Gamboa 2023: Quase 12 horas de show não foram suficientes para todos. Trakinuz e Ferro Gaita ficam para sábado

Organização diz que era desumano para a Polícia Nacional que estava com excesso de carga horária e dois espetáculos foram reprogramados.

A praia da Gamboa acolheu na noite desta sexta-feira,19, a 29.ª edição do Festival da Gamboa, em homenagem ao Zé Mário Bulimundo. Evento que durou quase 12 horas foi insuficiente para todas as atuações programadas.

O certame que estava previsto começar às 21h00 arrancou com uma hora de atraso ao som do MC Distranka, que fez a sua estreia no festival após vários anos a acompanhar no meio do público. O artista subiu ao palco trajado de militar e com uma bandeira de Cabo Verde na mão e homenageou o kudurista angolano Nagrelha, que faleceu no ano passado. Atuar no Gamboa foi uma “sensação muito forte” para o artista que pretende lançar brevemente dez músicas no mercado.

Num show cheio de euforia e dança, Papa London pisou o palco também pela primeira vez e interpretou vários temas enquanto dançava ao lado de jovens dançarinos que estavam vestidos com trajes carnavalescos. O cantor cabo-verdiano, radicado em França, apresentou novos singles ao público e finalizou a apresentação satisfeito: “Praia é sabi dmais, li ki nu ta odja kual é capital, obrigado”.

“É a minha primeira vez no Festival da Gamboa e o meu coração está a bater forte com a vibração do público presente. O amor deles não tem medida. É esse o amor que vim buscar na minha terra”, disse no final da atuação.

O relógio passava das 23h00 quando Ló de Pina subiu ao palco e apresentou uma canção em homenagem ao pai e terminou com “Tempo”. “É como se fosse a primeira vez, cada momento é um momento e sempre que subo ao palco é uma sensação diferente”, afirma o cantor que já se apresentou várias vezes no palco do festival.

O cantor pediu para que os fãs fiquem atentos porque há novidades a caminho. Adianta que está a trabalhar num novo álbum constituído por dez músicas, das quais duas faixas são do género funaná. Como cantor de funaná e admirador do trabalho do grupo Bulimundo, o artista lamentou a morte do Zé Mário: “Ele fez o caminho e fez muito pela a cultura”.

Lembrando dos tempos em que fugiu de casa aos oito anos para ver Gil Semedo, a cantora Fattú Djakité recordou com carinho e disse que hoje ao subir ao palco sentiu que finaliza um ciclo e mais um sonho. Se anos atrás estava na grade a assistir, hoje foi aplaudida pelo público enquanto erguia a sua voz.

Durante a sua atuação abordou que já foi vítima de preconceito, destacando que muitas vezes foi chamada de “refugiada de guerra”, um nome que hoje aceita e afirma com convicção porque diz que sobreviveu a muito durante o seu percurso.

Em entrevista à imprensa, a cantora reafirmou o seu posicionamento em relação à crítica que fez recentemente sobre a pouca presença de mulheres nos cartazes de eventos cabo-verdianos. “Entendo que temos mais homens a cantar em Cabo Verde, mas há muitas mulheres também. Fiquei no canto do cartaz do Gamboa, mas vou fazer o meu trabalho e é para isso que estou aqui”, desabafou a artista.

Por volta da 01h00, aconteceu a homenagem ao falecido Zé Mário, ex-vocalista do grupo Bulimundo e foi entregue à família um troféu e um diploma.

Em entrevista ao Balai, o filho Kiki descreve Zé Mário como um rei. “Não estava à espera da homenagem. Para mim foi uma surpresa, mas essa homenagem foi grande. Agradeço ao povo de Cabo Verde pelo que fizeram ao meu pai. Para mim o meu pai foi um rei, era tudo para mim.”

