”Havia uma separação quase poética entre o Batchart e o Edson. Hoje em dia tudo o que faço é Batchart”

Nove anos após o lançamento do primeiro trabalho discográfico “WikiLeaks”, Edson Silva, ou simplesmente Batchart, está de volta com “Resiliente”, um álbum que traz uma nova abordagem, mas sem perder a essência, garante. “Neste álbum as pessoas veem claramente que é um ‘novo’ Batchart”, diz o artista em entrevista ao Balai.

O rapper e ativista social lançou nas plataformas digitais em finais do ano de 2021 “Resiliente”, um álbum que reflete sobre “o processo interno, o amadurecimento e o crescimento pessoal das pessoas” em tempos de pandemia.

“A resiliência na verdade é uma característica que o ser humano tem de resistir às adversidades. Acho que este período (da pandemia) testou a nossa resiliência e mostrou-nos que temos mais força dentro de nós do que imaginamos e é esta mensagem que quero transmitir”, afirma.

… Tive uma incapacidade em conseguir conciliar a carreira em ambas as áreas. Por isso, decidi dedicar-me somente à música.

Por isso, Batchart acredita que o álbum veio no momento certo. “Não hesitei em lançá-lo em tempos de pandemia da Covid-19 porque acho que é uma mensagem que deve ser consumida mais nesta altura do que noutra. Estamos a conseguir adaptar-nos e a dar a volta por cima das adversidades. Acredito que o álbum veio no momento certo (…) e acho que este álbum vai ajudar-nos a seguir em frente e a encontrar mais força”.

Além da vertente artística, o rapper sempre teve presente um lado social muito forte. Nos últimos anos, trabalhou no Instituto Cabo-verdiano da Criança e do Adolescente – ICCA. Contudo por ser uma área que “consome muita energia”, Batchart abdicou deste trabalho para se dedicar exclusivamente à música.

“Sinto que sou um ser completo quando tenho essa vertente social. Por outro lado, é um trabalho que drena muita energia. Tive uma incapacidade em conseguir conciliar a carreira em ambas as áreas. Por isso, decidi dedicar-me somente à música. Acho que, neste momento, o Batchart precisa mais de mim do que o Edson. Antes havia uma separação quase poética entre o Batchart e o Edson. Hoje em dia tudo o que faço é Batchart. Se faço algo social há sempre uma relação entre a arte e a música”, explica ao referir-se sobre o processo dos nove anos para produzir um novo CD.

Um ‘novo’ Batchart

Em “Resiliente”, o rapper diz que traz uma nova abordagem, mas sem perder a sua essência. “Neste álbum as pessoas veem claramente que é um ‘novo’ Batchart. Há coisas que não estava à espera de fazer há três anos, como alguns instrumentais que utilizei. Acho que isso foi um grande desafio: mudar sem perder a essência”.

“Se formos comparar os dois álbuns, em ‘WikiLeaks’ o conceito é liberdade de informação e ‘Resiliente’ é um álbum mais voltado para dentro. A forma de contar uma história e de rimar está diversificada. Por exemplo, misturar rap e funaná era algo que não pensava sequer em fazer. Fiquei contente em ter conseguido”.

“6 perguntas”, “Hip Hop Salvame”, “Ghetto Super Star”, “Kuida de bo”, “Akredita”, “Who”, “Pá riba des”, “08.01. 2015” (Navio Vicente), “Por quem será”. “Tet”, “Mestre”, “Futur”, “Xtrill”, “Babilonia”, “Valor dum lágrima” e “Undes?” são as dezasseis faixas que compõem o álbum. “Há músicas que existem há muito tempo e outras que foram feitas na semana do lançamento”.

As rimas são da autoria de Batchart, mas algumas foram escritas em parceria com os artistas que colaboram com o rapper neste projeto, nomeadamente, Dino D’Santiago, Kiddye Bonz, Ga DaLomba, Mito Káskás, Péricles da Costa (PNC), Djodje, Ruben Teixeira, Golbeats e Michelle. “Digo que tive a sorte em ter conseguido trabalhar com pessoas que são meus amigos são pessoas com as quais me identifico”.

… A parte deliciosa é sentir que a minha presença deixou falta

’Resiliente’ é um álbum onde é possível ouvir vários géneros musicais cabo-verdianos e não só. “Primeiro fizemos questão de pegar naquilo que é o folclore cabo-verdiano. A música “Navio Vicente” tem o sentimento de morna. “Xtrill” é uma mistura de drill e funaná, por isso chamo-lhe funadrill. Tenho também batuco, tchabeta, tabanca (…). “Tet” é uma mistura do nosso rap e moombahton”.

“A música Tet não é algo que as pessoas esperavam do Batchart. Talvez nem eu esperava. (antes) Não tinha essa abertura para a mudança. Este álbum é mais melódico que WikiLeaks. Tem muitos refrões e harmonias feitas com a minha voz, algo que não tinha no CD anterior (…).

“A parte deliciosa é sentir que a minha presença deixou falta”, refere o artista no que tange ao feedback do público, já que diz que tem recebido muitas mensagens de parabéns nas redes sociais e pessoalmente.

Questionado sobre como vê a retoma dos eventos culturais no país, Batchart diz que é “uma enorme casca de banana”.

“Acho que as coisas já se complicaram de tal forma que já demos motivos para voltar a fechar. (…) Não podemos culpar a população pela situação do país porque está a comportar-se assim porque teve uma abertura e vamos pagar por essa falsa sensação de segurança”, salienta e lamenta que o setor da cultura vá sair novamente prejudicado.
O artista ambiciona a partir de março, se a pandemia der uma trégua, fazer uma tournée pelas ilhas. “Se em tempos de campanha (eleitoral) fizeram comícios e disseram que cumpriram as regras de segurança é porque também conseguimos”.

Recentemente, Batchart foi eleito uma das 100 Personalidades Negras Mais Influentes da Lusofonia pela Bantumen. O rapper, que se mostrou surpreendido pela nomeação, diz que serve para mostrar que em alguma parte do mundo alguém está a prestar atenção no seu trabalho. “Trata-se de um reconhecimento do trabalho que tem feito”, conclui.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest