Ritmos nacionais e estreia de três artistas marcam encerramento da 31.ª edição do Gamboa 

A abertura do certame ficou a cargo do artista RAHIZ que fez a sua estreia no festival após 20 anos de carreira e terminou ao ritmo do Kotxi Pó do Bedja KP.

Com uma hora de atraso, mas com a casa cheia, o último dia do festival terminou por volta das 7h30 da manhã. A segunda noite da 31.ª edição do festival da Gamboa ficou marcada pelos ritmos nacionais e pelas estreias dos artistas Miguel KR, RAHIZ e Bedja KP, no certame que contou também com o regresso de Neyna, Apollo G e Rods Wires, pelo segundo ano consecutivo, e a presença ainda dos artistas Mário Lúcio, Eneida Marta e Garry.

Após 20 anos de carreira, RAHIZ estreia-se no festival da Gamboa

Com o relógio a bater 23h00 e com um areal bem composto, o artista RAHIZ (Celso Opp) pisou o palco do Gamboa pela primeira vez, interpretando cerca de seis temas. Encerrou a sua atuação com o cover da música “4 Kampé”, que faz parte do novo projeto de coveres musicais.

Em entrevista, após o show, mostrou-se satisfeito e também elogiou a banda que o acompanhou composta por artistas mais jovens, também pela escassez de tempo de preparação do show. O artista afirmou que a abertura correu bem, mas reconheceu que fazer a abertura do festival não é fácil sendo o público cabo-verdiano complicado. “Deus é humorista”, afirmou o artista ao explicar que depois de 20 anos de andar a divulgar Cabo Verde e de um catálogo musical extenso não foram as músicas de Cabo Verde mas os covers que foram um impulso recente na carreira.

Mário Lúcio, apela por mais união entre gerações nos festivais

No relógio já passava das 00h00 quando o veterano Mário Lúcio subiu ao palco acompanhado pela banda, seu violão e bailarinos, para trazer os ritmos do mais recente trabalho musical, “Independance”, ao palco do festival da Gamboa.

Durante a sua atuação interpretou mais de oito músicas, entre os quais: Tema di Minis, Ami Xintado, Ilha de Santiago, com público a entoar as músicas de início ao fim.

Em declarações à imprensa, após o show ao lado do artista Mito Kaskas, foi lhe questionado sobre a diferença dos géneros musicais entre ambos, e avançou que Mito Kaskas sempre lhe disse que era fã do seu trabalho, e que com isso tem que ouvir as músicas da nova geração para aprender com eles e acompanhar a atualidade musical. Apelou a organização para investir mais em juntar a geração antiga e a de agora nos festivais.

“Foi muito bom trazer o meu novo projeto “Independance” para Gamboa, apesar de antes de subir ao palco estava um pouco nervoso se ia conseguir conquistar o público da nova geração com o meu estilo musical. Acredito que as gerações crescem e ao mesmo tempo consomem os ritmos atuais, mas não esquecem das músicas antigas que ouviam e que sempre trazem uma nostalgia boa”, adiantou o mesmo.

Considera que este álbum é mais fácil de ouvir e dançar. “A maioria estavam serenos a ouvir e apreciar as letras de cada música. Esta atuação foi um bom sinal, nós trabalhamos para eles e a única função deles é vir assistir-nos e hoje foi tudo recíproco. Adorei a minha atuação, o próprio me surpreendeu, eles são heterogêneos conseguem tirar mil gostos diferentes de cada um”.

Eneida Marta pede união entre Guiné-Bissau e Cabo Verde

Por volta da uma da manhã foi a vez de Eneida Marta entrar em palco depois de 20 anos. A artista, que é filha do falecido músico cabo-verdiano Maiuka Marta, trouxe uma mensagem simbólica a propósito da Independência de dois países irmãos, Guiné-Bissau e Cabo Verde.

Cantando em crioulo da Guiné, mas também de Cabo Verde, Eneida acabou por conquistar a plateia com a sua música, dança e assobios vigorosos.

No final, a cantora fez uma vénia ao público e dedicou um tema à reconciliação da sua terra onde “os políticos dividiram o povo”. Em declarações aos jornalistas, Eneida enalteceu a presença no evento no âmbito dos 50 anos de Independência. “Foi muito especial por ser por ocasião dos 50 anos de Independência de Cabo Verde, para mim foi muito importante fazer parte do Gamboa este ano”, afirmou e prometeu não ficar 20 anos sem voltar ao festival. Quanto ao público, a artista afirmou que apesar da timidez inicial, foi fantástico.

“Cabral já dizia: Guiné e Cabo Verde dois corpos, um coração”, disse Eneida Marta e deixou uma mensagem de união, pedindo às pessoas para colocarem a mão na consciência. “Há pessoas que morreram, que ficaram feridas, para nos darem a liberdade. Então, peço união, não só entre o povo de Cabo Verde e povo da Guiné-Bissau, mas para sermos um só como era desejo de Cabral”.

Neyna regressa ao festival e “esta atuação foi totalmente diferente do ano passado”

Pelo segundo ano consecutivo a cantora Neyna sobe ao palco da Gamboa. Na mesma linha de 2024, a jovem conseguiu fazer o público dançar com o seu gingado e melodias.

Durante a sua atuação interpretou alguns temas nos quais colabora com artistas nacionais e internacionais, entre as quais “Kannot Compare” com o angolano Florito, “Bu Ka Speraba” com o Djodje, “Preta” com a cantora guineense Yasmin, entre outros. Para além destas músicas, a cantora atuou com alguns singles a solo, como “Nha Mos”, “Menino Veneno”, entre outros.

