Freestyle is the Future: Dois amigos sonham revolucionar a dança urbana em Cabo Verde

O projeto foi criado por dois jovens cabo-verdianos que começaram a dançar ainda na adolescência e visa estimular a dança urbana no arquipélago, principalmente entre os mais novos, por isso defendem a inclusão da dança como disciplina nas escolas.

O projeto de dinamização de danças urbanas Freestyle is the Future (FFCV) foi criado pelos amigos Ruddy Timas e Rogério Rodrigues com vista a revolucionar e a incluir novos géneros no panorama das danças urbanas em Cabo Verde. Em entrevista ao Balai, Ruddy Timas, de 32 anos e dançarino de Krump, defende que a relação dos cabo-verdianos com a dança tem mudado, mas que medidas como incluir a dança como disciplina nas escolas e dar mais respeito aos dançarinos podem valorizar esta arte no país.

Ruddy Timas dança desde os 15 anos. Entre 2004 e 2005 descobriu que poderia expressar-se de uma forma sem igual por meio da dança. “O que me motivou a seguir no caminho da dança foi a facilidade de expressão”, conta.

Mais tarde entrou para o grupo de dança Revolution, na cidade Praia, que acompanhou por seis anos até ter de partir para fazer o curso de Engenharia Informática, em Portugal, onde conheceu o seu colega de dança e parceiro do grupo Dope Moves, Rogério Rodrigues.

Os tempos passados em Portugal não foram fáceis para o dançarino, recorda. Sentia-se frustrado por estar com saudades da terra e da família, tendo encontrado na dança um refúgio. Ruddy conta que quer ele quer o Rogério estavam distantes da dança quando se conheceram e com “a sorte do destino” encontraram-se durante a criação da marca de roupa cabo-verdiana Dope Mates.

Os mentores da marca queria criar um videoclipe com “algo diferente”. A ideia era envolver a dança para promover a marca e os dois jovens decidiram participar e foi nessa ocasião que retomaram a modalidade. Por ser um projeto criado juntamente com a marca de roupa, Dope Mates, a parte ligada à dança passou a designar-se Dope Moves.

“Queríamos criar um grupo de cabo-verdianos no exterior para inovar na dança urbana”, relembra o jovem e acrescenta que cada integrante tinha o seu estilo próprio. O grupo era composto por Andreia (House e Hip Hop), Rogério (Hip Hop) e Ruddy (Krump). Krump é um estilo de dança criado em 1992 que se popularizou com o filme Rise, caracterizado por movimentos livres e expressivos como uma espécie de luta entre homens e mulheres.

Surgimento do Freestyle is the Future

De volta a Cabo Verde, Rogério e Ruddy perceberam que havia falta de dançarinos e pouco interesse por parte dos cabo-verdianos nas danças urbanas, o que levou à criação do projeto Freestyle is the Future.

“Eu e o Rogério não queríamos ficar presos a um só género, queríamos explorar”, sublinha. Explica que as técnicas são sempre as mesmas e que com um pouco de espontaneidade a dança torna-se em algo diferente e único, por isso o projeto é focado em workshops, espetáculos e competições.

Os workshops servem para formar sobre os diversos estilos de dança no mundo, como forma de ajudar os alunos a incorporar novos estilos e melhorar as suas habilidades. “É preciso tentar obter informação, tudo o que sabemos vem do conhecimento e é necessário desenvolvê-lo”, diz.

Atualmente, o projeto disponibiliza aulas de vários estilos de dança como Dança do Ventre, House e Ballet, a ideia é expandir para a arte no geral. Outro objetivo é promover uma maior união entre os dançarinos, mesmo que tenham estilos diferentes.

“De 2010 a 2020 a dança esteve estagnada, apenas as escolas participavam dos eventos. Não existia uma inovação nos estilos, por exemplo, houve uma época em que existiam poucos dançarinos de Hip Hop. O que estamos a fazer é criar uma comunidade para desenvolver este aspeto”, destacou.

Para Ruddy, as danças urbanas têm ganho um certo destaque, graças à união dos dançarinos e parceiros e à visibilidade que as danças têm vindo a conquistar. “Já devem estar habituados a nos ver a dar com os pés no chão”, brinca, lembrando que no início recebia sempre olhares de espanto do público que não entendiam o que estava a fazer.

Apesar do longo caminho percorrido, o dançarino acredita que outras medidas podem ser tomadas para impulsionar a dança em Cabo Verde. A primeira seria incluir a dança como uma opção desportiva nas escolas como outras disciplinas escolares, dando às crianças a possibilidade de escolherem um género favorito e cita o exemplo do breakdance que vai estrear-se como competição nos Jogos Olímpicos 2024 de Paris.

“Estou convicto de que a dança ajuda a desviar muitas crianças dos problemas socais. É a parte social do projeto: levar as pessoas a ver a dança como um caminho a seguir”, frisou.

A outra medida é “dar mais respeito aos dançarinos cabo-verdianos”, porque defende que a dança é um trabalho que merece atenção e apreço porque os dançarinos passam longas horas a treinar coreografias para entreter o público e isso exige esforço físico e mental tal como outras ocupações.

“Deixar a arte ser explorada, deixar outros estilos de dança ter o seu espaço, deixar as pessoas escolher o seu género”, destaca como uma terceira medida para a valorização da dança em Cabo Verde.

O projeto conta atualmente com 15 participantes, dos quais 8 são fixos e quatro professores/instrutores, sendo eles Ruddy e Rogério, Tamara Ishmukhametova (danças latinas) e Gege (Afrodance). As aulas estão abertas aos interessados no Auditório Nacional, sendo a inscrição feita online pelo site ou no local de ensaio, tendo como único requisito a idade superior a 4 e inferior a 72 anos.

O processo decorre em três fases: o primeiro é o da vertente Freestyle is the future, a parte do conhecimento e formação, com foco em workshops; a segunda fase da Battle Zone relacionada com o autoconhecimento e a competição entre duas pessoas em que dançam uma música desconhecida; a última etapa é o Freestyle for All focado nos bairros, onde o vencedor ganha seis meses grátis no projeto.

O desejo é expandir o FFCV para outras ilhas, porque segundo o responsável, o feedback tem sido positivo. Adianta que a escola está em reestruturação, então uma nova mensalidade será anunciada brevemente nas redes sociais do projeto.

Por agora, o representante do projeto pede que as pessoas sejam mais abertas para ouvir sobre o projeto.

Questionado sobre as ambições futuras, Ruddy diz convicto: “Tenho pensado nisso há bastante tempo, a maneira mais fácil de dizer é deixar um legado”. Destaca que o projeto tem como meta dar continuidade e não deixar a dança morrer. Reconhece que chegará um momento onde não poderá dançar mais ou se dedicar à dança da mesma forma que se dedica hoje, então espera que nestes momentos os alunos e interessados levem o projeto adiante. De momento, o dançarino reafirma que o grupo e o projeto estão a trabalhar para derrubar as dificuldades e já vê futuros impulsionadores do projeto.

Celine Salvador / estagiária

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