As crianças de “sangue doce” e os desafios das famílias com filhos com diabetes tipo 1

A diabetes tipo 1 é uma doença autoimune que exige controlo diário, mas que pode ser gerida com insulina, alimentação saudável e acompanhamento médico. O Balai traz o testemunho de famílias de crianças diagnosticadas com esta condição. Conforme alertam as especialistas entrevistadas, o diagnóstico não é uma sentença, mas implica uma reorganização da rotina familiar e um controlo da alimentação.

“A diabetes acontece quando se tem excesso de açúcar no sangue, seja porque se tem défice de insulina ou porque o organismo não consegue utilizar adequadamente aquela insulina. Há vários tipos de diabetes, sendo que a diabetes tipo 1, é a mais comum em crianças, e é uma doença cuja etiologia, na maioria dos casos, é autoimune”, começa por explicar a médica endocrinologista Vanusa Oliveira, que trabalha no Hospital Universitário Agostinho Neto (HUAN).

Questionada se há uma predisposição genética e sobre o facto de uma pessoa “nascer sem a doença” e esta depois manifestar-se ao longo da vida, a profissional explica que à semelhança de outras doenças autoimunes, “a pessoa pode nascer já com essa alteração e depois passar por um momento, por exemplo, de uma infecção viral, e a doença vir a desencadear-se”.

Cita o exemplo da pandemia da Covid-19, após a qual tem-se observado um aumento dos diagnósticos de diabetes tipo 1 a nível mundial e a teoria dos especialistas é que como o vírus afeta o sistema imunitário, esse facto pode levar à manifestação não só da diabetes, mas também de outras doenças autoimunes, como as da tiroide, lúpus ou artrite reumatoide, por exemplo.

Segundo o II Inquérito das Doenças Não Transmissíveis (IDNT II), realizado em 2020 e divulgado em outubro de 2021, 3,7 % da população cabo-verdiana tem diabetes, uma média inferior aos dados a nível mundial. 

Por ocasião da apresentação destes dados em Cabo Verde, o médico Evandro Monteiro, então Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde, referiu que devido às mudanças nos perfis demográfico, epidemiológico e nutricional dos cabo-verdianos, as doenças como as cardiovasculares, diabetes e o cancro têm sido, há mais de 20 anos, a principal causa de mortalidade no país.

Essa preocupação é partilhada pela endocrinologista que explica que a diabetes é um factor de risco para doenças cardiovasculares, nomeadamente o Acidente Vascular Cerebral (AVC), que é actualmente a principal causa de morte no país.

A nível nacional, a diabetes tipo 2 é a mais prevalente, representando mais de 95% dos casos no país, mas após a covid-19 registou-se um aumento de diagnósticos de casos de diabetes tipo 1.

A diabetes suscita ainda maior preocupação a nível mundial, já que segundo dados da OMS de 2024, a diabetes mata 1 pessoa a cada 10 segundos no mundo. 

O choque inicial e a vida depois do diagnóstico

Natural da ilha do Sal e atualmente a residir na Praia, Adnízia Ribeiro é mãe de dois filhos, uma de 9 e outra de 6 anos, e funcionária pública. A filha mais velha (foto à direita) foi diagnosticada com diabetes tipo 1 perto do seu terceiro aniversário, que acabou por ser passado no hospital.

 

O diagnóstico foi um choque, ainda mais porque o pai da menina tinha sido diagnosticado com diabetes apenas dois meses antes.

“Com dois anos, ela começou a dar alguns sintomas. Mas, obviamente, tu não estás preparado para os entender porque não tens informação”, conta a mãe. A menina perdeu peso, passou a levantar-se várias vezes à noite para urinar e, durante o dia, fazia xixi com frequência anormal.

Certa noite, a filha estava prostrada e muito mole. Preocupados, os pais levaram-na à urgência do Hospital Agostinho Neto. Sem sintomas evidentes, Adnízia mencionou à médica que o marido tinha sido recentemente diagnosticado com diabetes, algo que, até então, não havia relacionado com a filha. “Não pensei que fosse isso”.

Após medirem a glicemia, os médicos confirmaram: a criança apresentava um valor superior a 400. “O médico viu logo que era um quadro diabético”, recorda a mãe. A menina acabou por ficar mais de duas semanas internada e, a partir daí, a família teve de se adaptar a uma nova realidade marcada por rotinas mais rígidas, picadas diárias e cuidados alimentares redobrados.

“A primeira coisa que lhe disse é que a diabetes é apenas ‘sangue doce’, a única coisa é que tu não podes comer coisas doces porque o teu sangue já é doce se não fica mais doce e faz-te mal”, disse Adnízia Ribeiro à filha que tem diabetes tipo1.

A experiência de Janine Matos (na foto com o filho), mãe de duas crianças, é semelhante à de Adnízia. O filho mais novo foi diagnosticado com diabetes tipo 1 aos dois anos, em 2022. Desde então, Janine tem conciliado o papel de mãe cuidadora com a sua profissão na área administrativa.

