Mário Lúcio Sousa realça em livro o papel da crioulização nas novas identidades

O artista e escritor Mário Lúcio Sousa realçou hoje, em Coimbra, a importância do processo de crioulização para defender que cada pessoa “carrega em si múltiplas identidades” que importa respeitar.

“Isto oferece também novas semânticas e metáforas sobre as nossas identidades”, afirmou Mário Lúcio Sousa, em declarações à agência Lusa.

O músico, compositor e escritor falava a propósito da sua última obra, “Manifesto A Crioulização”, que é apresentada hoje, às 19:00, no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra, no âmbito de uma iniciativa da companhia de teatro “A Escola da Noite”.

“Um indivíduo só pode carregar identidades múltiplas, mas como ele há milhões no mundo”, referiu, associando as suas reflexões à ideia de “uma sociedade com diversas culturas”.

A partir da experiência de Cabo Verde, antiga colónia que alcançou a independência de Portugal em 1975, bem como “dos crioulos pelo mundo”, nasce “uma nova perspetiva sobre as identidades”, salientou.

Para Mário Lúcio Sousa, “há uma identidade síntese derivada das raízes múltiplas, com a forma de rizoma” dos povos e de cada pessoa, suas línguas, culturas ou mesmo religiões.

“Deixemos então de nos separarmos por causa da identidade”, preconizou, ao propor, nesta área, “uma outra perspetiva que vem do sul para o norte” do mundo.

Na sua opinião, “qualquer que seja a identidade, ela deve ser respeitada” pelos outros, através de um novo olhar que “entra num aspeto mais profundo: a aceitação”.

“O outro é o nosso olhar e nós somos também o olhar do outro. Temos de perceber que ele não está fora de nós”, sublinhou o autor cabo-verdiano.

O indivíduo pós-colonizado, “na verdade, existe antes disso”, frisou, ao referir-se a séculos de colonização, por parte de países da Europa, um pouco por todo o mundo.

“O termo colonialismo – e o modo de falar dele – é feito por quem o criou”, ressalvou.

Os cidadãos de Cabo Verde e de outras antigas colónias têm “algo de diferente a dizer numa perspetiva que não é acusatória”, após “fazerem o luto e entrarem no círculo da gratidão”, o que não pode acontecer “com o coração dorido”.

“Não se faz sem a escuta do outro”, o que traduz “um pensamento íntimo”, expresso na obra “Manifesto A Crioulização”, que definiu como “o país do pós-rancor”.

Esse país, que neste caso, numa “abordagem rizomática”, será Cabo Verde, “existe entre a água salgada e a água doce, entre a terra e o mar”, concluiu Mário Lúcio Sousa.

O livro tem prefácio da autoria do músico Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura do Brasil.

Lusa

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