‘Sobreviventes’ da I edição do Baía das Gatas continuam a acampar na praia pelo convívio

Piki e Futre, ou José Firmino, 52 anos, e Artur Rodrigues, 51, respetivamente, são amigos de infância que todos os anos, desde 1984, religiosamente, tomam o caminho da Baía das Gatas, em época de festival.

Não vão à procura da música, até porque, às vezes, nem do cartaz tomam conhecimento, mas sim do convívio, do reforço da amizade, do contacto com a natureza e, por que não, como assinalou Futre, professor do ensino secundário, para relaxe “puro e duro”.

A Inforpress foi encontrá-los na manhã de terça-feira, 09, no areal da Baía das Gatas, no espaço frontal das duas tendas que ali instalaram, com a frigideira de cachupa guisada que, às vezes, iam degustando, a colheradas. Era o momento do pequeno almoço, antecedido de um banho de mar.

No início, por ocasião do primeiro Festival da Baía das Gatas, em Agosto de 1984, como contou Piki, treinador de futebol, não era assim. O grupo de amigos do Alto Mira-Mar e zonas limítrofes chegava facilmente aos 20 elementos, “sem contar com aqueles que apareciam apenas nos três dias de música”.

“Sempre fomos os primeiros a chegar para montar as tendas, geralmente na segunda-feira que antecede o fim-de-semana do festival, e os últimos a deixar o areal, na quarta-feira, o mais tardar, após o domingo do festival”, lembrou Piki, um dos sobreviventes, que nunca falhou o acampamento, ao passo que Futre, devido aos estudos no estrangeiro, ausentou-se por dois anos.

Futre entra na conversa para lembrar que “naquele tempo” as tendas eram feitas pelos próprios, de sacos, e que era necessário trazer tudo da cidade, desde água, alimentos, material de higiene e utensílios de cozinha.

Hoje, continua, as tendas são modernas, vêm do estrangeiro, e já não é necessário trazer tudo da cidade, pois a Baía das Gatas já tem lojas e mercearias em que se pode fornecer desde bebidas, a produtos de higiene e géneros alimentares.

Por isso, se antes cada um quotizava 500 escudos, nos primeiros anos, mil a dois mil, nos seguintes, para partilhar despesas com transporte e compras na cidade, e porque agora são apenas dois e Baía das Gatas oferece outras condições, hoje trazem o essencial de casa e algum dinheiro para “pequenos extras”.

Nas tarefas diárias é tipo “os dois fazem tudo”, cozinham, lavam os pratos, cuidam do saneamento da área e arrumam as tendas, até porque a qualquer momento pode chegar visita de amigos que aparecem sem avisar.

“À noite acendemos a grelha e há sempre amigos que vêm nos visitar, sem contar com aqueles que fazem parte do ‘condomínio’ aqui mesmo ao lado”, lançou Piki, numa alusão a uma família, também da primeira hora, que montou quatro tendas mesmo ao lado, daí a alusão a ‘condomínio’.

Mas, vão avisando, até sexta-feira, 12, o movimento da tribo que geralmente acampa não vai parar, há sempre uma viatura a chegar e a desembarcar pessoas e tendas, pelo que, pelas suas contas, os cerca de dois hectares (área equivalente a dois campos de futebol) destinado às tendas vai estar totalmente lotado, com vizinhos de diferentes idades e locais da ilha para partilhar “o espírito” festivaleiro.

“Todos os anos é assim”, assinala Futre, que prevê, este ano um aumento do número de pessoas que vão assistir ao festival, já que, pontua, “há uma grande vontade de festejar”, depois da paragem forçada de dois anos, devido à pandemia de covid-19.

E quem chegar na área já sabe que pode contar com a experiência dos dois sobreviventes, pois é o próprio Futre que assinala que são conhecidos pela destreza em montar e desmontar tendas.

“Já somos considerados uma espécie de especialistas em montar e desmontar tendas e, muitas vezes, acudimos a pedidos de pessoas que se vêm aflitas, sobretudo na montagem”, concretiza Futre, antes de anunciar mais um momento de banho, pois, o Sol já ia alto e o calor apertava.

O Festival Internacional de Música da Baía das Gatas teve a sua primeira edição no dia 18 de Agosto de 1984, é realizado anualmente na praia da Baía das Gatas, a oito quilómetros da cidade do Mindelo, e desde aquela data não se realizou ali, em 1995, devido a uma epidemia de cólera que assolou Cabo Verde, e nos anos 2020 e 2021, por causa da pandemia da covid-19, embora a concretização do evento no formato online nas últimas duas edições, mas não no palco da baía.

Anualmente, a Câmara Municipal de São Vicente, que organiza o evento, reserva uma verba no orçamento municipal para fazer face às despesas com a logística, viagens e cachê de artistas de Cabo Verde e do estrangeiro, sendo certo que o grosso do montante para suportar o evento, de acordo com a autarquia, provém de patrocínios de empresas e outras instituições.

O cartaz deste ano privilegia artistas cabo-verdianos residentes e da diáspora, a maioria, mas há espaço para grupos do estrangeiro como Morgan Heritage (reggae) e Wet Bed Gang (rap).

O palco da 38ª edição do Festival da Baía das Gatas abre com um quarteto de vozes femininas, formado por Tchicau, Aline Frederico, Carmen Silva e Cremilda Medina, às 20:30 de sexta-feira, 12.

Inforpress

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