Tó Tavares alerta para o declínio da música tradicional cabo-verdiana

O produtor e músico diz que muitos dos compositores já não estão a fazer músicas novas e defende uma aposta urgente na juventude e em políticas públicas para salvaguardar géneros como a morna e a coladeira.

Num momento marcado pela estreia do Festival de Fado em Cabo Verde, na última quinta-feira, 11, o músico e produtor Augusto Fortes ‘Tô’ Tavares lançou um apelo para a salvaguarda da música tradicional.

Apesar de elogiar a iniciativa de trazer o Festival de Fado para Cabo Verde e a atuação da fadista portuguesa Teresinha Landeiro, Tó Tavares aproveitou o espaço para refletir sobre o futuro da morna e coladeira mas também de outros géneros cabo-verdianos que, segundo diz, estão a perder lugar nas preferências da nova geração.

“Nós estamos a cantar as músicas do nosso baú. Mas quem são os compositores da música tradicional cabo-verdiana hoje? Não existem. Não há continuidade”, afirmou, com preocupação.

Nova geração e a crise de identidade musical

Tô Tavares vê com apreensão a crescente influência de estilos internacionais, que, segundo diz, têm gerado essa crise de identidade musical no seio da nova geração.

“ (…) temos que contrariar essa força antagónica das grandes explosões de músicas atuais que estão a fazer-nos perder a nossa música. E temos que reconhecer isso. A música tradicional cabo-verdiana está a perder-se.”

O produtor e músico lembrou que nomes como Tito Paris, Nhela Spencer e Betu, que são figuras incontornáveis da música tradicional, já não estão a produzir com regularidade.

“Eles estão à procura de quem entregar o legado. Não existe. Temos músicos a escrever, mas não músicas tradicionais como coladeira e todo o resto. Já não existe praticamente.”

Para contornar este cenário, Tó Tavares diz que primeiro é preciso assumir que existe um problema para depois tomar medidas concretas, que envolvem o governo, de forma a trazer essa referência para que a nova geração possa, de facto, dar continuidade à sua identidade musical.

O músico propõe a criação de concursos de músicas folclóricas cabo-verdianas, bem como prémios nacionais para incentivar a produção artística enraizada na identidade cabo-verdiana. O artista reconhece que há talentos, mas diz que faltam incentivos.

Tô Tavares vê também no ensino da música uma oportunidade para fortalecer essa ligação com a tradição, mas salienta que o sistema precisa de ser orientado com esse objetivo.

O exemplo oriundo de Portugal

O produtor destacou ainda a importância do intercâmbio com outras culturas musicais, como o fado, que, segundo diz, ligado à morna, pode servir de inspiração aos jovens cabo-verdianos. De acordo com Tô Tavares, a atuação da fadista Teresinha Landeiro foi um exemplo claro de como a juventude pode valorizar o que é seu.

“Ouvir o fado numa jovem de 29 anos a carregar todo o tradicional, toda a tradição daquilo que é a vivência musical antiga e parece que atual também de Portugal, é extraordinário. É uma referência extraordinária para a nossa juventude em Cabo Verde.”

Balai Notícias

Aline Oliveira

Aline Oliveira

Sócia-fundadora, jornalista e editora de conteúdos do Balai Cabo Verde.

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