a música de Cabo Verde. Uma das coisas que mais me orgulha é ver que outras mulheres de Cabo Verde viram que é possível ter uma carreira 100 por cento focada nelas, em que elas compõem e interpretam os seus próprios temas (…)”.

Cita outro motivo de orgulho, cantar o tema Bersu d’Oro, uma tabanka com novos arranjos, no evento I love Cabo Verde, com mais de mil jovens dos 18 aos 35 anos a entoar em simultâneo este que é um estilo musical que já se está a perder.

“Sei o que estou a tentar fazer e a tentar deixar na música de Cabo Verde. Tenho a minha identidade que, juntamente com a minha equipa, consegui trazer e o público gosta (…) as pessoas falam, se há críticas construtivas, eu oiço, se não, é só um vento que passou”.

Elida não está sozinha. Ao longo da entrevista, enfatiza o contributo das pessoas que a acompanham nesta caminhada musical, com destaque para duas peças-chave da sua carreira: o produtor musical e multi-instrumentista Hernani Almeida, que produziu todos os discos da artista, e José ‘Djô’ da Silva, produtor e fundador da produtora Lusafrica, que Elida considera como seu mentor. “Muito do que tenho hoje devo ao Hernani e ao ‘Djô’ da Silva”.

Olhando para trás, mais concretamente para 2014, ano em que lançou o single “Nta Konsigui”, Elida Almeida diz que estava longe de imaginar que decorridos sete anos teria publicado três álbuns, um EP, escrito inúmeros temas e atuado em mais de 50 países.

“Em tão curto espaço de tempo, não imaginava. Da noite para o dia, as pessoas abraçaram o tema “Nta Konsigui”, o disco saiu e as coisas tomaram esta proporção. Parti para a estrada, fiz festivais em Cabo Verde, depois comecei a cantar em palcos internacionais”. E se não fosse a pandemia, a cantora já teria mais destinos carimbados no seu passaporte. Da última vez que fez as contas com o filho, era mais de 50 países.

Ao longo da entrevista somos interrompidos por fãs. Perguntamos-lhe se se sente como uma grande estrela e como lida com a exposição pública. Com um sorriso modesto, a cantautora diz que se sente muito acarinhada e que por estar a viver fora acaba por sentir falta deste calor dos cabo-verdianos que a abordam na rua e dão conselhos ou falam sobre como a sua música impactou as suas vidas, gestos que a fazem sentir especial.

No que diz respeito à vida pessoal, aprendeu que a vida de artista não tem folgas. “O público dificilmente vai entender se não estás num dia bom e que és um ser humano normal (…) tens de saber gerir esses dias menos bons. A partir do momento que estás na rua, as pessoas vão abordar-te”.

Em Portugal para cursar Direito, se apaixonou pelas leis ainda nos bancos do ensino secundário, “por culpa de uma professora”, revela. De momento, o curso está em stand by porque está a tentar conciliar a demanda da vida artística com o ensino e não tem sido fácil. “É um sonho que sempre tive (…) é algo meu e acho que tenho capacidade para tal e que só tenho a ganhar e que me poderá ajudar nos meus projetos futuros”.

Para finalizar fazemos-lhe uma pergunta quase que cliché: onde se imagina daqui a 20, 30 anos? Imagina-se a exercer Direito? A liderar uma produtora, quiçá? Elida ri-se e diz que ainda não lhe tinha passado pela cabeça esta perspetiva, mas que poderia ser uma hipótese. Ser uma ‘caça talentos’, à semelhança do que faz o mentor Djô da Silva.

“Estou meio que a brincar. Obviamente que mesmo cursando Direito, acho que nasci para fazer música. Não consigo viver sem cantar”.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest