Sigui Sabura, o grupo que internacionalizou o negócio das festas e eventos em Cabo Verde

Sigui Sabura, o grupo que internacionalizou o negócio das festas e eventos em Cabo Verde

Há 10 anos na cidade da Praia foram lançadas as bases do que viria a ser atualmente um dos maiores promotores de eventos e festas do país. Anualmente, realizam mais de uma dezena de eventos nacionais e alguns já de dimensão internacional. Nos últimos cinco anos, os Sigui Sabura fazem uma das festas mais procuradas da capital - a festa de Réveillon Aloha.

Sócrates (Suca) Carvalho, Anton (Banzi) Pires e Osvaldo Teixeira são o trio por detrás do grupo de eventos Sigui Sabura, um nome que encaixou e surgiu a partir do termo em inglês “Follow” (seguir) e sabura, “a palavra que, a seguir à Morabeza, melhor caracteriza o espírito de Cabo Verde”, segundo explicam em entrevista. Recordam que se juntaram a partir de uma parceria entre dois grupos em 2012, quando perceberam que os três juntos tiveram um encaixe automático e decidiram “dar uma viragem geral no que era fazer eventos em Cabo Verde”.

No ano seguinte oficializaram a empresa. “Tivemos de investir capital próprio, saímos do informal para o formal e tínhamos de ter um controlo financeiro, dentro de uma área que em Cabo Verde não era considerada um negócio (…) Foram anos de trabalho para que as pessoas começassem a perceber que éramos mais do que rapazes a fazer festas, mas sim uma empresa que cria oportunidades de negócio, que movimenta a economia na nossa cidade e em Cabo Verde”.

Cada um tem a sua área de expertise, mas salientam que se complementam nas tarefas do dia-a-dia: Suca ocupa-se mais das Relações Públicas, a criatividade é ponto forte do Banzi e o Osvaldo é o homem da logística. “Somos um mocho de três pés”, explica Banzi entre risos.

“Não é fácil. Há desafios todos os dias, tivemos a iniciativa de criar um produto, implementar o negócio no mercado, torná-lo sustentável (…)”, diz Osvaldo e cita o exemplo da lei da poluição sonora que limita a atividade dos promotores de eventos, mas por outro lado não existem alternativas de espaços, por isso lança um desafio às autoridades: criar áreas próprias para eventos. “Queremos trabalhar em conformidade, mas as entidades têm que ver tudo o que geramos à volta do mercado (…) Quais as mais-valias que são dadas aos promotores de eventos no mercado?

2013, o ano de viragem

Têm consciência de que o ponto de viragem se deu após o Halloween de 2013, onde no dia do evento tiveram o gerador elétrico sabotado, alegam. “Adiámos o evento que depois foi completamente ‘sold out’ (esgotado). Percebemos que tínhamos criado e solidificado uma marca e que tinha pernas para andar”.

Apesar da solidificação do grupo ter acontecido nessa altura, Banzi acredita que “até hoje continuam a explicar o que é esta área” e acrescenta que surpreendentemente sentem que têm uma valorização lá fora superior à local.

E a internacionalização do negócio aconteceu em 2016 e anualmente têm uma agenda de eventos tanto fora como dentro país. “Não nos vejo só como empresa. É como se fossemos uma banda (…) que não tem instrumentos, mas que leva entretenimento (às pessoas)”. Daí que a sua presença nos locais é sinónimo de festa, diz a mesma fonte.

Uma das suas festas mais populares é o ‘I Love’, conceito que ganhou uma dimensão nacional em finais de 2013, com a primeira edição em São Vicente, e que teve um impacto maior através das redes sociais, nomeadamente do Facebook. Aos poucos, conseguiram levar este conceito a todas as ilhas através de parcerias locais.

Banzi argumenta que o conceito foi rapidamente abraçado pelo público, inclusive por artistas de origem cabo-verdiana, quer no país, quer na 13ª ilha, a diáspora, porque evoca um sentimento de pertença. A primeira versão do ‘I Love’ aconteceu em 2012, mas o registo como marca só foi formalizado em 2015.

A nível de outras inovações, Osvaldo explica que passaram a dar oportunidade aos DJ e artistas locais como cabeças-de-cartaz dos seus eventos. É o caso do DJ Hebraico que se tornou da família e que agora tem uma carreira internacional e reside na Europa.