O relógio marcava 01h20 quando o apresentador DJ Pensador anunciou a atuação do MC Prego Prego para a alegria do público que gritava pelo nome do artista. O MC cantou vários hits e vibrou juntamente com o público. Estreante no Gamboa, MC Prego Prego disse que não estava à espera da grande receção que teve: “O coração batia forte”.

Sendo muitas vezes criticado pelo público por causa das suas letras, o cantor defendeu-se, afirmou que não se importa com as críticas e que vai continuar a criticar porque vai continuar a fazer suas canções sempre com respeito. MC Prego Prego aproveitou a oportunidade para anunciar novo videoclipe para o dia 27 de maio.

Por volta das 02:50, o DJ Pensador anunciou a atuação de Ga DaLomba. O cantor praiense chamou para o palco diversos talentos da ilha de Santiago como Freestyle is the Future e Kleidir Fortes.

Ao som de “Omi Tambe Ta Txora”, o rapper passou a mensagem de sofrimento mas também de apoio a todos os que sofrem por fatalidades da vida. O artista explica que mesmo num evento como o Gamboa existe a necessidade de alertar para os problemas sociais como a monoparentalidade, a criminalidade e as drogas.

“Só coisas bonitas vão acontecer este ano, o álbum está na fase final, vou começar a tournée e vou mais uma vez para Luxemburgo no dia três”, anunciou no fim .

Seguiu-se Mito Kaskas que começou a atuação com a música “So Ses Boca” e assim foi seguindo com “Txeru Maleta”, “Boss Presidenti”, “Oh Deus Nhu Leban So Si” e “Karanganhada”.

Para o cantor este é o seu grande retorno aos palcos nacionais onde o público superou as suas expetativas e reconheceu que foi ingrato com os seus admiradores por ter ficado um tempo sem lançar nada por causa das complicações que teve por causa da covid-19. Anunciou para breve um EP focado em todos os mercados, porque segundo diz foi viver em Portugal porque deseja atingir um público maior porque quer levar o nome do país mais além.

Por volta das 04:45 subiram ao palco Beto Dias e Suzanna Lubrano para a alegria do público que começou a cantar e a dançar “djam tem um vício na bo”. Suzanna Lubrano pegou o microfone para cantar os seus maiores hits, e nisso cantou “Tudo pa mim” em gratidão a tudo de bom que aconteceu em sua vida.

Acompanhado pela companheira de palco, Beto Dias cantou “Totalmenti di Bô” e “Sin sabeba”. A dupla desceu do palco por volta das 06:00 da manhã.

Em declarações à imprensa, Beto Dias sublinhou que é sempre um prazer subir ao palco do Gamboa e que os fãs sempre fazem valer a pena. Por sua vez, Suzanna Lubrano revelou que está a trabalhar num novo projeto que está previsto para sair ainda este ano. Ambos agradeceram a energia do público e a Deus a tudo o que lhes foi permitido viver.

Com o sol a aparecer e com 06:10 a apontar no relógio, Hélio Batalha subiu ao palco clamando pela alma de todos os que fizeram história e que permanecem “Imortais” nas memórias. “O Ki fomi Txiga” não podia faltar na festa e foi cantada em seguida, pelo cantor e pelo público. E para fechar a sua atuação chamou Sónia Sousa para cantar “Dexam Bua”.

“Uma receção incrível, um público incrível e Gamboa também”, destacou o artista que enaltece o trabalho da sua equipa e do público praiense. Tendo lançado um álbum recentemente, o rapper promete para os próximos meses shows no Mindelo, Luxemburgo, Holanda, e espera encontrar a mesma energia que recebeu na Praia.

Depois de pisar o palco do Gamboa em 2019 a convite de Boss AC, a dupla de origem cabo-verdiana Supa Squad voltou ao palco do certame e foi recebido aos gritos por um público resistente e empolgado. “Cupido” e “Minha Terra”, um tema gravado com a fadista portuguesa Mariza, foram alguns dos temas interpretados no festival.

