Andreia Anjos, sobrevivente de cancro de ovário: “Vivo como se tivesse uma bomba relógio dentro de mim”

Diagnosticada com cancro de ovário aos 27 anos, Andreia Anjos recorda que o seu mundo desmoronou quando recebeu o diagnóstico algum tempo após ter sido mãe. Depois de cinco anos de luta, passou “a ver a vida com outros olhos”.

Seis meses após ter sido mãe, Andreia Anjos começou a sentir dores abdominais e a barriga inchada. Pensou que o problema era derivado do parto, mas os sintomas pioravam a cada dia. Procurou ajuda médica, mas só em finais de 2016, aos 27 anos, que foi diagnosticada com um cancro do ovário.
Depois de uma depressão, pensamentos suicidas, tratamentos com quimioterapia, radioterapia e imunoterapia, descobriu um novo tumor em 2019.

Andreia “Andy” Anjos é uma sobrevivente. Em entrevista ao Balai, a jovem empresária santiaguense, licenciada em Ciências da Comunicação, MBA em Marketing Digital, conta que descobriu a doença em finais de 2016 em Dakar, no Senegal. Mas os primeiros sinais de alarme surgiram anos antes quando a sua filha completou seis meses de vida.

… Os sintomas que mais me preocupavam era a minha menstruação irregular e o crescimento da barriga”

“Depois que fui mãe em 2012 senti que algo tinha mudado no meu corpo. Passei a ter dores e a sensação de barriga inchada, inclusive as pessoas perguntavam-me se estava novamente grávida. Tinha falta de apetite, perda de peso, variação de humor, cólicas e cheguei a pensar que tinha algum problema de estômago. Os sintomas que mais me preocupavam era a minha menstruação irregular – ficava até dois meses sem menstruar – e o crescimento da barriga”, recorda.

Andy teve uma gravidez transversal (bebê fica deitado de forma atravessada no útero) e de risco por isso chegou a pensar que os sintomas eram derivados do parto que foi complicado.

“Tive vários problemas durante a gravidez e no parto (…) Foi um processo agressivo. Depois que a minha filha completou seis meses de vida comecei a sentir os sintomas. Na altura, cheguei a pensar que estavam relacionados com a amamentação ou com o parto, mas logo descartei essas hipóteses”.

Sempre teve uma atenção especial com o corpo e sabia que alguma coisa não estava bem. Procurou ajuda médica em Cabo Verde, tanto no sistema público como privado, e realizou uma série de exames todos com resultados inconclusivos. Chegou a ser medicada, mas diz que os sintomas persistiam.

“Tive quase um ano a fazer exames e sem ter um diagnóstico definitivo. Diziam que era endometriose, cisto, ovário policístico, (…). Estava a perder peso de uma forma exagerada e fiquei preocupada. Então, decidi sair do país em busca de uma segunda opinião, uma vez que, aqui (Cabo Verde) estava apenas a gastar dinheiro”.

“Receber um diagnóstico de cancro é como receber uma sentença de morte”

Em finais de 2016, Andy viajou para Dakar, no Senegal, e ao chegar foi-lhe solicitada uma série de exames e, em menos de uma semana, recebeu o diagnóstico de cancro do ovário que já estava a entrar no estágio 3 A.

O diagnóstico foi um “choque” para esta jovem mãe. “No momento estava sozinha e quando recebi a notícia dos médicos a minha mente bloqueou de tal forma que não consegui demonstrar nenhuma reação ou sentimento. (…) Receber um diagnóstico de cancro é como receber uma sentença de morte”.

Escondeu a notícia da família – contou apenas à melhor amiga – e regressou a Cabo Verde com a intenção de se despedir da filha menor, do marido e da família.

Não bastasse o cancro, dois meses após a descoberta do tumor, Andy entrou em depressão, separou-se do marido e perdeu a melhor amiga.

