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Atriz, comediante, mãe, técnica de comunicação e dirigente de uma companhia de teatro parecem ser muitas funções para uma só pessoa. Essa é Sheila Martins que adora estar em palco a atuar e nos tempos livre veste a sua roupa mais bonita para colocar um sorriso no rosto das pessoas com as suas piadas no Facebook.
Em entrevista ao Balai, Simonica Martins Sanches, mais conhecida por Sheila Martins, 28 anos, almeja levar o teatro cabo-verdiano a patamares maiores para que mais pessoas possam encontrar nas artes cênicas uma forma de libertação e cura, semelhante ao que viveu. A atriz conta que já recebeu feedbacks de pessoas a falarem do quanto o teatro pode renovar as energias e trazer alegria. “O teatro é capaz de curar e libertar a alma”, ressalva.
Ela que sempre amou estar nos palcos a representar diversos personagens no teatro conta que mesmo quando esteve grávida, nos nove meses de gestação não parou de atuar. Estudava e atuava ao mesmo tempo, fazendo peças no evento universitário Fogueira e durante outros programas da universidade, na rua, tudo para não apagar o amor pela arte.
Considera que o talento para a arte herdou da família que explica que são “gaiatos” por natureza, e que desde criança foi ganhando o gosto pela arte. Mas só anos mais tarde é que começaria a usar o seu dom para o teatro quando numa aula de Formação Pessoal e Social, FPS, teve que apresentar um trabalho da disciplina acerca do tema: comportamento dos filhos em casa. Sheila deu uma ideia para que fizessem uma encenação e todos concordaram. Juntamente com os colegas preparam a peça e Sheila desempenhou o papel de mãe. A ideia acabou por ser muito apreciada pelos colegas de turma e pela professora, e naquele momento depois dos aplausos a adolescente Sheila percebeu que tinha de buscar meios para continuar a atuar. “Senti naquele dia algo diferente, como se o palco me pertencesse, senti-me bem em fazê-lo”, relembra.
A partir daquele dia começou a fazer o teatro e a se apaixonar cada vez mais pelo mundo das artes cênicas. Terminado o ensino secundário chegou o momento mais decisivo da vida de qualquer adolescente, que é a escolha da profissão e universidade. O sonho de estudar artes cênicas nos Estados Unidos foi interrompido pelo pai que não aprovou a ideia afirmando que a “arte não dá dinheiro” para viver.
Desapontada mas sem outra alternativa devido à falta de condições para se autossustentar e também com a falta dessa opção formativa em Cabo Verde, Sheila optou por estudar Jornalismo, um curso que uma prima estava a fazer e proposto pelo pai. “Eu nem gostava de Jornalismo, nunca foi uma paixão fazer esse curso”, recorda, adiantando que mesmo durante os tempos que cursava Ciências de Comunicação faltava as aulas para participar das aulas de teatro, já que a meio do curso recebeu uma bolsa de formação em Teatro. A formação era apresentada por Elisabeth Gonçalves, e ali teve a oportunidade de aprender técnicas de atuação e de melhorar nas encenações.
Outra rotina que também colaborou para o aperfeiçoamento da atuação foi o grupo de teatro “Fladu Fla” para o qual entrou em 2016 e do qual hoje é dirigente. Segundo a atriz, o grupo abriu-lhe os horizontes, permitindo que começasse a ver o teatro com outros olhos. “Antigamente fazia teatro sim, mas era naquelas brincadeiras, sem muita técnica. No grupo aprendi a ser uma atriz melhor”, afirma.
Liderar a companhia de teatro mais antiga da capital
Não só é atriz, Sheila passou a dirigir o grupo Fladu Fla, a companhia mais antiga de teatro da cidade da Praia, em 2021. Sheila explica que hesitou e no início não quis aceitar o desafio. Ao questionar a razão que levou a direção a escolhe-la como uma das fortes candidatas à direção responderam que tinham visto o trabalho que fez durante a pandemia no TreArti (Teatro do Atlântico), tornando-se em “um marco histórico para o grupo”.
No entanto, acredita que ainda não conseguiu levar o teatro para o patamar que ambiciona. Em termos comparativos, Sheila vê o teatro na ilha de São Vicente um pouco mais desenvolvido do que na capital e exemplifica que “quando um ator de lá vai fazer uma peça, leva a família e conhecidos para assistirem”, o que é diferente da Praia que o público prefere assistir comédia.
Sheila considera que tem havido uma mudança dessa realidade aos poucos com mais pessoas a assistirem novos géneros como drama e tragédia. Por isso o grupo Fladu Fla tem apostado em outros géneros para captar a atenção dos cabo-verdianos, como por exemplo as peças “Fitisera di Lingua” (drama) e “Chiquinho” que é a adaptação de um clássico da literatura cabo-verdiana escrito por Baltasar Lopes da Silva.