Dar oportunidade a artistas da música eletrónica em eventos como o festival Escape, por exemplo, é apontada como outra inovação do grupo. “Criamos uma plataforma para este género de artistas. Era um segmento que não tinha muitas oportunidades, falo também como DJ. Acho que foi estratégico e também é mais fácil tecnicamente fazer produções com DJ”, diz Banzi e acrescenta que esta aposta motivou os artistas que atuam dentro deste género.

Para Suca, outro fator diferenciador foi a introdução da venda antecipada de bilhetes a um preço promocional que aconteceu pela primeira vez no festival Escape em 2014.

Aloha, um evento de topo

Em 2018, surgia a primeira edição do Aloha, uma festa de réveillon à beira-mar com um dress code imperativamente branco.

“O Aloha que temos hoje é um produto que passou por vários testes”, explica Banzi. Ao contrário do “I Love”, esta festa só acontece na capital, mas não está excluída a hipótese de levar o conceito para São Vicente, por exemplo. “É algo que está em construção, mas que derivado aos custos e à logística requer um trabalho muito aprofundado”, diz por sua vez o responsável das Relações Públicas.

Com os bilhetes a serem vendidos a um preço impeditivo para a maioria da população – 12 mil escudos (primeiro lote desta edição), os promotores esclarecem que, a nível de custos, este é o evento mais dispendioso do grupo. Cada festa destas envolve mais de 100 prestadores de serviços, entre profissionais da área de segurança, logística, som, bar, limpeza, cozinha para garantir a um total de 800 convidados um evento de topo com bar e serviço de refeições a funcionar nonstop durante toda a festa.

 

Só a nível de pagamento de direitos de autor e conexos, este ano o grupo  deverá pagar um montante a rondar os 400 contos, explicam.

Segundo Suca, a edição anterior teve um custo aproximado de 8 contos por pessoa para um evento de um dia e este ano o preço sofreu alterações devido à inflação. “Só em comida são 4 contos por pessoa, no mínimo”, diz. “Só em copos ( reutilizáveis) são 700 contos (no total)”, explica por sua vez o responsável da logística e responde ao facto de ser uma festa de um dia: “Dentro da cidade torna-se complicado fazer duas noites”.

Mais à frente, os promotores explicam que este Reveillon já ganhou uma dimensão internacional e que a ideia é apostar cada vez mais neste formato.

Através da venda online deste ano conseguiram localizar que o acesso ao site de venda de bilhetes para o Aloha veio de 33 países diferentes. “Numa hora tivemos 9 mil acessos e em 24 horas tivemos 24 mil acessos de pessoas que estavam a tentar comprar os bilhetes. Os bilhetes (do primeiro lote) esgotaram em 5 minutos”, afirma Suca.

Impacto da Covid-19

Depois de um ano positivo, a nível de receitas, a pandemia da covid-19 veio interromper por completo o setor da cultura e dos eventos. “Foi difícil. Estávamos a terminar um ano bom, conseguimos aguentar durante alguns meses, mas o problema é que não tínhamos previsão de quando voltávamos (ao ativo). Arrebentou com toda a logística financeira”, explica Suca e esclarece que o grupo não aderiu ao lay-off mas conseguiu pagar os salários dos seis funcionários, mas abdicaram dos sócios.

Apesar das tentativas, a retoma só aconteceu em finais de 2021, até essa altura só foi possível realizar eventos pontuais. Os prejuízos foram muitos, dizem, mas a pandemia serviu também de aprendizado. “Foi muito difícil só mesmo com muita força de vontade e acreditando um no outro é que temos a nossa empresa de pé”, confessa Osvaldo e Suca complementa que nunca pensaram em desistir.

Foram um dos promotores da APECV, Associação de Promotores de Eventos de Cabo Verde, em 2020, que é presidida pelo produtor Mário “Russo” Bettencourt e conta com cerca de 50 membros. A associação ainda existe, mas Suca salienta que é preciso a vontade de todos para que funcione efetivamente.

