Zubikilla Spencer: “Para fazeres a tua arte, tens de investir em ti”

Em abril deste ano, Zubikilla Spencer lançou o seu primeiro single This is Me (‘Esta Sou Eu’) que vai integrar o tão aguardado trabalho a solo apontado para 2022. “Às vezes para fazeres a tua arte, tens de investir em ti. Se ficares à espera que outras pessoas invistam em ti, fica complicado …”, começa por dizer a artista em entrevista ao Balai e explica que este single exigiu muito dela.
Foto cedida

“This is Me não é só uma música que fiz, o tema tem vários significados para mim (…) Quis lançá-la em inglês até porque todos esperavam um tema em crioulo, inclusive a maioria das minhas músicas é em crioulo, mas gosto da ideia de não entrar nas expectativas dos outros”, diz a cantautora que adianta ainda que está a trabalhar no álbum há muito prometido.

Sobre como surgiu o tema, a artista explica que antes de terem declarado o estado de emergência no país (em 2020), estava em casa com o pé partido quando foi desafiada pelo companheiro Gerson Semedo, que também participa no tema, e “meteu as mãos no violão”.

“Demorei um ano a fazer a música. Comecei em 2020 e lancei em 2021. A produção é minha e o DJ Rango apoiou-me”, conta Zubikilla sobre a sua primeira experiência como produtora.

‘This is Me’ vai integrar o trabalho de estreia da cantora e compositora que se vai intitular 03.04, dividido literalmente em duas partes, uma com três faixas e outra com quatro, sendo que “metade do EP deverá ser em crioulo e os restantes temas serão num registo semelhante ao single This is Me”.

Questionada por um conhecido sobre se o público cabo-verdiano irá entender os temas em inglês, Zubikilla Spencer defende que “a música não tem barreiras”.

Apesar da maior parte do EP que é “uma viagem sonora sobre o seu percurso musical” já estar pronta, a artista prevê lançar o primeiro trabalho musical em 2022. Até lá pretende disponibilizar as músicas em forma de singles de modo a não se perderem no trabalho final.

Uma das suas motivações para lançar o trabalho com temas da sua autoria é ter um portfólio próprio para mostrar e ganhar notoriedade para ser chamada para atuar em festivais, algo que aprecia imenso.

“Não temos apenas uma forma de estar na vida”

Tradutora intérprete, mestre de cerimónias, entre outras ocupações, Zubikilla é uma mulher de vários talentos. Antes de se formar como tradutora, Zubikilla estudou Medicina por quase quatro anos quando percebeu que aquela não era a sua vocação.

“Não acho que temos apenas uma forma de estar na vida, mas nós não exploramos isso (…). As pessoas crescem num formato robótico onde tens a escola, onde fazes uma formação numa área e depois fazes isso para o resto da vida. É como se nos colocassem umas palas que os cavalos usam e não nos deixam descobrir o que mais podemos fazer”.

É cliché, mas Zubikilla teve a música sempre presente. Quer através do pai, o músico Nhelas Spencer, quer da mãe, Maria Graça, já que ambos incentivaram os filhos de várias formas.

Lembra-se que com cinco anos pediu à mãe para a inscrever na Escola de música Pentagrama, na cidade da Praia. “A primeira coisa que o meu pai faz ao acordar é pôr música a tocar, independentemente da hora que for. Há pessoas que me dizem vão sentar em baixo das janelas da minha casa para ouvir música”.

“Tenho gravações minhas a cantar músicas diversas desde pequenina”, recorda com um sorriso a jovem que também é multi-instrumentista e desde cedo aprendeu a tocar guitarra e flauta.

A mãe quando viajava para o estrangeiro trazia-lhe CDs e quando Zubikilla cresceu passou a faze-lo também. “Com certeza, que eles me influenciaram imenso”.

Entre Engenharia Informática e Pilotagem, Zubikilla ‘caiu na asneira’ de dizer aos 14 anos que queria fazer Medicina. A ideia ficou na mente dos pais, principalmente, e assim, ao terminar o secundário, a jovem partiu para Rio Grande do Sul, no Brasil, onde durante quatro anos estudou Medicina, mas confessa que desde o primeiro ano não gostava do curso.

Não se dedicava muito à licenciatura, admite, inclusive decidiu criar uma banda musical e apesar de ser boa aluna a Anatomia, um motivo de orgulho para os pais, Zubikilla chegou ao quarto ano e decidiu que deveria ser feliz de outra forma. Vendeu todos os pertences, exceto o estetoscópio, e rumou a Lisboa.

Na capital portuguesa, a jovem ingressou em Tradução, afinal sempre teve jeito para línguas, e formou-se como tradutora intérprete pela Faculdade de Letras de Lisboa.

Não quer ter a música como um hobby, pelo contrário, quer que a Interpretação/ Tradução seja uma atividade paralela para sempre.

A ambição de lançar um álbum próprio está presente desde 2017, quando regressou de Lisboa depois de se formar, mas os planos acabaram por ser adiados por vários motivos.

Em 2019 sofreu uma grande perda com o falecimento do seu filho bebé e confessa que até 2021 “não tinha vontade de fazer nada”. “Parei muito a nível musical mesmo (…) mas ainda consegui fazer o “This is Me” (seis meses depois do sucedido) que tem muito a ver com o momento que estava a viver”.

“A pessoa que sou hoje nada tem a ver com a artista de 2017”

Durante pandemia participou em dois projetos: no Festival na Sofá, um “evento online de música kriola criado com o objetivo de sensibilizar os cabo-verdianos sobre a importância de ficar em casa no momento de pandemia”, e na primeira edição do Skntv (Si Ki Nu Ta Vive) Vibes.

Com a retoma das atividades culturais, uma das suas experiências mais recentes em palco foi no espetáculo Alma, que aconteceu em setembro na cidade da Praia, ao lado do companheiro Gerson Semedo (BLACKSTAR), da Mademoiselle Lisbonne, nome artístico de Ana Lisboa Santos e do Dj Rango.

Os quatro interpretaram o tema ‘Nha Identidade’ que é um dos 13 temas musicados por vários artistas cabo-verdianos de renome e que integram o álbum “Alma”, onde estão presentes poemas do recém-eleito Presidente da República José Maria Neves, e que já está disponível nas plataformas digitais.

“Como não tenho estado a fazer shows, foi bom fazer este e entender que as pessoas ainda estão recetivas e abertas ao meu trabalho”, confessa a artista que perspetiva ter mais trabalho no final deste ano.

Recentemente atuou na tomada de posse do Presidente da República José Maria Neves, onde interpretou o Hino Nacional.

Diz que agora está de volta e concentrada no lançamento do EP para 2022. “Às vezes, comentam que não lancei o álbum desde 2017, ao que respondo: Ainda bem. A pessoa que sou hoje nada tem a ver com a artista de 2017. Na altura não via isso, mas hoje entendo que as coisas acontecem por uma razão”.

Esta nova Zubikilla que “tem menos medo de se expressar” estará refletida nas novas músicas, na forma como toca e compõe. “Foi bom não ter lançado porque acho que só agora estou preparada para tal”.

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