Inclusive, foi durante a apresentação da peça “Chiquinho” que Sheila Martins interpretou um dos personagens mais difíceis de toda a carreira. O livro é dividido em três partes, na segunda parte do romance Chiquinho viaja para Mindelo e onde conhece Andrezinho e a irmã Nuninha por quem se apaixona. A atriz teve um período difícil para se adaptar à personagem porque “teve de ir buscar uma Nuninha que não era”, confessou. Para solucionar este problema Sheila foi observando à sua volta e reconhecendo pessoas que tinham as mesmas características que a personagem para ter como inspiração. Recorda este momento como um grande desafio da carreira, mas hoje garante que está pronta para novos desafios. Na peça Sheila interpretou outros dois papéis, o de Mamãe Velha e mamãe.
Nas vésperas da apresentação teve preocupações com o vestuário, tinha receio de não conseguir trocar de roupa a tempo, terminava um personagem e corria para vestir o outro. Quando chegava no camarim, a correr, encontrava os colegas com roupas na mão e colocavam a saia, blusa e de novo corria para o palco. “A arte é um trabalho de equipa, é união”.
Formação artística nas escolas e universidades
Enquanto líder do grupo Fladu Fla a jovem tem grandes ambições para o teatro cabo-verdiano. A primeira meta é levar o teatro para as escolas porque acredita que outros adolescentes e jovens podem passar a apreciar mais as artes cênicas se tiverem contato com este mundo desde cedo. “Sou a favor de lecionarem uma disciplina de teatro ou artes cênicas nas escolas”, sublinha.
A atriz destaca também que um curso virado para a arte seria benéfico para os artistas cabo-verdianos. Reconhece que a falta de uma oferta formativa favorece a escolha de outros cursos que fogem à paixão, por isso acredita que uma aposta do Governo numa universidade ligada às artes cênicas traria enormes benefícios para a cultura.
Um outro desejo é fazer o teatro comunitário, uma iniciativa que manifestou outras vezes em entrevista. A ideia é visitar zonas distantes de Cabo Verde e proporcionar um dia de teatro com apresentações, caça talentos e outras atividades aos moradores da localidade.
Todo ator tem um personagem que prefere interpretar e no caso de Sheila não é diferente. O seu papel predileto é o de mãe. Inspira-se na sua avó que a atriz considera a sua maior “inspiração e a maior referência da mulher cabo-verdiana” com as saias largas e compridas e o lenço na cabeça. Não só traz o vestuário, mas gestos e hábitos como fumar tabaco, as suas reações e principalmente os conselhos.
Sheila, a Gaiatisa do Facebook
Conselhos como manter a tradição e cultura viva e não caírem no esquecimento, que a atriz passa através da sua página de Facebook, de nome “Gaiatisa”. A ideia de criar a página veio do irmão Oracy Cruz, que tem um canal no Youtube e onde atualmente fazem vídeos juntos, durante a pandemia já que se viram impossibilitados de se apresentar nos palcos. No início, a comediante não quis seguir a ideia, mas devido à insistência do irmão aceitou a ideia. Ao postar um vídeo foi inundada de comentários positivos que a incentivaram a continuar com a ideia. A ocasião foi ótima porque as pessoas que não podiam sair de casa e pelo menos tinham algo para se divertirem. “O teatro curou-me e hoje estou a ajudar outras pessoas a serem felizes também”, afirma com satisfação.
Os temas apresentados variam, podem ser situações vividas pela atriz ou por conhecidos. Por exemplo o vídeo, de uma mulher que serve de fiador para outra e depois a pessoa foge e não paga a dívida. Sheila contou que teve o cuidado de ir até ao banco para perguntar como funciona o processo. Explica que mesmo no teatro para criar as histórias é sempre preciso fazer uma investigação prévia, o que se assemelha ao trabalho do jornalista. Por isso vê as duas áreas interligadas. “O Jornalismo é também um ato de contar histórias, mas de uma forma diferente”, frisa.
Segundo a atriz, o teatro tem enormes gastos nomeadamente com a iluminação, figurinos, som e palco e que às vezes dificulta as companhias de apresentarem ao público peças com mais frequência. No entanto, afirma que os apoios por parte das autoridades têm aumentado e que tem havido um investimento cada vez maior na arte.
“Antes dávamos entrada livre para as pessoas assistirem, hoje desde que se faça antes numa boa divulgação, consegue-se mobilizar pessoas”, aponta a atriz. Revela que o seu maior sonho é ver os atores a viver inteiramente da arte para que possam dedicar-se completamente à sua paixão. “O meu maior sonho é ter um salário fixo para os atores”, afirma, acrescentando que um “djunta-mon” pode ajudar a fixar um salário para os atores cabo-verdianos.
Para este ano, a líder do grupo Fladu Fla ambiciona pisar tanto os palcos nacionais e internacionais e revela que dois atores da companhia vão fazer parte de uma residência artística em Portugal, entre os meses de agosto e outubro. Paralelamente, adianta que o grupo já tem um guião pronto para uma adaptação da obra “Contra Mar e Vento” e que ambicionam apresentá-la ainda neste ano.
Ainda em comemoração ao mês do teatro, vai ser apresentada a peça “Fitisera di Lingua”, um drama e comédia clássica nos dias 29 e 31 de março. A peça aborda as brigas de uma comunidade rural em busca da sua afirmação como cidade.
Celine Salvador / estagiária

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