A lutar contra um cancro de mama, Kátia Carvalho diz que diagnóstico não é sentença de morte

A lutar hoje contra um cancro de mama, a cabo-verdiana Kátia Carvalho diz que um diagnóstico da doença não é uma sentença de morte, devendo-se encarar a enfermidade com “ânimo, boa disposição e confiança”.

Kátia Carvalho, que se encontra em Portugal, em tratamento, há algum tempo, no Hospital de Santa Maria, e que teve de renunciar o mandato enquanto eleita municipal pela lista do PAICV – Sal, conta durante uma entrevista à Inforpress, de lá para cá, que teve deixar a família, a sua ilha, o seu país, para enfrentar essa nova fase da sua vida.

Conta que foi em Fevereiro de 2021 que a sua vida deu uma “grande guinada” com o diagnóstico de cancro de mama, um diagnóstico, conforme desabafou, duro de ouvir, mas que encarou com peito aberto, pronta para lutar e vencer.

“Com 42 anos e dois filhos, de 14 e 7 anos na data, não poderia morrer, e nem agora! É muito cedo para morrer e não vou morrer. Sinto-me no dever de levar força e confiança a todos que lutam porque sei o quão importante é sentir-se apoiado, ter confiança e força para superar”, exteriorizou.

“Sou dinâmica, gosto de gente, de abraços, adoro trabalhar, de fazer política, de estar no terreno, de criar soluções, mas, não podendo me entregar e contribuir como antes, entendo que devo contribuir para ajudar aqueles que também passam por momentos difíceis e que, infelizmente, não têm o suporte que tenho, partilhando a minha história e mostrando-lhes que um diagnóstico de câncer não é uma sentença de morte”, frisou.

Enquanto profissional da Segurança Social, recuando um pouco no tempo, lembra que várias vezes organizou processos de evacuação exterior, aconselhou e sofreu com a dor dos evacuados, obrigados a deixar a sua casa e a sua família para cuidarem da sua saúde.

“De repente, estava eu na situação que muitas vezes lamentei ver os outros. Respirei fundo e falei com o meu marido, era imprescindível o seu suporte para que o processo decorresse tranquilamente”, recordou, dizendo que a sua reacção foi pedir ao marido que tomasse conta dos meninos e da casa, enquanto ela Kátia, tomava conta de si, para ter saúde.

“Só assim, sabendo que as crianças estão bem, a logística funcional, poderia ter estabilidade e tranquilidade para lutar. Assim foi”, desabafou, lembrando-se da primeira consulta em que, conforme comentou, propôs à cirurgiã a retirada dos dois seios, o com o tumor e o outro, de forma preventiva.

“Ela negou, alegando que os seios eram meus e que me deixariam falta. Verdade. Mas só deixa falta o que é bom, o que acrescenta. O que não é saudável e apresenta um risco para a minha vida, abdico com prazer. Igualmente não me senti afectada com a cirurgia”, disse, mostrando que é desta forma que encara as coisas e, nesta perspectiva, não vê a mastectomia como uma perda.

“Pelo contrário, livrei-me de um problema. Encarei o processo naturalmente e adaptei-me. O desafio, a luta, os objectivos eram outros, mas a garra, a força e a coragem são as mesmas de sempre. Não creio que o câncer tenha mudado muita coisa em mim”, enfatizou.

Acredita que a facilidade em aceitar, adaptar-se e se enquadrar, tem ajudado a encarar este processo sempre com ânimo, boa disposição e confiança, associado ao suporte familiar e dos amigos.

“Tem sido fundamental para levar esta caminhada com força e com foco. Este suporte libertou-me de preocupações com a logística da casa, com o bem-estar dos meninos e com outras questões rotineiras, permitindo-me focar no meu tratamento e alimentando-me sempre com diversas manifestações, quer comigo, quer para com o meu marido e filhos, o que me fortalece e me traz imensa tranquilidade”, desabafou.

Segundo Kátia Carvalho, a amizade, o amor, o carinho e a solidariedade que tem recebido ao longo deste processo lhe dá uma “imensa satisfação”, acreditando que é parte da cura, lamentando, entretanto, a distância.

“O que mexe comigo não são os efeitos da quimioterapia, da radioterapia ou as sequelas da cirurgia. O que realmente mexe [comigo] é a distância, a dor da saudade, o sentimento de que é mais um dia que estou a passar longe dos meus filhos e da minha família. Mas a certeza do reencontro, do regresso inspira-me a cada dia e tudo fica mais fácil”, notou.

Habituada a uma vida cheia, com actividade profissional, família, seguimento “empenhado” da educação dos filhos e actividade política, de repente, trocou as sessões da Assembleia Municipal, para sessões de quimioterapia e de radioterapia, onde os vários compromissos sociais que tinha foram substituídos por consultas e exames médicos.

“O processo de quimioterapia é agressivo, perdi o cabelo, as sobrancelhas e unhas. Mas isso nunca me abalou. A minha única preocupação era o impacto nos meus filhos mas, preparei-os para a fase e penso que reagiram bem”, conta.

Kátia Carvalho disse que usou chapéu ou lenço, algumas vezes, apenas para se proteger do sol ou do frio e “nunca” para se esconder, pelo contrário, sentiu-se “tão bem” quando estava sem cabelo, e achou importante passar esta imagem para as mulheres que se sentem fragilizadas com a perda do cabelo, partilhando a sua história e mostrando às mulheres e não só que um diagnóstico de cancro não é uma sentença de morte.

“Sinto-me no dever de levar força e confiança a todos que lutam porque sei o quão importante é sentir-se apoiado, ter confiança e força para superar”, concluiu Kátia Carvalho que diz sentir “imensas saudades da vida política, do frenesim, do terreno, da felicidade de estar a prestar um serviço público.

“Na defesa dos direitos das pessoas, a contribuir para o desenvolvimento da minha ilha/país mas, neste momento, está tudo em suspenso. Não é hora de pensar nisso, por hora tenho que me entregar a esta luta inteiramente para poder vencer, ter tempo e outras oportunidades de continuar a contribuir”, manifestou.

Inforpress

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