
- PUB

A fantasia e os adereços carnavalescos são peças fundamentais para as Rainhas de Bateria. Muitas optam por comprar as peças fora do país, principalmente no Brasil, mas Leidy Silveira, que está no comando da bateria do Flores do Mindelo desde 2024, defende que é preciso valorizar o talento dos artistas nacionais.
“Desde o ano passado que a minha roupa é confecionada em São Vicente e a um preço bastante barato. (…) Não julgo quem compra os trajes no Brasil, mas precisamos repensar porque temos artistas bastante competentes e criativos em Cabo Verde”, avança, acrescentado que o grupo a tem apoiado com os materiais. “O traje já está pronto, faltam apenas alguns detalhes, e custou menos de 100 contos”, avança a sambista de Cruz João Évora.
O amor de Leidy pela festa do Rei Momo é umbilical quase, já que a mãe, mesmo grávida, frequentava os bailes de Carnaval que aconteciam depois dos ensaios dos grupos.
“Costumo brincar e digo que o meu gosto pelo Carnaval vem desde a barriga da minha mãe, que sempre amou esta festa.(…) Embora nunca tenha desfilado, ela sonha um dia entrar na Avenida como baiana.”
Antes do título de Rainha de Bateria, a mindelense de 31 anos desfilou como dama e passista em outros grupos e, segundo diz, foram boas experiências. “Já sair como Rainha de Bateria é uma enorme emoção. Senti uma diferença enorme.”
O convite para ocupar o cargo surgiu de forma inesperada em novembro de 2023, enquanto se preparava para ser passista do grupo Samba Tropical. “Não estava à espera, mas agarrei a oportunidade com unhas e dentes. Foi um sonho realizado.”
A estreia, segundo diz, foi emocionante. “O meu desfile correu lindamente do início ao fim. Muitas pessoas disseram que, mesmo sendo a minha primeira vez, eu estava no mesmo nível que as veteranas. (..) Fiquei emocionada porque sempre sonhei com esse momento”, recorda, acrescentando que este ano está mais tranquila e vai levar alegria, samba no pé e muita diversão para a Rua de Lisboa.
Desfilar como Rainha de Bateria não é fácil. “O trajeto da Rua de Lisboa é longo e exige muito preparo físico”. Para se preparar, Leidy treina no ginásio cinco vezes por semana, tendo reduzido para três devido à intensificação dos ensaios. Mantém uma alimentação equilibrada e evita frituras e álcool, e o sono é fundamental. “Também cuido do meu bem-estar físico e mental.”
“No ano passado, na minha estreia como Rainha de Bateria, senti muita pressão, mas agora, já conheço o trajeto e sei o que está à minha espera. Estou um pouco ansiosa, mas mais tranquila do que a edição anterior.”
Em 2024, a Liga Independente dos Grupos Oficiais do Carnaval de São Vicente (LIGOC SV) atribuiu o prémio de Melhor Rainha de Bateria às quatro concorrentes, uma decisão que gerou críticas. “Fiquei chocada e passei cerca de uma semana em casa a processar o que tinha acontecido. (…)Como pode haver um empate entre quatro candidatas com trajes e sambas diferentes?”, questiona. “Espero que este ano haja uma avaliação mais justa”, salienta, acrescentando que no final todas acabaram por receber 130 contos cada.
Questionada sobre até quando pretende continuar a sambar, Leidy responde: “Enquanto estiver com vida, saúde e energia. (…) Quero explorar outras áreas como Porta-bandeira, para ganhar mais experiência no Carnaval.”
No que tange à evolução da festa do Rei Momo na ilha do Monte Cara, a Rainha de Bateria do Flores do Mindelo elogia a organização, a iluminação e a mudança do desfile para a noite. No entanto critica o aumento excessivo dos lugares pagos, o que dificulta o acesso de pessoas que não têm condições financeiras para custear os bilhetes. “Estão a comercializar a festa e está a perder a sua essência. O Carnaval é do povo”, defende.
Em relação ao Flores do Mindelo, que terminou em último lugar no desfile de 2024, acredita que a colocação foi injusta. “O nosso grupo estava lindo e organizado. Este ano, vamos com mais garra ainda para mostrar a força e o talento do grupo”, avança, acrescentando que, mesmo com muitas dificuldades, o Flores do Mindelo é um grupo que nunca deixou de participar nos desfiles da ilha.
Com mais de quatro décadas de existência, o Flores do Mindelo vai desfilar com o enredo “Um sonho, um desejo, uma viagem de África para a Amazónia” e ao som da música “Destin Trassod” de Gai Dias. O grupo, que foi o quarto classificado no Carnaval de 2024, é o segundo a desfilar na Rua de Lisboa, com uma comissão de frente, três carros alegóricos, um tripé, oito alas e cerca de 700 foliões. Ineida Fortes é a Porta-bandeira e David Morais estreia como Mestre-sala.