Urdi2022: Papa d’putona e vassoura de palha foram as singularidades dos municípios convidados

Quem for à feira Urdi, que ainda decorre na Praça Nova, no Mindelo, poderá se surpreender com a Papa d’putona, da Boa Vista, e contemplar a vassoura de palha, do Paul, duas criatividades dos municípios destaques da feira.

Boa Vista e Paul, com efeito, ganharam centralidade nesta 7ª edição da Feira Nacional de Artesanato e Design de Cabo Verde (Urdi) e com os seus stands, lado a lado do Centro Nacional de Artesanato e Design (CNAD), mostram-se aos visitantes através da gastronomia, da literatura, dos costumes e de tudo o que se refere à cultura e ao modo de viver.

No stand boavistense salta à vista Papa d’putona, um prato de nome peculiar que remete à várias imaginações, mas que serviu para saciar a fome das pessoas na ilha em épocas de crise, fome e seca severa, conforme relatou à Inforpress Maria José Ribeiro, do grupo de teatro boavistense Nova Casa.

“Putona é um tipo de tubérculo de uma planta retirada da terra, depois de escavada e antigamente as pessoas o apanhavam, porque era um meio de sobrevivência, sobretudo, na época da fome de 40”, explicou a mesma fonte, para quem, segundo os mais idosos, por causa deste tubérculo Boa Vista foi a ilha que “não teve morte durante a fome de 40”.

“Boa Vista foi uma das ilhas menos afetadas, segundo pessoas mais antigos, por causa desse tubérculo, porque comiam putona como um meio de sobrevivência”, acrescentou.

O processo para produzir a farinha é semelhante ao que se faz com o milho, adiantou Maria José Ribeiro.
Primeiro, escava-se a terra, retira-se o tubérculo, extrai-se a casca e depois faz-se o processo de moagem do tubérculo, que é parecido com um grão.

Da farinha de putona faz-se papa, cuscuz e outras iguarias, como referiu Luís Fortes Alves, um boavistense que chegou com o staff do município para participar da feira.

Para ele, a putona é um dos símbolos de resiliência do povo boavistense.

“Quando era criança fui comer cuscuz de putona na casa da Aristides Pereira [antigo Presidente da República de Cabo Verde, já falecido] porque a irmã dele, a Dona Maninha, era uma grande cozinheira”, informou Luís Fortes Alves que, entretanto, lamentou o facto de putona já não ser muito consumida pela população jovem da ilha.

Apesar do nome peculiar que ganhou na Boa Vista, este tubérculo é conhecido e usado por vários povos, desde as antigas civilizações. Trata-se do junça, de nome científico Cyperus Rotundus, encontrado na África, no Brasil e na Europa.

A junça, de acordo com uma pesquisa da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), no Brasil, possui “grande potencial” nutritivo, se comparado às batatas inglesa e doce e à mandioca, é “uma importante fonte” de calorias, com 347 calorias para cada 100 gramas, sendo recomendada para dietas de ganho de peso.

É rica em minerais, principalmente fósforo e potássio.

Em relação à quantidade de carboidratos, ela apresenta 29,4 por cento (%), o dobro da taxa da batata inglesa, bastante presente na dieta e gastronomia dos cabo-verdianos.

Ainda, segundo a pesquisa, com cinco vezes mais proteínas do que a batata inglesa e 10 vezes a da mandioca, a junça possui 11% de proteínas e ainda possui propriedades terapêuticas, principalmente na medicina chinesa e na índia.

Ao cruzar a estrada à frente do CNAD, o visitante encontra o stand municipal do Paul.

Quem lá chegar lembrar-se-á da célebre frase “Doces ou travessuras”, que remete ao Dia das Bruxas.

Pura coincidência ou coisas do destino, os produtos que mais sucesso fazem junto dos visitantes são os doces ou compotas de papaia, goiabada e marmelada, e licores de Joana Almeida e as vassouras de palha do artesão Toy, informou o representante do CNAD no Paul, José Candeias.

Curiosamente é o município do Paul que alberga a comunidade de Janela (Fajã e Ribeira de Janela) onde existiam bruxas e feiticeiras, segundo crença dos mais antigos, crença essa imortalizada pela música Papá Juquim Paris na voz de Cesária Évora.

“Temos aqui as vassourinhas que estão com uma saída extraordinária. O Carlitos trouxe as vassouras do Toy e já pediu outras para reforçar o stock que os poucos que tínhamos já esgotaram. Os doces e licores também têm tido uma boa procura e mesmo antes de abrirmos o stand o pessoal já fazia a reserva de doces para levar para casa com medo de não os encontrar depois”, afirmou José Candeias, para quem das 80 vassouras que trouxeram para a feira já venderam metade.

Além de doces, vassouras, a obra do escritor e poeta Januário Leite e os quadros de Tony Luísa também marcam presença no stand as histórias de Pépé Raimundo e da dona Maria Piedade sobre o resguardo dos meninos aos sete dias após a nascença para os proteger das bruxas e do mau olhado, ou ainda o papa k’frigent [papa de farinha de milho acompanhada de um petisco feito à base de fígado, estômago, rim e coração de porco], o cuscuz com mel e a fruta-pão.

É através deste mosaico cultural que a 7ª edição da Feira Nacional de Artesanato e Design de Cabo Verde (Urdi) faz jus ao seu lema “Tradição oral, Cultura Imaterial” que, segundo o CNAD, “se apresenta como um estímulo e desafio à salvaguarda dos contextos culturais que agregam histórias e tradições”.

Inforpress

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