Nova Aurora, um álbum onde Cremilda Medina procura preservar a tradição com um toque da nova geração

Cremilda conta que com cerca de dois meses no mercado o segundo trabalho tem sido “recebido com muita alegria”.

Depois de Folclore, lançado em 2017, Cremilda Medina está na “estrada” a divulgar o mais recente trabalho Nova Aurora. Lançado há poucos meses, em maio deste ano, o CD traz 13 faixas, algumas das quais foram sendo lançadas antes do trabalho final. Em Cabo Verde, por ocasião de apresentação do Nova Aurora em Mindelo, Cremilda conversou com o Balai Cabo Verde.

“O feedback que tenho recebido é muito positivo, principalmente, sobre a minha evolução como artista e uma maior maturidade a nível de voz e a nível de produção do álbum”, diz Cremilda sobre o segundo trabalho musical que tem sido “recebido com muita alegria”.

Depois de ter apresentado o álbum em Portugal, foi a vez de São Vicente receber “Nova Aurora”, onde apresentou, a 10 de junho, o espetáculo a convite de um promotor privado que mostrou interesse em levar a apresentação para o Mansa Marina Hotel e que teve uma adesão em massa, afirma a artista.

São Vicente é um lugar especial onde comecei a dar os meus primeiros passos enquanto artista. A adesão foi em massa e o público cantou e dançou que é algo que caracteriza um bocado o povo de São Vicente”.

“(…) o Folclore foi apresentado primeiro na Praia e depois em São Vicente. Desta vez quisemos que São Vicente fosse primeiro e calhou que um privado mostrou interesse na compra da apresentação e acabámos por juntar o útil ao agradável (…)”. Para já a artista não avança datas para outros concertos em Cabo Verde, mas afiança que deverão acontecer ainda este ano.

Preservar a tradição com um toque da nova geração

O novo trabalho traz 13 faixas, todas elas de autores cabo-verdianos. Algumas destas músicas estavam na lista para entrar no primeiro trabalho, Folclore. “Uma seleção muito cuidada, algumas são memórias de infância”, diz.

Para a produção musical do disco foi escolhido o pianista Nando Andrade, ao qual se juntaram os músicos Armando Tito, que na opinião de Cremilda é o músico que segue a linha tradicional de forma mais fiel possível, e também Palinh Vieira e Nely Cruz. O trabalho contou com a participação de outros artistas, sendo que no geral a seleção de músicos para este trabalho também foi muito cuidada e contou com uma junção de nacionalidades e talentos, garante.

Se no primeiro álbum Folclore, Cremilda “quis preservar a essência da tradição de Cabo Verde”, neste segundo trabalho a cantora quis “ter a velha guarda juntamente com a nova geração de músicos” para mostrar que é possível “preservar a tradição, mas dando um toque da nova geração à música”. ” Por isso o título do álbum é sobre a Nova Aurora que canta a nossa tradição”, explica e acrescenta que o título não se deve ao tema homónimo, a faixa número 7, uma música de Waldemar Silva. “A Nova Aurora, a música, veio entrar depois que já tínhamos nome o que não foi o caso de Folclore em que tínhamos as músicas, mas não tínhamos o nome.

A intérprete explica ainda que começou a trabalhar no álbum há alguns anos e entrou em estúdio na altura da pandemia da covid-19 só que não fazia sentido produzir um álbum e depois não sair para o divulgar fora das plataformas digitais daí ter optado por lançar só quando houvesse a oportunidade de levar o álbum aos palcos.

“Gosto de concertos intimistas”, confessa Cremilda e explica que em 2020 chegou a fazer um concerto virtual no auditório municipal em Cinfães, em Portugal, onde já tinha feito a sua primeira apresentação com casa cheia em 2014, contudo afirma que não foi a mesma coisa. “Senti falta do público (…) foi nostálgico para mim”.

Este álbum teve uma tiragem inferior a mil exemplares, porque, segundo explica, a aposta no formato físico dos CDs é cada vez mais rara, mas há ainda uma faixa do público que ainda gosta de comprar o disco para ter em casa.

