Mário Lúcio sentiu Amílcar Cabral presente enquanto escrevia o livro sobre a sua vida

Mário Lúcio sentiu Amílcar Cabral presente enquanto escrevia o livro sobre a sua vida

Mário Lúcio Sousa ofereceu o primeiro exemplar de “A última lua de homem grande” a Amílcar Cabral, o homem que mudou a sua vida e cuja presença sentiu enquanto escrevia a história do “pai” da independência guineense e cabo-verdiana.

“Muitas vezes, durante a escrita, eu senti Amílcar muito próximo. Tanto é que, quando peguei no primeiro exemplar do livro, cheguei a minha casa, onde tenho um quadro dele numa espécie de altar, e disse: Amílcar, toma o teu livro”, contou à agência Lusa o escritor, músico e antigo ministro da Cultura de Cabo Verde.

O livro que ofereceu a Cabral é “A última lua de homem grande” (editora Leya), um romance que conta a vida deste líder africano, a quem chamavam de “homem grande”, recentemente escolhido como um dos 20 maiores da história da humanidade, mas que também aborda a sua morte, um eterno mistério que, segundo o autor, é desvendado na obra.

“Basta ler o livro para se compreender tudo sobre a história da vida de Cabral, inclusive os meandros da sua morte”, afirmou, referindo-se ao dia 20 de janeiro de 1973, quando, na capital da Guiné-Conacri, Amílcar Lopes Cabral foi morto por um tiro.

Mário Lúcio Sousa não esconde a admiração por Cabral, que morreu quando o artista tinha oito anos, e que lidera a lista do muito que a vida lhe deu, incluindo o seu país: Cabo Verde.

“O livro tratou de Amílcar Cabral como uma pessoa comum e extraordinária. Basta conhecer a pessoa, o infante, o adolescente, o adulto, os seus percursos, conhecer o humanismo, o humor, a sabedoria”, afirmou.

Na sua obra, é o homem e não o líder africano que está em destaque.

“Conhece-se muito bem Amílcar Cabral, porque ele tem sido tratado como um político. E o político representa menos de 10% do caráter e da grandeza de Amílcar Cabral”, prosseguiu.

E deixa o convite: “Basta ler este livro com cautela, devagar e tentar compreender. Uma pessoa fica imediatamente apaixonada por Amílcar Cabral, fica compassiva, compreensiva e também mais enriquecida, porque quanto mais conhecermos um ser humano, melhor nos conhecemos e melhor conhecemos o mundo”.

Para Mário Lúcio Sousa, há uma explicação para a figura de Amílcar Cabral merecer cada vez mais estudos e despertar tanto interesse.

“Todas as gerações precisam de referências. E o mundo tem poucas referências recentes de grandes homens, grandes exemplos. Amílcar Cabral é um dos líderes que inspiram as novas gerações. Daí que, um pouco por todo o lado, os historiadores se interessem por conhecer melhor e dar a conhecer ao mundo a figura de Cabral”.

As novas gerações, indicou, vêm em Amílcar Cabral “a integridade, a generosidade, a entrega”.

“O livro é tomado como um romance, como uma obra literária, uma peça estética e todo o seu valor está nisso – o livro. Depois há o protagonista do livro, que é Amílcar Cabral, e está tratado no livro como eu o sinto. Eu partilhei com o público o Amílcar que tenho dentro. Cada um partilha com o público o Amílcar que leva dentro. Ali é o meu Amílcar, uma relação afetiva, de gratidão, uma relação espiritual também”, avançou.

O escritor conta que teve o seu primeiro contacto com Amílcar Cabral quando descobriu, no bolso das calças do irmão, um papel com um poema em crioulo “Kabral ka morre” (Amílcar Cabral não morreu), da autoria de Emanuel Braga Tavares, tinha o líder do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGCV) morrido há três anos.

“Eu tinha uma memória fabulosa e, de uma leitura escondida, decorei todo o poema e à noite saía à rua com um grupo de tambores a recitar o poema pelas ruas. Demorou meses para explicar às pessoas o que era a independência”, disse.

E acrescentou: “Eu virei uma espécie de menino público. Isso transformou a minha vida; por causa disso o Estado adotou-me como um pupilo, deram-me uma bolsa, estudei, e fiz toda a minha vida, em função desse contacto. E é muito curioso que eu fecho o ciclo escrevendo a biografia romanceada dele”.

O livro “A última lua de homem grande” foi primeiro apresentado no Tarrafal, ilha de Santiago, onde Mário Lúcio Sousa nasceu, e depois na capital, Praia. Em Lisboa, a apresentação da obra está marcada para terça-feira.

 

Lusa

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