Sonoridades de três continentes marcam encerramento do Kriol Jazz Festival, numa noite dominada por mulheres

A icónica Dee Dee Bridgewater inaugurou o palco do KJF com uma homenagem ao pianista e compositor americano descendente de cabo-verdianos Horace Silver.
Kriol Jazz Festival

A cidade da Praia recebeu este sábado, dia 16, o encerramento da 12.ª edição do Kriol Jazz Festival. A noite ficou marcada pelas sonoridades de três continentes – América, Europa e África – que ecoaram na Pracinha da Escola Grande.

O último dia do Kriol Jazz Festival arrancou em grande com uma referência do jazz – Dee Dee Brigewater, que por exigência contratual foi a primeira a atuar nessa noite, já que segundo o diretor artístico do festival, José ‘Djô’ da Silva, a equipa da artista pediu que ela não atuasse muito tarde. A lendária artista afro-americana conquistou o público presente com a homenagem ao falecido pianista e compositor também dos EUA, mas filho de pais cabo-verdianos – Horace Silver, ao qual aliás Bridgewater dedicou um trabalho intitulado “Love and Peace” (Amor e Paz).

Acompanhada do seu trio feminino, Dee Dee Bridgewater não deixou ninguém indiferente na Pracinha da Escola Grande. “Eu tive homens na minha banda durante toda a minha vida adulta. É hora de ter algumas mulheres na banda porque é uma hora em que sinto que é importante que todos reconheçam que as mulheres têm as mesmas capacidades que os homens como músicos”, afirmou mais tarde aos jornalistas.

Depois de sete músicas e um encore, a artista que já venceu dois Grammys e um Tony Award, despediu-se do público e afirmou ter ficado encantada com a receção que lhe foi dada. Desde 2020 que a artista estava para atuar no festival, mas a vinda foi sendo adiada devido à pandemia.

Dee Dee Bridgewater que viveu duas décadas em França era uma admiradora de Cesária Évora e afirmou que a voz de Lucibela lhe faz recordar a falecida Diva.

E Lucibela foi a segunda artista a subir ao palco para representar Cabo Verde neste sábado. A artista natural de São Nicolau mas que reside em Portugal, realizou um sonho há muito acalentado que era atuar no Kriol Jazz que considera “um palco muito importante por onde passam artistas de renome”.

Acompanhada da sua banda liderada por Toy Vieira, a artista apresentou temas do mais recente álbum “Amdjer”. O trabalho lançado em 2022 já lhe valeu três nomeações para os CVMA e este ano Lucibela espera poder estar na gala e, quiçá, vencer algum troféu.

Entre coladeiras e mornas, a artista cantou também temas mais antigos e interpretou a célebre canção “Negue” de Maria Bethânia para agrado do público.

No final Lucibela mostrou-se visivelmente feliz com a atuação. “Não costumo fazer muitos concertos em Cabo Verde, praticamente só lançamentos de discos. (…) Nunca tinha feito um concerto assim na Praia. Estou muito emocionada. Voltava lá e fazia mais uma horinha“.

Agradecendo o elogio da Dee Dee Bridgewater, a artista afirmou que a faz pensar que está no caminho certo, reconhecendo que ainda tem muito para crescer. “O meu coração fica muito feliz”.

“Até hoje não houve uma entrevista em que dei em que não falaram da Cesária. Digo sempre é porque eu canto o mesmo estilo que ela cantava – mornas e coladeiras. Tenho o meu estilo próprio. Acho que não é comparável com a Cesária (…) ela era única, a sua história, a sua voz. Não vai haver outra Cesária. Nós simplesmente tentamos dar continuidade à música de Cabo Verde.”

As mulheres continuaram a dominar o palco do último dia Kriol Jazz Festival com a entrada da nigeriana ASA. A atuação da artista foi um dos momentos mais aguardados do festival com o público a acotovelar-se para conseguir um lugar à frente do palco que recebeu a artista e a sua banda.

ASA interpretou vários temas, alguns bem conhecidos do público cabo-verdiano como o “Fire on the Mountain”, “Jailer”, que já têm mais de 14 anos,

Antes da atuação a cantora afirmou que estava muito entusiasmada por atuar pela primeira vez em Cabo Verde, cuja música já conhecia através da Cesária Évora, mas também da Mayra Andrade, uma amiga de longa data com a qual já falaram da possibilidade de colaborar. “Acho que quando acontecer, vai ser naturalmente”, afirmou ao Balai.

Questionada sobre o reconhecimento que música africana e, em concreto, a nigeriana está a ter no mundo, a cantora e compositora afirma que só está a ser “possível com a resiliência e confiança” e “é preciso continuar mesmo quando as pessoas não acreditam”. “É muito lindo. A música africana está em todo lado e está a trazer para o continente o respeito tão necessário. Eu adoro este lado positivo”.

ASA também se mostrou preocupada com a mensagem que quer passar enquanto artista. “Quero passar uma mensagem positiva, continuar a inspirar os jovens e mostrar-lhes que não importa de onde vêm, é possível alcançar o mundo (…)Claro, que enquanto uma mulher negra, existem muitos desafios (…) por ser negra, mulher, de África. Mas devemos sempre desafiar e pressionar. É difícil? Sim. A vida é assim. Temos de fazer coisas que ninguém normalmente faria (…) é 20 vezes mais difícil. Mas, honestamente, eu não escolheria outra coisa. Estou feliz com o que faço.”

A artista avançou que vai lançar brevemente um novo single e que está a trabalhar num novo trabalho, depois de ter lançado “V” em 2022.

A noite terminou ao ritmo latino com os catalães Doctor Prats, uma banda que trouxe uma sonoridade mais pop ao festival e animou o público, principalmente os mais jovens e resistentes que se mantinham de pé depois das duas da madrugada.

Segundo explicaram os membros da banda ao Balai, o convite para atuar no Kriol Jazz Festival surgiu em 2019 durante uma atuação num festival em Marrocos e Cabo Verde é o segundo país africano onde atuam.

Josep Jaume Rey guitarrista da banda explicou que quando o Doctor Pras surgiu em 2015 a ideia inicial era partilhar experiências musicais e ser apenas uma banda online. “Fizemos um disco e tudo aconteceu de tal forma que no primeiro ano fizemos 50 shows e a partir daí, ano após ano, principalmente na Catalunha, começámos a ter cada vez mais seguidores. E, finalmente, temos um lugar relevante dentro do panorama catalã que lideramos, estamos super orgulhosos e nos consideramos privilegiados”.

A banda de sete elementos, cada um num instrumento musical, aposta em sonoridades mais pop e foi neste registo que conquistou o público que se manteve até o final do segundo dia do evento. “Temos uma atuação ao vivo bastante explosiva e muito festiva, que talvez contraste um pouco com alguns ritmos mais tranquilos, mas temos muita vontade de demonstrar o que é a festa para nós”, afirmou Ramon Figueras, o vocalista e trompetista da banda.

O Kriol Jazz Festival chegou ao fim após três dias de música, sendo dois pagos. Pelo palco do certame passaram 10 nomes da música, sendo dois cabo-verdianos – Tcheka e Lucibela. A organização, na pessoa do produtor José “Djô” da Silva faz balanço positivo apesar de esperar uma recuperação da audiência para a próxima edição. Do lado das autoridades, fica a promessa do ministério da Cultura que, tanto o AME, que antecedeu o festival, como o Kriol Jazz Festival são iniciativas para continuar até porque são dois ‘eventos-marca’ que ajudam na promoção de Cabo Verde.

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