O diagnóstico surgiu após umas férias na ilha da Boa Vista, a partir de sintomas que a mãe começou a observar no menino. “Achei que ele estava muito magro, fazia muito xixi. Nós estávamos em viagem, quando ele se sentiu mal e começou a vomitar”.

Depois de fazerem os exames possíveis na Boa Vista foram aconselhados a recorrer ao hospital na Praia, onde residem. Novas análises revelaram níveis de glicose superiores a 400. Também acabaram por ficar internados no HAN. “Caiu-me tudo. Foi inexplicável”, desabafa.

O menino ficou sete dias internado até ficar estabilizado. No fim veio o diagnóstico – diabetes tipo 1. A notícia foi um choque emocional e obrigou a mudanças radicais na rotina familiar.

“O meu primeiro impacto foi: e agora? O segundo foi: e o acesso aos medicamentos e ao tratamento? (…) E a responsabilidade de ter um ser humano que tem de ser medicado para sobreviver?“, afirma a mãe. “Foi um choque enorme, porque não estava capacitada nem física, nem mentalmente, não estava preparada. Acho que ninguém está, não é?”

Sintomas comuns que passam despercebidos

A médica endocrinologista Vanusa Oliveira alerta que os primeiros sinais da diabetes tipo 1 podem passar despercebidos, mas há sintomas clássicos a que as famílias devem estar atentas, nomeadamente: a poliúria (urinar várias vezes ao dia), que é um dos sintomas mais comuns, a polidipsia (sede excessiva), a polifagia (aumento de apetite), mas ao mesmo tempo há perda de peso devido ao urinar constante; em bebés, há um aumento no número de fraldas molhadas — por exemplo, passar de 3 ou 4 para cerca de 10 por dia; às
vezes também é comum a candidíase vaginal, com infecções constantes.

Nestes casos as famílias devem recorrer ao médico pediatra ou ir ao centro de saúde, que pode encaminhar para a consulta hospitalar com um especialista.

“Às vezes, a criança já chega com uma complicação aguda, que é a cetoacidose diabética”, alerta a médica. Trata-se de uma situação provocada pela falta total de insulina, que leva o corpo a produzir corpos cetónicos como fonte de energia alternativa. Isso pode causar desidratação severa, respiração acelerada, língua esbranquiçada e até coma, exigindo internamento com administração de insulina intravenosa e vigilância médica intensiva.

Conforme a mesma fonte, o diagnóstico é feito relativamente rápido através da análise de sangue, se a glicemia geralmente está superior a 200 mg/dL, a qualquer hora do dia, já é considerado um quadro de diabetes.

Em casos de suspeita, também se considera diagnóstico se duas glicemias em jejum derem valores iguais ou superiores a 126 mg/dL.

Para valores entre 100 e 126 mg/dL, pode ser feito o teste de tolerância oral à glicose (como nas grávidas), sendo que se o valor é igual ou superior a 200 mg/dL após duas horas a pessoa também já é considerada diabética.

Para confirmar que se trata de diabetes tipo 1, são necessários exames específicos, que ainda não são realizados em Cabo Verde, a amostra tem de ser colhida e enviada para Portugal.

Contudo, Vanusa Oliveira salienta que nas crianças a doença é quase sempre tipo 1, e que pode ser solicitado o exame Peptídeo-C ( custa cerca de 2.000 escudos) para medir a reserva pancreática de insulina que a criança “se estiver abaixo do valor inferior, então já é caracterizada como um tipo 1.”

Médica Endocrinologista Vanusa Oliveira

Apesar da mais comum ser a tipo 1, a diabetes tipo 2 pode afectar também crianças devido ao aumento do sedentarismo, má alimentação e obesidade infantil. O consumo excessivo de produtos ultraprocessados, farinhas refinadas e fast food aumenta o risco de desenvolver resistência à insulina ainda na infância.

Perante o diagnóstico, é comum os pais entrarem em pânico conscientes de que a vida vai mudar mas com a rotina eles se adaptam. A médica diz que alguns pais inclusive desaparecem das consultas na “fase de lua-de-mel” da doença, mas explica que as consultas devem ser de 2 em 2 meses, sendo que quem controla a doença pode passar para consultas semestrais, mas que estas não devem ser negligenciadas porque é preciso monitorar as complicações crónicas que podem surgir da diabetes, como a nefropatia (doença renal) e a retinopatia (doença dos olhos), por exemplo.

Novas rotinas e a sobrecarga invisível

Como a filha estava habituada a não comer muito açúcar no seu dia a dia, a adaptação à rotina alimentar para a filha não foi complicada, os desafios vieram depois, segundo Adnízia Ribeiro.

Pouco tempo depois do diagnóstico, a família chegou a fazer uma deslocação a Portugal para uma consulta, mas o tratamento não era muito diferente do seguido em Cabo Verde. Foi lá que aprenderam a fazer a contagem de carboidratos, fundamental para ajustar a dose de insulina rápida às refeições. “Ela todos os dias toma a insulina lenta, que é a que o corpo dela não consegue produzir e ela tem de injetar. Aquela rápida é que ela toma à tarde ou à noite, mas só se não tiver os valores normais e tem de tomar para corrigir”.

