Nana e Totchi, os irmãos mindelenses que encontraram na música uma forma de superação

Os irmãos músicos Renato ‘Nana’ e Airton ‘Totchi’ Almeida fazem parte de uma família de seis irmãos, três dos quais são portadores de uma deficiência visual desde nascença. Mas esta condição não os impediu de realizar vários sonhos, nomeadamente na área da música, onde ambos trabalham.

Naturais de São Vicente, os irmãos ‘Nana’ Almeida, 35 anos, e ‘Totchi’ Almeida, 30 anos, estão habituados desde tenra idade a superar várias dificuldades no seu dia-a-dia.

“Os nossos pais tiveram seis filhos, três enxergam e os outros três são invisuais. Não sabemos o motivo da nossa cegueira. Nunca quis investigar sobre isso porque considero que seja uma questão muito difícil para os nossos pais”, começa por explicar Totchi.

Para Nana crescer com deficiência visual não foi fácil e o apoio dos pais foi fundamental para lidar com os obstáculos diários. “Os nossos pais sempre nos apoiaram e deixaram-nos à vontade para explorar o mundo. Fazíamos quase tudo o que uma criança dita ‘normal’ fazia e isso nos ajudou bastante”.

Aliás, Totchi vê a sua deficiência visual como uma motivação, apesar de reconhecer as limitações que tanto ele como o irmão mais velho enfrentam.

“Há momentos em que gostaria de sair para passear sozinho, sem ter alguém para me guiar, mas, infelizmente, isto não é possível, porque as ruas não estão preparadas para que uma pessoa invisual caminhe sozinha”, explica.

“Por sermos invisuais, as pessoas tratam-nos como se fôssemos deficientes mentais”

O irmão mais novo desabafa que “vencer as barreiras impostas pela sociedade tem sido uma grande dificuldade”.

“Por sermos invisuais muitas vezes, as pessoas tratam-nos como se fôssemos deficientes mentais, ou até mesmo impotentes. Pensam que pelo facto de não enxergarmos, não conseguimos fazer nada”.

Nana partilha da mesma opinião e explica outras dificuldades que enfrentam no dia-a-dia.

“Passeios com rampas inadequadas e placas publicitárias, estradas com buracos e desníveis, pessoas que fazem testes se estás a enxergar ou não, são algumas das dificuldades rotineiras nas nossas vidas”.

Mas mesmo tendo em conta estes desafios, Totchi diz que ele e o irmão levam uma vida normal.

“Dentro de casa fazemos quase tudo que uma pessoa visual faz, ajudamos nas tarefas de casa e gostamos muito de jogar Playstation”.

Música sempre presente

“Crescemos a ouvir a nossa irmã Nilza Almeida, que também é deficiente visual, a cantar e isso despertou o nosso interesse pela música”, recorda Totchi.

Nana que é cantor, produtor, teclista e compositor diz que a sua caminhada na música começou aos quatro anos quando participou do programa da RCV “Olá meninos”. Aos 10 anos, Nana começou a tocar teclado, mas somente aos 21 anos é que começou a tocar profissionalmente.

Já Totchi que é cantor e baterista diz que começou a cantar desde muito pequeno e que aos sete anos começou a aprender a tocar bateria e “com os 19 anos comecei a compor”.

Nana, que atualmente trabalha como produtor no estúdio Hell Box, do amigo Raybeatz, conta que já fez parte de alguns grupos musicais como o da Diva Cesária Évora, Double HB, que aliás considera como alguns dos momentos mais marcantes que já vivenciou ao longo do seu percurso musical, e ainda dos coletivos Hip Hop Art e TN Brothers.

Já produziu para vários artistas como Batchart, Divas Paris, Elly Paris, Djony Ramos, Nilton Ramalho, William Araújo, Expavi, Kiddye Bonz, Mark Delman, Arthur Brito, entre outros e conta com inúmeras colaborações com artistas nacionais e internacionais.

“Já pertenci aos grupos Double HB, Mindel Groove, Krad e atualmente faço parte dos grupos TMPBoy e TN Brothers. Também já colaborei com vários artistas como Batchart, Expavi, Mark Delman, Devil Z, etc.” diz Totchi.

Projeto TN Brothers

Segundo os irmãos, TN Brothers é um projeto musical criado por ambos em 2019.

“Atualmente o projeto está parado devido a alguns compromissos profissionais, mas há planos para continuar e tem tudo para dar certo, porque é algo nunca visto em Cabo Verde, dois irmãos invisuais a atuarem juntos”, avança Nana.

Nana tem como referência no mundo artístico o músico Manu Lima, já o cantor e baterista Totchi tem como ídolo o também baterista e cantor Grace Évora e considera ter feito parte da banda que tocou com o rapper Batchart e com Grace Évora no palco de Baía das Gatas um dos momentos mais marcantes da sua carreira musical.

Não quer seguir carreira de cantor, diz o mais velho que gostaria de ser reconhecido apenas como produtor musical. Já Totchi ambiciona é ser conhecido como um grande baterista.

“O feedback que temos recebidos do público tem sido sempre positivo e temos apenas a agradecer” afirma Totchi.

Impacto da Covid-19

Para Totchi, a pandemia tem sido um caos tanto a nível pessoal como profissional.

“Como trabalho em palco, devido à pandemia não temos tido shows. Fiquei desempregado, sem ter para onde ir e o que fazer para me distrair, mas graças a Deus, a situação já começou a melhorar e penso que em breve retomaremos o normal”.

“Sempre coloquei algumas interrogações sobre a existência da covid-19, mas desde que fui contaminado pelo vírus, não há ninguém que faça mais recomendações do que eu” diz Nana e explica que, felizmente, “a pandemia não lhe tem afetado muito a nível profissional, já que tem trabalhado como produtor e sempre têm aparecido pessoas para gravar”.

Em jeito de motivação, os irmãos deixam uma mensagem a todos que têm alguma limitação.

“Não te limites a ficar em casa, aproveita qualquer luz que aparece no horizonte e sai para explorar o mundo para fazer coisas que uma pessoa dita “normal” faz. Vais cair algumas vezes, mas o mais o importante é levantar”, diz o irmão mais novo.

“Vive a tua vida sem esperar por ninguém, porque se dependeres totalmente de uma pessoa vai chegar um dia que ela não vai lá estar e ficarás perdido”, acrescenta Nana.

Rosiane Sales/Estagiária

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