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A música sempre fez parte do quotidiano de Noemi “Emy” Benrós. Cresceu em São Vicente, num ambiente familiar onde cantar e tocar instrumentos fazia parte da rotina, e desde cedo desenvolveu uma relação próxima com a música. Contudo, a jovem acredita que é a primeira na família que está a transformar essa ligação à música numa profissão.
“Encontrei na família pessoas que cantavam e tocavam algum instrumento. Também frequentei a Igreja desde pequena e foi onde aprendi a tocar. O meu dia-a-dia foi sempre a ouvir música e a tentar fazer uma coisinha ou outra nalgum instrumento, até chegar onde cheguei”, recorda.
O pai, entretanto falecido, foi também uma referência importante, sobretudo pela ligação à música tradicional cabo-verdiana.
“Acho que a maioria das músicas tradicionais que ouvi até hoje estão num pendrive que o papá me deixou. Até hoje sinto a sua presença em palco”, conta.
Quando a mãe a inscreveu numa escola de música, a primeira opção era aprender violão, até que viu um violino e se entusiasmou de imediato. As aulas acabaram por ser interrompidas pela pandemia, mas, em casa, continuou a aprender e a “brincar” com o violão. Também sabe tocar um pouco de piano.
O percurso de Emy começou de forma espontânea, sem pensar numa carreira. Ao sair das aulas no secundário e acompanhada de colegas, como andava frequentemente com o seu violão, Emy aproveitava momentos do quotidiano para cantar e tocar.
Foi em 2023 que uma amiga da mãe acabou por filmar um destes momentos de forma espontânea e publicar nas redes sociais um vídeo em que Emy interpreta o tema “Tan Kalakatan”, de Mayra Andrade.
“Na semana seguinte, a senhora disse-me que o vídeo já ia em quase 20 mil visualizações”, conta.
Pouco depois, outro vídeo, desta vez associado a uma atuação dentro de um autocarro, ganhou ainda maior projeção e começou a chegar a pessoas fora de Cabo Verde, incluindo Portugal, Luxemburgo e França. “Acho que esse vídeo viralizou ainda mais do que o primeiro”.
Foi a partir daí que começou a perceber que aquela paixão poderia transformar-se em algo maior. “Antes queria apenas tocar e fazer aquilo que gosto. Mas, depois que aquele vídeo viralizou, pensei: ok, talvez eu devesse começar a pensar em algo maior”.
Embora já tivesse recebido anteriormente um convite para cantar no Sodade, onde atuou ao lado de Nana Almeida, que também a incentivou a apostar na música, foi sobretudo depois da circulação dos vídeos que começaram a surgir novos convites para cantar em diferentes espaços e atividades em São Vicente, incluindo na televisão.
Desde finais de 2024, Emy tem dado passos importantes na consolidação da carreira. A participação no TEDx Mindelo, em novembro de 2024, permitiu-lhe conhecer pessoas que viriam a ter um papel relevante no seu percurso e estabelecer contactos dentro da indústria musical, nomeadamente o seu atual produtor, Nelson Amado, da ND Productions.
Foi com Nelson que viria a lançar o primeiro single, “Is It Still Alive”, em outubro de 2025. Seguiram-se “Mostran un Soluçon” e “Where is the Door”.
A escolha do inglês não foi casual. Desde criança que Emy mantém uma forte ligação à língua e à música anglófona, influenciada por artistas como Rihanna.
“Desde pequena eu sempre tive uma conexão com a língua inglesa”, explica. Conta que ouvia música em inglês desde muito nova, mesmo quando não compreendia totalmente as letras.
“Não dava nem para entender o que eu cantava, mas era afinadíssima”, conta entre risos.
O facto de ser fã da Rihanna e da artista ser uma inspiração acabou por dar mais força à opção de cantar em inglês que acabou por se tornar natural.
A escolha, contudo, já lhe valeu críticas de quem defende que, enquanto artista cabo-verdiana, deveria ter exclusivamente referências nacionais. Emy rejeita essa ideia e considera que as influências musicais não precisam de estar limitadas às fronteiras do país.
Apesar da forte influência da música internacional, a jovem também se inspira em artistas cabo-verdianos. Sara Tavares é uma das suas referências e uma das experiências mais marcantes do seu percurso aconteceu precisamente na primeira atuação em nome próprio no Centro Cultural de Mindelo, realizada a 1 de fevereiro, data do aniversário da falecida cantora.
Também admira Mayra Andrade, que ainda não teve oportunidade de conhecer, bem como a cantora Fattú Djakité, de quem é amiga e fã.
Soraia Ramos e Lisandro Cutxi estão igualmente entre os artistas que admira e considera referências para a sua geração, havendo inclusive a possibilidade de futuras colaborações.