“A minha depressão era profunda que cheguei a pensar em suicídio por duas vezes. (…) A morte da minha amiga acabou por dar-me um choque de realidade. Ela morreu durante o parto, mas lutou muito. E eu queria fugir da realidade sem antes mesmo de tentar. Estava em negação e era isso que estava a provocar-me o estado depressivo”.

… Os médicos chegaram a dar-me entre dois a cinco por cento de probabilidade de sobreviver”

Após o falecimento da amiga, revelou à família que estava com cancro, decidiu voltar para Dakar e em outubro de 2017 deu início a árdua batalha pela vida.

“A minha filha foi um dos motivos centrais da minha decisão de iniciar o tratamento contra o cancro. Os meus maiores medos foram não conseguir acompanhar o crescimento dela e não realizar os meus projetos profissionais e pessoais que tinha em mente”.

“O processo (de tratamento) foi longo e delicado. O meu corpo não estava a responder aos tratamentos e, literalmente, estava entre a vida e a morte. Os médicos chegaram a dar-me entre dois a cinco por cento de probabilidade de sobreviver. Fiz quimioterapia (branca e vermelha), radioterapia, (…). Fiz imunoterapia porque houve um remédio com o qual o meu organismo reagiu mal. Cheguei a pesar 40 kg”.

Revela que estava numa fase depressiva e a sua saúde mental estava totalmente destruída. “Tinha determinado que estava a morrer. Até hoje não sei como é que sai”.
Durante o tratamento foi preciso ter acompanhamento psicológico. “Quando uma pessoa tem depressão ela não se cura, ela simplesmente camufla. (…) A depressão é uma luta diária. (…) Aprendi a detetar os sinais de possíveis problemas e a colocá-los de lado, não importa se é a nível profissional ou família”, salienta e afirma que a depressão continua a ser um tabu em Cabo Verde.

A partir do momento que viu que tinha um papel fundamental, tal como os médicos, na sua recuperação, Andy começou a mudar o seu estilo de vida, incluindo a sua forma de pensar, e o corpo começou a responder ao tratamento e passou de dois para 80 por cento de chance de sobreviver. “Foram precisos anos de recuperação”.

“Posso vir a falecer do mesmo problema, mas digo que estou viva neste momento graças à minha mudança de atitude e estilo de vida. E claro que o esforço dos médicos foi crucial”.

O cancro de Andy é hereditário – chegou a perder uma avó pela doença – causada por uma mutação no gene BRCA1 e o risco de voltar a ter a doença é elevado. Foi o que aconteceu em 2019, durante um exame de rotina, três anos após ter sido diagnosticada com o primeiro cancro, foi-lhe diagnosticado um novo tumor no ovário. “O tempo de um cancro para o outro foi muito rápido. Foi em menos de meses”.

Desta vez o diagnóstico não foi uma surpresa para Andy, ela já sabia que, por causa da variante genética, o cancro está sempre à espreita. Ciente dessa probabilidade, Andy diz que “hoje em dia encara tudo de outra forma”.

“Quando se tem cancro num dos ovários o risco de ter no outro é elevado. Por isso, algumas mulheres preferem fazer a retirada total dos ovários e até do útero. Eu tive medo de tirar tudo”.

Comparado com o primeiro, o tratamento do segundo cancro, que também foi feito em Dakar, foi mais leve, porque foi detetado precocemente. Iniciou o tratamento em fevereiro de 2021 e em janeiro deste ano já estava curada.

… O cancro ensinou-me a ter equilibrio”

Revela que todos os tratamentos foram feitos com a mesma equipa médica. “Fiz tratamento no Centre Cancérologie de Dakar, na Clinique de la Madeleine e na Clinique Pasteur. Fiz tanto no privado como público, pois há serviços que são mais rápidos no privado”.

O suporte da família foi “crucial” para o tratamento da jovem. “A família, o paciente e a equipa médica são os três pilares cruciais para qualquer sucesso de recuperação. Tive apoio incondicional da família”.

