Festival Terra Sagrada: praia de São Francisco será palco de evento internacional de música eletrónica

A ideia de fazer um festival de música eletrónica em Cabo Verde surgiu em 2020 pela mão de Anna Topliyski e Hélder Pereira. Juntos criaram a 1456 Produções que vai realizar o festival Terra Sagrada, em novembro deste ano, na praia de São Francisco. O lema deste evento de música eletrónica é “Lixo Zero”.
Mentores do Festival Terra Sagrada. Foto cedida

Búlgara de origem, Anna Topliyski já estava a trabalhar em Cabo Verde desde 2016 e Helder Pereira, que é franco-português, chegou de férias em 2019 e acabou por ficar.

“Sempre gostei da praia de São Francisco e ia lá muito. Muitas vezes dizia aos meus amigos: ‘Seria incrível fazer aqui uma festa com acesso à praia, à natureza e com acesso a um bom som’”, recorda Anna que conheceu Helder quando este veio de férias a Cabo Verde. O engenheiro informático que vem de uma família ligada à área de eventos e música eletrónica, estranhou que não houvesse sítios para ouvir música eletrónica na cidade da Praia. “Pensei que se calhar era bom para um povo que gosta de festa de ter aqui um festival do tipo que conheci na Europa”.

Começaram a desenvolver o projeto deste festival de música eletrónica em 2020 e um ano mais tarde apresentaram a ideia à Câmara Municipal da Praia que se prontificou a apoiar. “Foi um apoio que foi além da autorização da praia”, explica uma das mentoras do projeto e segundo Helder Pereira até agora ainda não obtiveram o feedback do ministério da Cultura sobre o evento.

“Mas como conciliar a realização de um festival de música eletrónica numa praia protegida mantendo a sustentabilidade ecológica?”, perguntamos aos promotores.

Segundo Anna, “o objetivo é deixar a praia melhor do que encontramos”, por isso o evento envolve várias ações quer a nível de terraplanagem dos buracos existentes no acesso ao areal, fazer um estacionamento alternativo para que as pessoas deixem de usar a praia para parar os carros, por exemplo.

“Temos um plano de sustentabilidade e mitigação de riscos ambientais que define todos os riscos que existem, por exemplo, a desova das tartarugas, por isso o festival acontece em novembro para não interferir com esta época (…) mesmo sabendo que pode haver alguma tartaruga, temos o apoio da associação Lantuna e da associação Flora e Fauna que vai monitorar (…) estamos a trabalhar com estas associações para salvaguardar que não estamos a prejudicar nenhuma biodiversidade da praia”.

Outro aspeto a ter em conta é que a posição do palco e das luzes vai ser pensada para que não sejam dirigidas para o mar.

Mesmo com limitações há riscos, admitem os mentores do evento. “Obviamente, sempre quando há mão humana nós estamos a interferir com a biodiversidade. Temos de estar conscientes que sempre temos um impacto. Isto nós sabemos, por isso temos a limitação de riscos ambientais”.

Mostrar que o lixo tem valor

O lema do festival é Zero Lixo, o festivaleiro não terá acesso nem ao plástico, nem ao vidro, nem a nada que poderá terminar no mar, garante a organização. Com a compra do bilhete é dado aos festivaleiros um Ecocup (copo ecológico de 30 cl) que pode ser devolvido no fim e é reutilizável. “Tudo o que será servido nos bares é reciclado atrás dos bares”.

Vai haver tanto uma equipa a limpar, como a sensibilizar as pessoas para que o tema do festival seja cumprido. “A ideia é usar este momento de celebração para, de forma mais subtil, passar estas mensagens que são importantes”.

Existe igualmente um plano de gestão de resíduos que vai ser executado em colaboração com a associação Lantuna, onde está previsto que a reciclagem do plástico seja feita pela Caboplast e a reciclagem do vidro será feita na comunidade de São Francisco. Já o lixo orgânico vai ser levado para os suinicultores e a água vai ser levada para a ETAR e reutilizada para a rega, adianta ainda a organização. “Tudo tem um ciclo, dentro de uma economia circular, e a ideia é mostrar que o lixo tem valor”, explica a interlocutora.