Sem especificar nomes, Cremilda Medina diz estar aberta a colaborações com artistas de géneros tradicionais cabo-verdianos.

Mais oportunidades para a música tradicional

Questionada se partilha da posição defendida pela colega artista Neuza de que é pre-ciso mais espaço para a música tradicional nos palcos dos festivais em Cabo Verde, Cremilda diz que há espaço e o que há é alguma “falta de interesse”. “Acho que não convém aos produtores dos eventos ter música tradicional“, afirma acrescentando que apesar de os produtores não serem obrigados a optar pelos géneros tradicionais, faz-lhe alguma confusão haver festivais nacionais onde não há géneros que identifiquem Cabo Verde. “Eu canto mornas e coladeiras e defendo esses géneros, mas também temos diversos estilos musicais. Temos muitos jovens cá que são competentes e capazes de subir ao palco e dar um bom concerto. Portanto, há falta de interesse e de oportunidade, porque espaço há“.

Entretanto, a artista salienta que é algo que já não acontece no Festival Baía das Gatas que considera ser um palco mais inclusivo por dar oportunidades a todos os géneros musicais. “Tens morna, coladeiras, música de Carnaval, funaná, kizomba, temos todos os estilos musicais no Festival Baía das Gatas”, explica a cantora que considera que outros festivais deviam seguir essa linha.

Já no que diz respeito a uma maior presença de artistas femininas nos festivais, também defendida por algumas colegas de profissão, Cremilda acredita que é algo que deve ser visto com os produtores, que à semelhança da música tradicional, são livres para optar por quem acharem melhor, mas existindo mulheres capazes de subir ao palco e de fazer um bom trabalho, é uma questão de lhes dar oportunidade, “que não é dada porque não lhes convém”.

Jenifer Solidade, Lucibela, Cremilda Medina, Fattu Djakité e Dieg

“Agora, não acho que se deve pôr mulheres a cantar só para que estejam em mesmo número que os homens, sabemos que há mulheres capazes de o fazer e precisam de oportunidades. Não podemos é pôr mulheres só para estarem em número idêntico aos homens (…) quem paga para ver os festivais quer ter qualidade e sabemos que em Cabo Verde temos qualidade”.

Atuações no exterior

Contente com a receção que tem tido no estrangeiro, nomeadamente em Portugal, a artista diz que não tem motivos para reclamar e grande parte das vezes tem tido casa cheia nos espetáculos, mesmo que o público não entenda uma boa parte das letras das músicas. “A música é universal e toca as pessoas e ter lá pessoas a cantar e a vibrar comigo deixa-me muito contente.”.

Apesar de cerca de 80 por cento do público ser português, Cremilda garante que a comunidade cabo-verdiana também faz questão de marcar presença. “Claro que sinto a diferença quando há cabo-verdianos, um crioulo deixa sempre a sua marca por onde passa (risos)“.

Depois de ter atuado a 7 de julho no 40.º Festival de Almada, em Portugal, Cremilda vai estar no norte português, em Valença, juntamente com Vitorino de Almeida e com a fadista Kátia Guerreiro, mais tarde em Vila Nova de Gaia, também em Portugal, e ainda no Luxemburgo, onde vai atuar pela primeira vez, bem como noutros palcos que vão estar disponíveis nas redes sociais da artista.

Dividindo a residência entre Portugal e Cabo Verde, Cremilda, que se dedica exclusivamente à música, explica que durante a divulgação do álbum é mais prático, a nível logístico, estar em Portugal para chegar a outros palcos. “Portugal é uma porta aberta ao mundo, para os artistas”.

A cantora assevera que tem sentido uma maior adesão das pessoas em Portugal à música de Cabo Verde, apesar de que comparativamente aos géneros mais tradicionais, a música mais comercial acabou por ter um “boom maior”. “Mas a música tradicional tem o seu lugar e o seu público também“.

Artigo atualizado em 12/07/2023

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