“Com a criação da APECV, vimos que o Sigui Sabura tem um posicionamento único”, explica Banzi por realizarem eventos, a nível dos vários serviços, do início ao fim, enquanto que a maioria dos outros promotores estão divididos por setor: só palco, só som, só produção, além do SS realizar eventos em todas as ilhas.

Defendem que o mercado tem de ser repensado e melhorado, a necessidade de uma maior fiscalização do setor dos eventos que é uma área que dá benefícios financeiros ao país. “Como disse o Oswaldo pagamos encargos fiscais em todos os eventos, não fugimos a isso (…) Como somos uma referência, estamos no spotlight (em destaque), por isso, de certa forma, sentimos que somos um pouco lesados”, lamenta Banzi e cita que a nível de policiamento, por exemplo, recentemente houve um festival que aconteceu no mesmo local onde eles são obrigados a investir 400 contos só em segurança, mas ele “não viu polícia nesse evento”.

Mostram-se cansados com os diferentes procedimentos em diferentes instituições que implicam uma logística e licenciamento diferente a cada ano. “Não há uma linha, um padrão (…) um ano é assim, noutro ano é diferente”, explica Suca e acrescenta que não há uma comunicação prévia. Citam o exemplo de uma edição do Aloha no verão que a menos de 48 horas do evento teve o pedido de licenciamento indeferido. “As instituições têm que ver que é um negócio porque quando temos prejuízos ninguém quer saber”.

Banzi vai na mesma linha e defende que num país de turismo e de música os empresários locais da área de entretenimento deveriam ter alguma proteção por parte do Estado com a criação de mecanismos institucionais para a promoção desta área. “Vemos, claramente, que a dinâmica que a Praia tem com os eventos em relação a outras cidades onde não players como na Praia”.

Concorda que a APECV poderia ter um papel mais ativo neste quesito mas está consciente que muitos promotores de eventos trabalham e dependem do setor público, nomeadamente dos festivais.

Eventos 360 graus

Uma das inovações que ambicionam trazer para o mercado é realizar eventos 360 graus, segundo explica Suca. Implicaria vender pacotes para a diáspora e para o mercado internacional que incluíssem voo, alojamento e acesso a todas as festas do grupo em dezembro, tudo incluído, um plano que vai implicar envolver os operadores turísticos e aéreos.

“Principalmente depois deste ano, (vimos que) o Aloha é um evento internacional porque traz pessoas de diferentes países”.

Ter uma app própria para venda de bilhetes é uma ambição antiga que não ainda foi operacionalizada tendo em conta que esta não é a sua área de expertise e exige muita burocracia, “até porque foram dos primeiros a vender bilhetes online (através de parceiros) no festival de Escape em 2015”, argumenta o responsável pelas RP.

Mudar-se para “o quartel general”, o espaço Warehouse na entrada do bairro do Palmarejo, também está nos planos do grupo.

“A alegria e a satisfação dos clientes depois de cada evento” é das coisas que mais lhes dá motivação, diz Suca.

“Acreditamos que Cabo Verde merece eventos de qualidade (…) Sentimos satisfação por estarmos a contribuir para a movimentação da economia (da cidade e do país)”.

Banzi defende que esta é uma área estratégica para Cabo Verde, que tem um potencial único, pela forma como o arquipélago se posiciona no mundo, mas há que ser mais profissional, criar experiências e o promotor defende que o grupo está bem posicionado para contribuir para tal “ao longo dos próximos 10 anos”.

Já Osvaldo diz que o que o move é o querer ver acontecer, o pensar no passo seguinte para trazer a cada dia mais inovações para este mercado que é um pouco deficitário, seja a nível de transportes seja a nível das entidades que podem ser mais abertas na resolução de problemas.

10 anos em números

Mais de 100 mil pessoas, a nível de clientes, sete países que já receberam eventos do grupo, quase 39 mil seguidores no Instagram e quase 46 mil no Facebook, mais de 30 temas originais de festas, como Halloween, I Love, Escape, CV Color Festival (parceria), uma média de 12 eventos anuais a nível da cidade da Praia, 14 a 15 eventos a nível nacional e, em média, cinco na diáspora, perfazem quase um leque de 30 eventos anuais.

A nível de exemplo, dizem que um evento de grande dimensão, como o I love, movimenta mais de 300 como prestadores de serviços, por noite.

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