Só na logística do festival estão envolvidas cerca de 150 pessoas que serão formadas para o efeito, adiantam os organizadores.
Paralelamente haverá uma campanha de plantação de árvores. “Comprometemo-nos que com 10% das receitas vamos plantar (…) na comunidade de São Francisco e Vale da Custa”, dizem e explicam que já em finais de agosto foi promovida uma horta municipal numa escola na comunidade local.

A nível de arquitetura do espaço, a organização vai apostar na decoração e o festival Terra Sagrada terá uma espécie de aldeia associativa e comercial, vários bares, zona VIP, espaço de saúde, parking no exterior, entre outros. A ideia inicial incluía um parque de campismo, que, entretanto, será garantido por uma empresa parceira.

A pensar na segurança e na questão ecológica, o evento prevê transporte coletivo para o festival. “Haverá três pontos de recolha na Praia (…) a ideia é incentivar as pessoas a usar esse transporte público”.

Três dias de festival

Inicialmente pensaram em fazer um festival ‘non stop’ de 24 horas, explica Helder Pereira, mas acabaram por refletir e acharam que seria melhor fazer um formato de 13 horas/dia em que os turistas teriam oportunidade de visitar a cidade, por exemplo. O evento que arranca a 24 de novembro e termina a 26, começa diariamente às 17h e termina às 6h da manhã, com o ciclo do sol.

“A ideia é realmente ver como podemos revitalizar a economia local, mas de forma mais participativa através das comunidades, do transporte, da restauração, fazer com que a população ganhe”, diz Anna Topliyski e explica que foram questionados sobre porque não fazer o festival no Sal, onde já existe uma dinâmica mais propícia para este tipo de evento. Mesmo conscientes disso, os organizadores dizem que querem criar oportunidades para a população local e um festival destes no Sal iria beneficiar principalmente as grandes cadeias hoteleiras e contradizer com o objetivo principal do evento que é beneficiar a economia e a população local.

Segundo Helder Pereira, a organização estima que o evento terá 3 mil pessoas por dia (só residentes em Cabo Verde), sendo que o bilhete para os residentes cabo-verdianos é 30% mais barato. A este número acrescem os festivaleiros vindos do estrangeiro, que estimam que sejam mais de 1500 pessoas por dia.

A venda dos bilhetes arrancou online desde abril e, segundo a organização, está a correr bem. Os preços variam entre os 3700 escudos e os 21 mil escudos. Inicialmente previam uma parceria com uma companhia aérea para que fosse possível comprar os bilhetes de avião juntamente com os ingressos para o festival, mas nesta edição já não vai ser possível.

O cartaz é variado e cada dia há um estilo de música eletrónica em destaque: a quinta-feira é dedicada ao afrohouse, na sexta-feira, dia 25, vai ter espaço a dance music e já no último dia, sábado, o tecno vai dominar.

A ideia é mostrar a diversidade de música eletrónica. “O desafio é fazer o público, sobretudo os cabo-verdianos, descobrir a variedade da música eletrónica e de DJs, produtores desta música, conhecidos no mundo inteiro e que tocam em diversos festivais”, explica Anna Topliyski. “As pessoas têm uma ideia da música tecno que não corresponde bem à verdade”, acrescenta o colega.

Festival internacional de música eletrónica

Até agora já foram anunciados 19 nomes que compõem o cartaz, no total serão 24 artistas, metade dos quais são mulheres. As nacionalidades também variam, há artistas de três continentes, Quénia, Congo, França, Holanda, África do Sul, entre outros países, e há artistas dos PALOP como Angola, e, claro, Cabo Verde (ver cartaz em baixo).

“Com os artistas africanos também tivemos algumas dificuldades porque alguns têm de fazer mais de 32 horas de voo para chegar cá. É limitativo por causa dos voos que têm de passar pelo Dubai ou pela Europa (…) É uma organização que é mais difícil”, explica uma das mentoras.

O orçamento do evento ronda os 500 mil euros (55 mil contos), segundo a organização, este montante já inclui o que foi conseguido através de parcerias e que permitiu reduzir alguns custos através do envolvimento de parceiros nacionais e internacionais, que estão a apoiar também a nível logístico.

Os parceiros têm interesse porque têm a oportunidade de estar associados a um projeto que visa a sustentabilidade ecológica.

Para este primeiro ano, a organização diz que não espera lucro e a ambição é continuar com este festival e quiçá promove-lo noutros pontos do país, com ponderação por causa da logística de transporte interilhas, bem como condições de alojamento.

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