Tcheka alerta que é preciso dar mais atenção à música tradicional

O músico vai apresentar-se este sábado, 25, na cidade da Praia, num concerto intimista, voz e violão, que acontece cerca de um ano após ter atuado pela última vez na capital, no âmbito do Kriol Jazz Festival 2023.

Numa entrevista no âmbito do concerto deste sábado, Manuel Lopes Andrade, ou simplesmente Tcheka como é conhecido pelo público, revela ao Balai que ambiciona lançar em 2024 não um mas dois álbuns – o mais recente Spera Mundo e o anterior Boka Café. O cantor, guitarrista e compositor cabo-verdiano também deixa o alerta que é preciso “dar mais atenção à música tradicional” e apostar na formação de músicos.

A apresentar este sábado um concerto apenas de voz e violão, Tcheka explica que os seus shows têm três formatos: um a solo, onde atua com o violão, outro acompanhado de um pianista e um terceiro formato com banda (quarteto), dependendo da escolha do promotor.

Reconhecendo que um concerto a solo é desafiador, o músico enfatiza que este formato exige muito trabalho prévio, já que durante cerca de uma hora estará sozinho em palco, trazendo diferentes dinâmicas e cores ao público.

Explica que a escolha do formato depende também do local, mas destaca a força de um concerto intimista.

Neste sábado, o artista promete apresentar músicas mais antigas, como “Agonia” e “Sabu”, que o público sempre pede, além de faixas do novo álbum, que pretende lançar este ano, algumas das quais já foram apresentadas no Kriol Jazz Festival, em 2023.

Novo álbum Spera Mundo lançado ainda este ano

O novo álbum de Tcheka, Spera Mundo, está quase finalizado. O músico viaja em breve para Lisboa para concluir os últimos detalhes e ambiciona lançar o álbum ainda este ano, no máximo até dezembro. Descreve a produção do CD como “um trabalho duro”, destacando que, como criador, nunca está parado. Diz que procurou inovar, mantendo a sua identidade enquanto artista, mas integrando novos elementos e espera que o público aprecie esta evolução.

O álbum levou mais de seis anos para ser concluído, com Tcheka a cuidar de todos os aspectos da produção, arranjos e pesquisas. “Era um desafio mas acho que consegui e agora quero ver a reação do público porque gosto de trazer algo totalmente diferente para mostrar que vale a pena a espera”.

Além de Spera Mundo, Tcheka planeia lançar o álbum Boka Café de 2017, que é composto por guitarra e voz. “Quero fazer algo diferente e lançar os dois juntos, porque o disco ‘Boka Café’ nunca foi lançado”, explica.

Concertos em dezenas de países

Com o primeiro álbum lançado em 2003, Tcheka tem uma carreira internacional sólida e já se apresentou na Europa, América, África e Ásia. Em Cabo Verde, diz que gostaria de cantar mais, já que fora de Santiago tocou apenas em São Vicente e Sal. “Quero fazer um projeto com uma tournée por todas as ilhas (…) tenho vontade de ver a reação das pessoas em Santo Antão, São Nicolau, Brava e Maio”, diz, acrescentando que com os lançamentos dos novos trabalhos, essa vontade poderá ser satisfeita em breve.

Alguns concertos internacionais ficaram-lhe na memória, nomeadamente, em Yaoundé, nos Camarões, onde após o show o público fez fila na rua para o aplaudir de pé ou no Japão onde foi convidado por jornalistas para jantar num restaurante típico e chegou a autografar sapatos.

Tcheka também já se apresentou em destinos inusitados como Singapura, contudo, mesmo com muitos carimbos no passaporte, confessa que tocar para cabo-verdianos, na diáspora, é diferente, pois fá-lo sentir-se em casa e dispersa a tensão.

Mais atenção à música tradicional

O artista defende que é preciso dar mais atenção à música tradicional cabo-verdiana, ressaltando a necessidade de mais palcos e apoios para estes géneros musicais. O guitarrista sugere a criação de uma conservatória para formar músicos, complementando a mestria instrumental com o conhecimento teórico, que no seu entender é fundamental.

“É através da música tradicional que Cabo Verde é reconhecido a nível internacional, portanto, precisamos de espaço, de uma atenção maior e uma direção algo que a possa alimentar e sustentar estes géneros (…) e precisamos urgentemente de formação musical”, salienta.

Apesar das influências externas, Tcheka faz questão de manter a identidade cabo-verdiana nas suas criações, especialmente através da língua cabo-verdiana.

Natural da Ribeira da Barca, no interior da ilha de Santiago, há cinco anos, o músico recebeu um espaço da câmara municipal onde está sediada a Associação Tcheka e Amigos de Ribeira da Barca. A organização apoia a comunidade local e visa dar formação musical. O artista ambiciona trazer músicos internacionais para oferecer formação e ensino e ainda trazer instrumentos musicais para a comunidade.

Mesmo com largos anos de experiência, enquanto compositor revela que o processo criativo é algo inconstante, há momentos em que não se consegue fazer nada,  mas há momentos em que simplesmente acontece. “É um processo que vem quando o universo quer”, explica e acrescenta que “quando produz, às vezes não dorme”. 

Surpreendentemente diz que depois de todo este processo não gosta de ouvir a sua música e não consegue ouvir os seus discos depois de lançados. “É exaustivo”, diz Tcheka.

Olhando para trás, afirma que há muita diferença entre os álbuns mais antigos e os mais recentes. “Com a maturidade ganha-se mais confiança, segurança e saber. Há uma diferença enorme”, reconhecendo que o tempo e a experiência permitem uma evolução, inclusive a nível da guitarra.

“É impossível viver da música em Cabo Verde”

Há algum tempo que o músico concilia a sua vida pessoal e profissional entre Cabo Verde e Portugal, porque a partir de Lisboa é mais fácil sair em tournée. Paralelamente, Tcheka diz que precisa de estar em Cabo Verde para alimentar a alma já que é onde se sente inspirado, com a vivência do quotidiano. 

Reconhece que viver da música no arquipélago é difícil devido ao mercado pequeno. “É impossível viver da música em Cabo Verde porque não há espaço, não há retorno”, afirma categoricamente. “Eu não consigo (…) hoje faço um concerto na Praia, amanhã no Tarrafal e depois? Daqui a um mês volto a fazer na Praia? As pessoas não vão assistir”.

Deixa a sugestão para que o governo financie mais concertos, citando um programa governamental francês que subsidia apresentações em áreas rurais e isoladas.

Com shows marcados nos EUA, Portugal, França, Cabo Verde e Itália, até dezembro, Tcheka conta lançar os dois álbuns e mostra-se comprometido em continuar a sua jornada musical, aliando a inovação à tradição musical de Cabo Verde. Até lá, o público Spera Tcheka.

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