“A Ayurveda é complementar à medicina moderna. Ajudam-se mutuamente”, defende médica cabo-verdiana Carla Évora

A Ayurveda é um sistema de medicina alternativa desenvolvido e praticado na Índia há milhares de anos e reconhecido formalmente pela OMS enquanto um dos diversos sistemas de medicina tradicional. Em conversa com o Balai, Carla Évora, médica cabo-verdiana, explica em que consiste esta prática que propõe restabelecer o bem-estar físico e emocional.

A médica cabo-verdiana Carla Évora é especialista em Medicina de Família e Comunidade e reside no Brasil, país onde fez o curso. A especialista conta que teve contacto com a Ayurveda em 2019 e que este sistema de saúde vindo da Índia mudou o seu estilo de vida.

Carla Évora diz que sempre se preocupou com o seu bem-estar espiritual, emocional e físico. Com um histórico de diabetes na família, descobriu que estava pré-diabética e resolveu apostar num estilo de vida mais natural, tendo começado a fazer exercício físico de forma regular.

Em 2018, durante uma aula de Ioga, a médica ouviu falar, pela primeira vez, da Ayurveda – termo que vem do sânscrito e significa “ciência da vida”. O interesse foi tão grande que decidiu procurar mais informações sobre o assunto, inscreveu-se no curso na Associação Brasileira de Ayurveda (ABRA) e em janeiro de 2020, com a pandemia a bater à porta, viajou para a Índia para “beber da fonte”.

Apesar de não ser uma viagem dos sonhos, a médica diz que a experiência “foi incrível”. “Foi interessante conhecer cultura, pessoas e comida diferentes”.

…A Ayurveda trouxe-me mais consciência corporal e mental com certeza

Segundo Carla Évora, com a Ayurveda adotou um estilo de vida que lhe trouxe muitos benefícios para a sua saúde mental e física.

“A Ayurveda trouxe-me mais consciência corporal e mental com certeza. Melhorei a minha saúde no geral. Atualmente, não sou mais pré-diabética. O meu açúcar é normal. Melhorei a minha alimentação, passei a fazer atividade física regular, algo que não fazia antes. (…) Tenho mais energia, melhorei a minha insônia, a ansiedade e a relação com a comida. Hoje em dia, já não como mais por compulsão”, explica e salienta que o corpo e a mente estão interligados, influenciam mutuamente tanto positivamente como negativamente.

Segundo a especialista, os chamados Doshas ou biótipos são os pilares do equilíbrio do corpo humano. Existem três tipos: Vata (Ar e Éter), Pitta (Fogo e Água) e Kapha (Água e Terra). Todo indivíduo possui os três doshas em si, com proporções distintas, mas geralmente, existe um tipo mais predominante, o que caracteriza seu corpo físico e emocional.

“Por exemplo, um indivíduo nasce com predominância de Vata, mas à medida que vai crescendo tem interferências internas e externas que provocam um desequilíbrio na sua condição atual”.

Esta filosofia médica oriental defende a cura do problema a partir das suas causas/ origens e não apenas os sintomas, como muitas vezes é o foco da medicina ocidental, sendo que a Ayurveda enfatiza a prevenção tanto quanto a cura.

Questionada sobre se consegue conciliar a Ayurveda com a medicina moderna, Carla diz que sim.

“Apesar de ser especialista em Medicina de Família e Comunidade, sou uma médica generalista. Vejo o paciente como um todo. Não trato doença, trato o paciente. Na Medicina de Família abordamos muito a questão da prevenção e é justamente nesse ponto que a Ayurveda e Medicina de Família se cruzam. (…) A Ayurveda é complementar à medicina moderna. Ajudam-se mutuamente e nenhuma é superior a outra”.

“Naturalmente médica”

O impacto que a Ayurveda teve a sua vida, levou com que, no ano passado (2021), Carla Évora criasse uma página nas redes sociais denominada Naturalmente Médica com o intuito de partilhar conteúdos sobre saúde no geral, mas atualmente está mais voltada para a Ayurveda.

Conheceu a dentista cabo-verdiana, radicada nos EUA, Zarina Barbosa, durante uma consulta e resolveram apostar na criação de um curso online com o intuito de ajudar outras pessoas a prevenir e a tratar pequenos desequilíbrios. “Zarina começou como minha paciente, adorou e disse-me: ´Carla, precisas gritar isso para o mundo´”.

…O primeiro passo num tratamento ayurvédico é fazer a limpeza das toxinas

“O curso acontece no Instagram onde temos uma página que damos acesso após a inscrição. Há conteúdos em vídeos e textos. (…) Durante sete dias colocamos em prática rotinas e alimentação saudáveis e retiramos tudo o que nos faz mal, desde o café, chá verde, açúcar, industrializados, proteína animal (…) e trazemos uma alimentação limpa e fácil de digerir”.

“O primeiro passo num tratamento ayurvédico é fazer a limpeza das toxinas”, explica a médica cabo-verdiana e deixa claro que o objetivo não é a perda de peso. “É uma consequência.
Normalmente, as pessoas procuram mais por questões digestivas, distensão abdominal, azia, insônia, ansiedade, falta de energia, entre outros”. A médica alerta que quem recorre a essa medicina por questões de doença precisa de acompanhamento médico.

De acordo com a especialista, os desequilíbrios começam no sistema digestivo e recomenda a raspagem da língua pela manhã para evitar a reabsorção das toxinas que o corpo trabalhou tanto para expelir. “A raspagem da língua é uma das primeiras coisas que indicamos para fazer ao acordar e tem vários benefícios: limpeza, melhora a digestão, o hálito e o paladar, bem como dá um frescor na boca”.

Com 80 por cento dos pacientes do curso cabo-verdianos, sendo que a maioria é do sexo feminino na faixa etária dos 25 a 35 anos, Carla diz que o feedback tem sido positivo. “As pessoas têm gostado muito, inclusive em cada turma criamos um grupo e estão ativos até hoje. Encorajam umas às outras, enviam fotografias das refeições e convidam amigos para fazerem o curso. Tem sido um processo agradável, poder ajudar a população do meu país após tanto tempo fora. (…) A Ayurveda mudou a minha vida e estou a conseguir ajudar muitas pessoas”.

Carla Évora diz que a Ayurveda pode ser aplicada a qualquer região, mas não recomenda para todas as pessoas. “Não indico para grávidas, puérperas e nem para quem está a amamentar. Só a partir dos seis meses quando a criança não está com aleitamento materno exclusivo. Criança pode praticar Ayurveda, mas eu pessoalmente não faço porque precisava de uma especialização mais profunda”, adverte e aconselha este estilo de vida para quem quer engravidar.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest

Deixe um comentário

Follow Us