“Vivo como se tivesse uma bomba relógio dentro de mim”

Questionada sobre o que aprendeu com o cancro, Andy diz que a doença a ensinou a ter “equilíbrio”.

“Depois que tive cancro vi que a vida é um momento. Então, decidi realizar todos os meus sonhos. Depois que tive essa experiência de estar na sombra da morte passei a ver a vida com outros olhos. (…) Sou uma pessoa que está eternamente sob controlo e vivo como se tivesse uma bomba relógio dentro de mim. Tenho que fazer check-up a toda a hora e é exaustivo. Mas, hoje em dia, digo que em termos de saúde estou melhor. Cuido da minha saúde mental e física”.

A jovem também mudou os hábitos alimentares. “Consumo pouca carne, não bebo bebidas industrializadas, cortei o sal em demasia, ou seja, tudo é equilíbrio”.

De acordo com esta sobrevivente, o cancro continua a ser um tabu em Cabo Verde e diz que é preciso desmistificar. “É preciso ver que a medicina está avançada e que o tratamento que existia há dois anos já não é o mesmo”, diz a jovem que acredita que “é preciso criar programas especializados em doenças ginecológicas”.

“O cancro é um tabu porque existe uma falta de informação no país”, acrescenta.

Andy alerta outras mulheres a conhecer o seu corpo e a estarem atentas aos sinais. “O autoconhecimento é crucial para detetar qualquer alteração”.

Atualmente, apesar de regressar periodicamente a Dakar, reside em Santiago, onde tem a sua própria empresa de consultoria.

Em novembro de 2021, ainda em pleno tratamento, a empresária que fez uma especialização em Inteligência Artificial na Stanford University (EUA), marcou presença na Web Summit com a empresa One Tecnology para apresentar o HelpHer, um aplicativo de suporte e proteção às mulheres vítimas de violência. Revela que o evento foi a alavanca que estava a precisar para seguir com os seus projetos.

“Tive momentos bons na minha carreira profissional, mas estar na Web Summit foi importante. Agora estou em outro patamar. Por causa do evento vários investidores entraram em contacto comigo. Então, a nível profissional, estou num momento bom”, conclui.

“O meu cabelo era a minha coroa”

Antes de lutar contra o cancro, a jovem que é apaixonada também pela área da moda e beleza tinha uma página no Facebook – Dicas da Andy – onde falava sobre cabelo, maquilhagem, entre outros temas.

O cabelo natural e volumoso era um motivo de orgulho, mas durante o tratamento, para amenizar a dor, optou por cortá-lo e admite que não lidou bem com a perda.

“O meu cabelo era a minha coroa. Apesar de ter feito o tratamento com touca inglesa, o cabelo ficou fraco e isso afetou-me. Cortei o cabelo e passei a usar o lenço e não conseguia ver-me ao espelho. Tinha pavor da minha pessoa. O meu corpo estava cheio de manchas, a pele estava feia, as sobrancelhas quase que não existiam, as unhas estavam fracas e pesava 40 kg – perdi quase 20 kg. Não estava a sentir-me linda. Só que tive uma mudança tão forte, que durante o tratamento, participei no Fórum Dakar e abri a minha empresa de tecnologia e consultoria de investimentos”, conta.

Enquanto lutava pela vida, Andy fez alguns trabalhos na área de gestão e marketing para custear o tratamento. “Trabalhar era o estímulo que precisava para ganhar energia”.

Andy carrega consigo várias sequelas dos tratamentos, mas diz que aprendeu a viver com elas. “Passei a ter asma crónica, meu cabelo e as unhas ficaram fracas, tenho dores nas costas que não tinha antes e problemas de visão – Miopia. “(…) O cancro é tão duro e cruel. Transformei-me numa pessoa totalmente diferente do que era antes. Sou mais autossuficiente e sensível comigo mesma”.

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