Milla Diogo: “Encaro o cargo de Rainha de Bateria como uma profissão”

A mindelense de 28 anos já ocupou o papel de destaque em quase todos os grupos oficiais da ilha e este ano assume o posto de Rainha de Bateria do Vindos do Oriente. “Vou onde tenho a melhor proposta e melhores condições”, afirma em entrevista ao Balai.
Foto do Mário Soares cedida pela entrevistada

Veterana no Carnaval de São Vicente, Milla Diogo carrega uma longa história com a festa do Rei Momo. A sua estreia na Avenida aconteceu em 2012, no Estrela do Mar, como madrinha de bateria. Desde então passou por diversos grupos, incluindo Som Sem Limites, onde assumiu o cargo de Rainha de Bateria.

Em 2015, mudou-se para o Vindos do Oriente, onde foi convidada a ser madrinha de bateria. “Desfilei com um figurino ousado, algo inovador, e isso causou impacto na Avenida”, relembra.

Nos anos seguintes, participou do concurso de Rainha de Bateria do Cruzeiros do Norte, ficou em segundo lugar em duas edições consecutivas (2016 e 2017). Indignada e em busca do título, disputou o concurso no Vindos do Oriente, venceu e foi Rainha de Bateria do grupo em 2017.

“Em 2018, fiz uma pausa devido à maternidade e regressei em 2019 como musa do Flores do Mindelo, mas não cheguei a desfilar porque o meu traje não ficou pronto. Foi desanimador.”

Após a pandemia da Covid-19, em 2023 foi Rainha de Bateria do Flores do Mindelo e, em 2024, assumiu o mesmo título no Estrela do Mar. Agora, regressa ao Vindos do Oriente.

Sem ligação fixa a um grupo, a sambista da zona de Ribeirinha considera-se uma profissional do Carnaval. “Costumo dizer que sou o Carnaval de São Vicente. Encaro o cargo de Rainha de Bateria como uma profissão. Vou onde tenho a melhor proposta e as melhores condições”, afirma. Apesar de ter afinidade com algumas escolas, prioriza sua carreira. “O que me cativa é ser bem acolhida num grupo.”

A experiência de transitar entre diferentes grupos é, segundo a jovem, enriquecedora e benéfica. “Cada grupo tem sua história e sua forma de trabalhar. É uma maneira de adquirir experiência e aprender com os pontos positivos e negativos.”

Desafios e momentos marcantes

O maior desafio do seu percurso nesta área aconteceu em 2024, quando sua fantasia, que estava a ser produzida no Brasil, não ficou pronta a tempo. “Tinha apenas uma semana para resolver o problema. Adquiri peças em diferentes pessoas e transformei conforme o desenho do enredo. Investi muito dinheiro na peça”, relembra.

Apesar do contratempo, o desfile do ano passado foi um marco na sua trajetória. “Planeei, estudei e executei tudo como imaginei. O reconhecimento do público e das pessoas que me acompanham foi imenso. Foi um desafio superado e desfilei com alegria na Avenida”.

Para manter o alto desempenho, Milla segue uma rotina intensa de preparação. Treina o ano inteiro na academia e dança muito. A nível mental, busca manter-se equilibrada. “É uma pressão enorme, mas confio em mim mesma. Sei da responsabilidade que tenho e tento impor limites.”

O figurino da Rainha de Bateria é um grande investimento. Milla enfatiza que negocia com os grupos para que assumam os custos da fantasia, mas, quando surgem imprevistos, recorre a patrocinadores. Este ano, a sua roupa foi confecionada por um brasileiro na ilha de São Vicente.  “Acompanhei todo o processo desde o início, já experimentei e faltam apenas os últimos detalhes.”

Na edição de 2024, a Liga Independente dos Grupos Oficiais do Carnaval de São Vicente (LIGOC SV) decidiu atribuir o prémio de Melhor Rainha de Bateria a todas as quatro concorrentes, o que gerou indignação. Milla reagiu com espanto.  “Achei que fosse uma brincadeira. Quando percebi que era real, não aceitei e decidimos colocar o cheque no chão. (…) Foi desrespeitoso com o nosso trabalho”, lamenta. Para este ano, espera um julgamento mais justo por parte dos jurados.

Questionada sobre o seu futuro na folia, Milla responde com humor. “Só Deus sabe! Vou até onde conseguir.” O Carnaval, para ela, é mais do que uma festa. “É uma paixão, uma fuga, um mundo de fantasia onde me transformo completamente.”

Na sua perspetiva, o Carnaval de São Vicente tem evoluído, embora ainda haja desafios. “Houve melhorias significativas que dão mais estabilidade na hora do desfile, mas ainda há pontos que precisam ser aperfeiçoados. Acredito que a LIGOC-SV está a trabalhar para tornar o evento ainda melhor.”

O retorno do Vindos do Oriente

Neste ano, o Vindos do Oriente retorna à Avenida após o falecimento das suas presidentes Lily e Cely Freitas. Sob a direção de Dirce Vera-Cruz, o grupo promete um desfile memorável. “Vamos mostrar a nossa verdadeira força. Vamos dar um show e nos divertir”, afirma a Rainha de Bateria do grupo.

Vindos do Oriente é o primeiro a entrar na Rua de Lisboa nesta terça-feira, 4, com cerca de 1200 foliões, três carros alegóricos e uma comissão da frente. O enredo do grupo é “As filhas de Isis no berço da vida. Lutas e conquistas” e vai ser apresentado ao som da música “Se Carnaval era gente” de Jotacê e Anísio Rodrigues. O casal de Porta-Bandeira e Mestre-Sala é formado por Raquel Ferreira e Riven Fortes.

 

 
 
 
 
 
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