“Esta atuação foi totalmente diferente do ano passado”, disse Neyna aos jornalistas após o show. “Este ano estava presente um público mais jovem e com muita energia. Antes de subir ao palco estava muito nervosa, mas o público recebeu-me com uma ótima energia, e espero que continue a receber este amor”, adiantou a artista que subiu ao palco por volta das duas da manhã e encerrou o show na companhia do MC Acondize a cantar o tema “Nu Ka Sa Para”.

A cantora tem estado em alta com lançamento de alguns singles e parcerias nacionais e internacionais. A mesma está nomeada pelo segundo ano consecutivo em duas categorias nos CVMA, entre as quais, na categoria Música Popular que conquistou o prémio no ano passado.

Em relação às nomeações avançou que ainda não tem uma expectativa porque tudo está a depender do voto público. “Receber novamente a notícia que estou nomeada nas categorias dos CVMA foi incrível, só por estar nomeada já é um prémio grande e estou muito feliz.”

Ainda revelou que tem um projeto em andamento que vai contar com a participação da cantora Paulinha. Segundo a mesma, o novo trabalho vai ser lançado no verão deste ano, e se trata de um género virado para a Kizomba que narra um amor tóxico.

Já passavam das 3h30 da madrugada quando Apollo G subiu ao palco, onde esteve no ano passado com a cantora Soraia Ramos. Acompanhado da banda e de um grupo de dançarinos, Apollo G encontrou um areal repleto de gente que cantavam as suas músicas.

O rapper trouxe temas mais antigos como “Si ki Sta”, mas também do novo EP “Força, Fé e Foco”. Perto do final da sua atuação, o rapper Loose Jr juntou-se ao Apollo G em palco para interpretarem o tema “Lado a Lado”.

No final, o artista atendeu os fãs que esperavam ansiosos, mas não prestou declarações à imprensa alegando motivos de saúde.

Garry encanta público com melodias do novo álbum “100% MI”

Após a atuação do rapper, foi a vez do homem mais romântico da noite voltar ao Gamboa, Garry que trouxe canções do novo álbum “100 % Mi”. Por volta das 5 horas de amanhã, o cantor encantou o público e fê-lo cantar do começo ao fim todas as suas melodias.

Desabafou com o público que se encontra doente, mas que para os seus fãs faz de tudo para entregar-lhes 100% de si. “O show foi espetacular, estou muito contente de apresentar o meu álbum 100% MI neste palco. Foi gratificante, e o público correspondeu do começo ao fim, o objetivo foi cumprido e agradeço a todos que estiveram envolvidos para eu estar mais uma vez neste festival”.

Considerou ainda que a vibração do público com este novo projeto foi “sensacional” e se sente grato pelo reconhecimento. “Com todo o gosto retribuio o carinho que recebo do meu público porque eles são a minha inspiração”.

Pouco para terminar a sua atuação, o cantor convidou a rapper Indira para interpretarem o recente trabalho “Nka ta Skeceu”.

De seguida, subiu ao palco Rods Wires com os bailarinos para uma apresentação do show Matagal. Com um show diferenciado do que os que já tinham passado nesta noite, o artista conseguiu fazer o público tirar os pés do chão entregando muita energia, euforia e gingados diferenciados.

Durante a entrevista avançou que a sua atuação este ano foi melhor do que o ano passado e justificou que no ano transato teve problemas no som o que dificultou a atuação. O mesmo revelou que brevemente vai lançar mais um single que faz parte do projeto Matagal.

Miguel KR estreia-se no Gamboa e incentiva nova geração a lutar por um espaço

Com o sol a raiar, o rapper Miguel KR estreou-se no palco do último dia do certame. A primeira vez a pisar o palco do festival mostrou-se satisfeito com a sua atuação.

“Senti que o público esteve comigo mesmo que fui nomeado um dia antes para o arranque do festival. Apesar de ter tido boa recepção do público é sempre bom fazer mais para os que acompanham o meu trabalho. Atualmente estou com novo projeto que vai ser lançado em junho deste ano. No palco apresentei um pouco os singles que fazem parte deste projeto”, avançou o artista durante a conferência de imprensa, após a sua atuação.

“Pisar o palco da Gamboa é um sonho para o artista”, e deixou uma mensagem para a nova geração para se manterem fortes, e que “continuem a trabalhar e a sonhar porque nada é impossível, e que algum dia vão conquistar um espaço neste festival”, avançou, acrescentando que hoje vai levar para casa muito aprendizado e melhorias nas próximas atuações.

O encerramento da 31.ª edição do festival ficou a cargo do artista Bedja KP ao ritmo do som tradicional “kotxi pó” que levou o público ao delírio, inclusive houve pessoas que começaram a atirar terra para o ar.

No final, o artista mostrou-se satisfeito com a sua estreia e diz que não estava à espera deste acolhimento, superou as suas expectativas e espera voltar mais vezes.

O evento contou com a apresentação do DJ Pensador e da Sannah e a animação ficou a cargo dos DJ Streladuh e Edy.

Pela segunda noite consecutiva várias entidades ressaltaram o ambiente civilizado que reinou no festival que teve o seu melhor dia de afluência no sábado, tendo a Polícia Nacional registado apenas uma ocorrência criminal.

Cidália Semedo – Jornalista Estagiária c/ Cristina Morais 

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