Para os integrantes Marley e Zacky Man, que vão atuar brevemente nos CVMA, o show foi muito bom e superou as expectativas. Para uma próxima oportunidade prometem interagir mais com o público em crioulo.

Gravar com o tema “Minha Terra” com a fadista Mariza foi especial para a dupla e ficaram admirados com o sucesso do single. “Estávamos à espera do calor do público, mas está a fazer sucesso em todos os lados. Agora não vamos largar Cabo Verde. Os fãs podem esperar mais músicas surpreendentes, ou seja, featuring improváveis, muita energia e dança.”

De um cartaz extenso ao fim antecipado

De seguida subiu ao palco Garry, que foi bastante aplaudido pelo público que gritava pelo seu nome e acompanhava o artista a interpretar as músicas do início ao fim. Já no final da atuação foi-lhe cortado o som do microfone como forma de o obrigar a descer do palco, algo que considera uma falta de ética.

“É chato. Isso já aconteceu comigo várias vezes. Acho que interromper a música no meio do show não é ético. Faltava apenas um minuto e podiam deixar-me terminar o show.”

Apesar deste episódio, Garry dá nota 10 ao show que apresentou no Gamboa. “Foi muito emocionante. Fiquei até descontrolado. A sensação é espetacular. Estou sem palavras, ainda estou a tremer. Subi no palco com medo porque pensei que já não havia ninguém no areal (risos).”

Garry desceu do palco por volta das 09h30 e ainda faltava a atuação de mais dois artistas – Trakinuz e Ferro Gaita – quando a organização anunciou o encerramento do primeiro dia do festival.

Em entrevista ao Balai, João Miranda da empresa JM Produções disse que houve um constrangimento em termos do alinhamento. “Atrasamos no início, portanto, isso teve consequência no fim. (…) Constatamos que é desumano para a Polícia Nacional que estava com excesso de carga horária e tomamos a decisão de cancelar os dois espetáculos e reprogramá-los para hoje (sábado). Tendo em conta que o festival está com um grupo enorme de artistas, com banda, e isso traz uma certa consequência em termos de mudança de palco.”

Por seu turno, Gugas Veigas, em representação do grupo Ferro Gaita, disse que devido ao horário a polícia deu um “deadline” e tendo em conta o tempo que faltava para o encerramento não dava para os dois artistas atuarem, então optaram por adiar. “Estamos aqui para fazermos o nosso trabalho e nos adaptarmos ao que for necessário.”

Uma vez que não podem fazer nada, Bino dos Ferro Gaita disse que respeitam a decisão e ficam à espera para o público no segundo dia. “Estamos preparados para atuar.”

Já Trakinuz disse que é uma situação que vai além da sua vontade, mas agora está focado em preparar um show melhor. “De qualquer forma tenho que apresentar o meu show e isso aconteceu porque houve um certo desajusto na organização com os atrasos. Então, é uma questão de evitar o que aconteceu no primeiro dia. Acredito que com organização dá para fazer um show tranquilo. Peço desculpas às pessoas que vieram hoje e prometo um show 100% melhor.”

Cruz Vermelha registra nove emergências no primeiro dia

O representante da Cruz Vermelha, Ivandro Lopes faz um balanço positivo do primeiro dia do festival. “O público se comportou bem, com civismo e muita alegria”, destacou.

Ivandro Lopes afirma que a Cruz Vermelha registou nove ocorrências, das quais sete são provenientes de mal-estar e as outras dois derivadas de doença. O responsável aponta a causa da superlotação, desmaio e doença como os dois fatores para os ambos os casos que foram encaminhados para o hospital.

A Cruz Vermelha destacou 17 pessoas para o festival, das quais duas são enfermeiras e 15 voluntários. A equipa foi responsável por prestar os primeiros socorros e caso for preciso evacuar para o hospital.

Aline Oliveira/Celine Salvado

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