Maya Neves: “O maior desafio é encontrar oportunidades em Cabo Verde para fazer a minha arte”

Depois de vários anos na música e a colaborar com outros artistas, Maya Neves lança o seu primeiro single a solo “Get Closer”. Em entrevista ao Balai, a artista diz que o feedback do público tem sido positivo, mas revela que em Cabo Verde ainda é complicado viver apenas da música.

“Get Closer” é o single de estreia da cantora e compositora praiense Mayra Neves, conhecida no meio artístico por Maya.

“O tema é mais para as pessoas sentirem uma vibe positiva. ‘Get Closer’ também traz uma mensagem. No videoclipe uso a bandeira da comunidade LGBTI+ para mostrar às pessoas que é algo que existe e que é normal. Independentemente do que és, podes fazeres o que quiseres, desde que sejas feliz. Acho que essa representatividade ainda não existe em Cabo Verde e é preciso dar a conhecer de forma a acabar com o preconceito que existe na sociedade.”

A letra da música é da autoria da jovem que foi a vencedora da primeira edição do concurso Voice One, em 2018. Já os arranjos musicais são de BouzinBeats.

“Escrevo todas as minhas músicas e tenho várias na gaveta. Escrevo muito, mas lançá-las requer muito trabalho. O meu primeiro single foi escrito há um ano e só agora que consegui divulga-lo”, diz e explica que Get Closer atrasou-se ainda mais por causa da questão do videoclipe. “Estava à espera do diretor Marcos Semedo que estava em Portugal.”

Questionada sobre se o single é o anúncio de um trabalho discográfico, Maya diz que não, mas adianta que está a trabalhar na ideia de um álbum. “Ainda vai demorar, porque é um projeto ambicioso. Então, preciso de muito tempo para a produção, enquanto isso vou lançando singles.”

O feedback do público em relação ao Get Closer tem agradado a artista de 22 anos.

“Estou a gostar muito do feedback. Estou feliz e tenho recebido alguns vídeos de pessoas a cantarem e a dançarem ao som da minha música”, diz a cantora que está a retomar o foco na música aos poucos depois de uma paragem devido à pandemia da Covid-19. “Foi uma época muito triste para mim porque quase parei de cantar. (…) Foi complicado e só agora que estamos a conseguir recuperar. Agora que estou a retomar os shows, estou a recuperar, mas ainda está complicado.”

“O meu sonho é ser uma cantora profissional internacional”

Apesar de só agora lançar o seu primeiro single a solo, Maya Neves já tem um longo percurso na música, tendo começado há cerca de nove anos em São Vicente, ilha onde cresceu.

“Comecei a levar a música a sério aos 13 anos quando entrei para o grupo Coral Jorge Barbosa. Depois passei a frequentar diferentes espaços onde vários artistas, principalmente de reggae, ensaiavam. Primeiramente, ia apenas para apreciar, mas depois comecei a cantar. Depois passei a fazer shows no espaço Nhô Djunga. Ao longo dos anos, o interesse pela música foi aumentando”, recorda.

Viveu na ilha do Monte Cara até 2016, tendo regressado à cidade da Praia por motivos familiares.

“Vim viver com a minha mãe e as minhas irmãs. A minha mãe apresentou-me a um guitarrista e passamos a atuar nas noites cabo-verdianas da capital.”

Dois anos mais tarde, participou na primeira edição do concurso Voice One, tendo sido a vencedora. Ainda no âmbito do evento, Maya foi representar o país no Festival Boreal, em Tenerife.

“Foi uma boa experiência. Houve momentos altos e baixos como qualquer experiência. O que mais gostei no Voice One foi a possibilidade de controlar ao máximo o meu show.(…) Ganhei muita experiência nesse aspeto. Aprendi muito com os outros participantes e fiz muitas amizades. Também foi um prazer ter estado em Tenerife a representar Cabo Verde com grandes artistas.”

De Tenerife a artista trouxe na bagagem várias sonoridades. “Ouvi sons que nunca tinha ouvido e vi instrumentos que nunca tinha visto. Era a primeira vez que estava a cantar num festival desta dimensão. Foi a realização de um sonho”, conta e diz que esses dois eventos foram marcantes na sua carreira. “Outro momento marcante foi atuar nas Jam Sessions do Atlantic Music, onde cantei com vários artistas que nem conhecia.”

Maya define-se como uma artista versátil, mas sente-se mais natural ao cantar jazz e reggae. “Gosto muito de música, então canto aquilo que sinto. Mas há algo em mim que é mais jazz, sai mais naturalmente do que outros estilos. Reggae também. Acho que são esses dois estilos que me definem mais, mas posso cantar qualquer outro género.”

As malogradas artistas Cesária Évora e Amy Winehouse são algumas das suas referências artísticas.

“A Billie Eilish é o meu ídolo. Respeito muito também os artistas do grupo Azágua (Dieg, Fattú Djakité, Alberto Koenig, Nelly Furtado, Ndu Carlos e Djodje Almeida).”

…Damos tudo de nós, mas o reconhecimento é pouco

“O maior desafio é encontrar oportunidade em Cabo Verde para fazer a minha arte. No país não há muito apoio, é preciso ter algo para auxiliar porque a música exige muito investimento. (…) Já trabalhei com várias pessoas, mas não conseguem manter a consistência e acho que isso acontece porque os artistas não têm apoio do Governo. (…) Acho que a Sociedade Cabo-verdiana de Música (SCM) foi uma boa iniciativa, mas é preciso ter mais união entre os artistas”, diz e afirma que em Cabo Verde ainda é complicado viver apenas da música.

De acordo com a cantora, fazer música exige muito investimento e tempo. “Damos tudo de nós e o reconhecimento é pouco”, diz a jovem que investiu num estúdio em casa e em aulas de guitarra.

No que tange aos planos para o futuro, Maya pretende continuar a lutar para concretizar o seu sonho. “O meu sonho é ser uma cantora profissional internacional. Quero viajar e fazer aquilo que mais gosto – música”, conclui.

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