Após críticas ao Miss Cabo Verde International, Stephany Amado diz que é preciso priorizar a saúde mental das concorrentes

Apesar das denúncias de maus-tratos, a modelo acredita que o concurso tem potencial, mas precisa de melhorias.
Foto@cedida pela modelo Stephany Amado

Em finais de março, a Miss Cabo Verde International, Miss África e primeira-dama do Miss International 2022, Stephany Amado, teceu críticas à organização do concurso ao partilhar a sua experiência na I edição do concurso realizado na cidade da Praia. A modelo falou em dificuldades emocionais e físicas enfrentadas durante a sua participação e de outras concorrentes. Em entrevista ao Balai, Stephany fala da necessidade de mudanças no concurso.

“Eu não quero que o Miss Cabo Verde International seja cancelado, mas que se busque melhorias para que outras candidatas não passem pelas mesmas dificuldades que passei e que tenham a oportunidade de representar o país no concurso internacional no Japão”, acrescenta, afirmando que o concurso no Japão tem muita qualidade. 

Numa manifestação nas redes sociais, a modelo falou sobre os traumas vividos ao relembrar o que enfrentou na altura, tendo questionado as condições de organização e o tratamento recebido pelas candidatas.

“Está a ser um momento muito difícil porque estou a reviver os traumas que enfrentei no passado, mas acredito que é preciso falar deles para podermos curá-los”, afirmou Stephany na altura.

A manifestação da primeira Miss Cabo Verde International foi motivada por um episódio que envolveu a coroação da atual vencedora de outro concurso, o Miss das Ilhas de Cabo Verde na Europa, que aconteceu a 21 de março em Paris. Stephany estranhou a ausência de Jasmine Jorgensen, a primeira vencedora do concurso, durante a coroação da sua sucessora. 

Após entrar em contacto com a Jasmine, foi informada que ela não havia sido convidada para o evento, o que gerou indignação na modelo que reside nos Estados Unidos da América. “Achei uma injustiça enorme, senti que foi semelhante ao que aconteceu comigo e com as outras candidatas”, desabafa.

Stephany revelou ao Balai que durante o concurso Miss Cabo Verde International notou diversas injustiças, incluindo abusos emocionais e psicológicos. “Vi uma candidata a ter um ataque de ansiedade durante uma entrevista, e ela depois disse-me que foi chantageada pela organização. Não estão a levar em consideração que a saúde mental é um fator importante para a sociedade e não pode ser negligenciada no mundo das misses.”

Durante a sua participação no concurso em 2022, Amado conta que enfrentou uma série de contratempos. “Deixei a minha vida nos EUA para ir para Cabo Verde competir. Investi todas as minhas poupanças no concurso. (…) No Início, tudo parecia perfeito, mas logo começamos a notar diferenças. Confiscaram os nossos telemóveis todos os dias, tínhamos que acordar às 05h00 da manhã, estávamos num autêntico campo militar”, disse, acrescentando que sofreram com a falta de alimentação e cuidados básicos. “Havia desmaios constantes entre candidatas. (…) Foram uma série de jogos e abusos emocionais que levavam as candidatas ao stress extremo”, relata. Segundo diz, a organização estava mais preocupada em lucrar do que em cuidar da saúde mental e física das candidatas.

Segundo a modelo, a organização não levou em consideração questões de saúde das participantes. “Eu não consumo carne, por exemplo, e isso não foi respeitado”, aponta. Para Stephany, o que deveria ser um evento de celebração de beleza e talento das mulheres cabo-verdianas transformou-se num cenário de abuso físico e psicológico. Reconhece que o concurso não é um campo de férias, mas também não deveria ser um campo de tortura.

Apesar de já ter passado alguns anos desde a sua participação, a situação de abuso e falta de cuidados com as candidatas não é algo que Stephany tenha esquecido. “Como era a primeira edição tentei dar o benefício de dúvida à organização, uma vez que não tinham experiência”, disse, acrescentando que tentou falar com a organização, mas sem sucesso.

No entanto, a modelo acredita que o Miss Cabo Verde International tem um grande potencial. “Gosto de ver Cabo Verde a brilhar em palcos internacionais, de elevar a bandeira e exaltar a beleza das cabo-verdianas, mas não com maus-tratos.”

Em relação à organização, Stephany acredita que é necessário repensar os contratos das candidatas e a forma de lidar com os problemas. “É preciso ser mais profissional e colocar as necessidades das candidatas em primeiro lugar. Há mudanças que precisam ser feitas nos contratos, principalmente no que se refere à responsabilidade da organização sobre lesões, e é fundamental que haja apoio psicológico para as participantes”, sugere, acrescentando que na primeira edição foi a única que recusou assinar o contrato sem o aconselhamento de um advogado. “No contrato dizia que após ser coroada Miss a minha imagem pertencia ao Miss Cabo Verde International.”

A jovem questiona também a transparência da organização quanto à gestão do dinheiro arrecadado no evento. “Quero saber o que foi feito com o dinheiro da primeira edição, uma vez que fiquei a saber que foi um ex-namorado que custeou a minha viagem para o Japão”, disse, avançando que durante um ano foi obrigada a fazer campanhas publicitárias gratuitamente para duas empresas nacionais.

Stephany encerrou a entrevista com um conselho para futuras participantes: “Leiam o contrato antes de assiná-lo, exijam uma cópia e se preparem psicologicamente”, finaliza a modelo que ambiciona futuramente formar-se nas áreas de Psicologia e como business coach, de forma a apoiar outras pessoas.

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