Este ano, Emy viveu também uma das experiências mais importantes da sua ainda curta carreira: a participação no Baía das Gatas 2026, em São Vicente, que considera o maior palco onde atuou até agora.
O convite para partilhar o palco surgiu da parte do rapper Hélio Batalha e foi recebido com surpresa. “Recebi uma mensagem e inicialmente não acreditei. Mas depois ele enviou-me um áudio e vi que era realmente ele”.

Dias depois, atuou em Santo Antão, terra do seu falecido pai, a convite do cantor Ricky Boy, no festival de Curraletes. A experiência ficou marcada não apenas pela atuação, mas também pela resposta do público às suas músicas.
“É sempre bom estar em Santo Antão, bem como fazer um show, estar com os meus colegas, cantar as minhas músicas. (…) Mais do que fazer o show, aquela convivência também foi muito boa.”
Para Emy, subir ao palco não significa apenas cantar as próprias músicas. Existe também uma preocupação em estabelecer uma ligação com quem está do outro lado.
“Quando estou no palco, o meu objetivo é sentir a energia do público, qual é essa vibe”, explica, acrescentando que o contacto visual com as pessoas que estão mais próximas do palco é uma das formas que encontrou para perceber essa energia que é como um combustível para continuar.
Este ano, a cantora teve ainda a oportunidade de conhecer o artista brasileiro Mumuzinho, durante o espetáculo realizado em São Vicente, em abril, para assinalar os 147 anos da cidade do Mindelo.
Apesar da evolução rápida, Emy está consciente dos desafios que acompanham uma carreira artística. Para a jovem, uma das principais dificuldades está em encontrar pessoas em quem possa confiar e que compreendam a importância de proteger o artista, sobretudo numa fase inicial.
A presença de uma pessoa de confiança na sua equipa é, por isso, fundamental.
“Na música eu tenho que trabalhar com pessoas em quem tenho confiança.”
Nesse sentido, destaca a presença do promotor Anderson “Detcha” Soares, que considera uma pessoa de confiança e quase uma figura paterna.
“É bom ter uma pessoa em quem temos confiança.”
A cantora reconhece que o meio artístico pode expor os jovens a situações para as quais nem sempre estão preparados e considera essencial ter ao lado pessoas capazes de orientar, proteger e dizer quando determinada situação não é a mais adequada.
Os próximos passos passam por continuar a gravar e lançar músicas. Mais à frente, Emy gostaria de lançar um álbum, mas não pretende precipitar esse momento.
“Quando o fizer, quero fazê-lo bem, por isso não tenho pressa. Por enquanto, é continuar a trabalhar e esperar acontecer.”
A formação também faz parte dos seus planos. Embora ainda não tenha decidido definitivamente o caminho académico, admite a possibilidade de frequentar um curso superior ligado à música ou às artes.
Conciliar os estudos com a carreira artística continua a ser importante, mas Emy deixa claro que a música ocupa um lugar central nas suas ambições.
E quando fala do seu maior sonho, a resposta é imediata: “O meu sonho é viver a minha arte, viver da música.”
Ser reconhecida faz parte dessa ambição, mas o objetivo principal é poder construir uma vida em torno daquilo que gosta de fazer.
A mensagem que deixa a outros jovens que sonham seguir uma carreira artística é simples: acreditar, mas também trabalhar.
Para Emy, talento sem preparação não é suficiente. O treino vocal, a prática dos instrumentos e a disciplina fazem parte do processo de crescimento de qualquer músico.
“Confiar em si mesmo (…) Porque as pessoas pensam que não, mas é preciso trabalhar e muito. Treinar a voz, treinar com instrumentos, é preciso praticar, como em tudo. Aliás, é algo que nos falta na nossa cultura”, afirma, acrescentando também a importância de ouvir os mais velhos.
A própria cantora procura manter uma rotina de treino vocal e insiste na importância da prática constante.
Daqui a dez anos, imagina-se com um álbum lançado, reconhecida em Cabo Verde e, quem sabe, também no exterior. A ambição é grande, mas o caminho, para já, continua a ser feito passo a passo.
“Acho que daqui a dez anos… talvez com um álbum, talvez entre as artistas mais ouvidas em Cabo Verde, ou talvez fora. Com muito sucesso, se Deus quiser.”
Por enquanto, Emy Benrós continua a gravar, a aprender, a subir aos palcos e a descobrir, música após música, até onde pode levá-la a sua voz.
Esta quinta-feira, dia 10, a jovem vai cantar ao lado do veterno Mirri Lobo, no evento Pedra de Lume in Concert, na ilha do Sal, um evento que este ano homenageia Mário Marta e conta também com a atuaçãode Jenifer Solidade e da Orchestra Baobab, do Senegal.

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