A filha faz a medição do açúcar normalmente, o desafio maior foi adaptar-se aos horários da alimentação e às quantidades de comida, já que a menina dizia que tinha fome, por exemplo, mas no geral não houve grandes obstáculos. As dificuldades surgiram quando a menina começou a ganhar consciência da sua condição, diz a mãe.

Com o passar dos anos, a filha de Adnízia tornou-se cada vez mais autónoma. Aos seis anos, já media a glicemia e anotava os resultados. Hoje, com nove anos, injeta a sua própria insulina. “Deixamos que ela fizesse primeiro em casa, para vermos, e agora ela faz sozinha”, conta orgulhosa. A criança já reconhece os sinais que o corpo lhe dá. “Ela sabe que está em baixo quando sente o corpo a tremer”, explica a mãe.

“Por acaso, tivemos sempre muito apoio da escola, também, de professores que tiveram muita atenção com isso”.

No entanto, os custos com o tratamento são elevados. Apesar da comparticipação para quem tem seguros, Adnízia estima mais de cinco mil escudos por mês, principalmente com as fitas de medição, que raramente duram o mês inteiro.

“A insulina pode dar para dois meses, mas ela tem uma validade. Já as fitas não chegam a um mês. Prefiro nem contar”, desabafa.

A alimentação tem sido um capítulo à parte e a ajuda de uma amiga de infância, nutricionista, tem sido fundamental. Aos poucos, a mãe foi explicando à filha o que significa viver com diabetes:

“A primeira coisa que lhe disse é que a diabetes é apenas sangue doce, a única coisa é que tu não podes comer coisas doces porque o teu sangue já é doce se não fica mais doce e faz-te mal”.

Com o tempo, Adnízia foi aumentando o nível de informação conforme a maturidade da filha, ” dando informação conforme ela consegue assimilar.” Hoje, a menina entende melhor a sua condição e já lhe são explicadas as consequências de não se cuidar e o que pode acontecer.

“Eu digo que o segredo está no controlo. Vamos tentando mostrar-lhe que não é 100 por cento proibido. Até porque há dias em que ela tem hipoglicemia, o açúcar desce e é preciso comer algo”.

Adnízia e o marido estão na fase de convencer a filha a usar o sensor. Ao longo destes anos, apenas foi preciso levá-la ao hospital de emergência uma vez.

Para Janine Matos que também teve todo o suporte do hospital, o diagnóstico implicou uma alteração de rotina familiar, neste caso de uma família que vive entre dois continentes. Isto porque apesar de residir em Cabo Verde, Janine optou por fazer o seguimento clínico do filho, que tem nacionalidade portuguesa, em Portugal, onde tem familiares.

Janine Matos e filho

A decisão foi motivada tanto pelo avanço da medicina, defende, bem como pelo custo mais reduzido dos tratamentos. “Lá, a maior parte dos medicamentos ou é gratuita ou tem maior comparticipação. Aqui, a insulina, que é a base do tratamento, é paga.”

Como portador de diabetes tipo 1, o filho de Janine também tem de tomar insulina antes de todas as refeições. “E depois há ainda a insulina de correção, quando necessário”. O que dá em média cinco a seis tomas diárias.

A família desloca-se a Portugal por conta própria, para garantir um acompanhamento especializado com acesso a equipamentos como o sensor de glicemia contínua: um pequeno aparelho que permite acompanhar os níveis de glicemia em tempo real, sem a necessidade de se picar o dedo várias vezes por dia. Alguns modelos já estão conectados com o telemóvel e permitem a partilha de dados com os pais, cuidadores e médicos. Este aparelho ainda não está disponível no sistema de saúde em Cabo Verde, mas já está à venda nas farmácias.

O filho de Janine começou a usar o sensor logo no início do seu tratamento. O mesmo é mudado de 15 em 15 dias, podendo este processo ser feito pelos cuidadores da criança e não necessita de uma intervenção de um enfermeiro, por exemplo. Uma das vantagens do sensor é que possibilita medir o açúcar à noite, por exemplo.

Desde fevereiro deste ano, depois de aguardar numa lista de espera em Portugal, o menor passou a usar uma bomba de insulina que é um dispositivo que funciona tipo um pâncreas artificial, que é dada aos pacientes juntamente com um kit, que deve ser trocado periodicamente. O diabético passa a ser monitorizado através deste dispositov e o cuidador da criança recebe uma formação para o usar.

Na sua rede de apoio conta com o suporte dos pais que vivem em Portugal tendo inicialmente o filho ficado a passar um tempo com os avós nesse país, na fase inicial da doença.

Atualmente, o menino vive em Cabo Verde o que obrigou a nova mudança. “Toda a minha rotina mudou por causa da conjuntura de Cabo Verde. Não tendo apoio a nível de medicação e não tendo apoio a nível de educação, tive que me adaptar”.

Ser mãe cuidadora não é fácil, admite. “A minha maior dificuldade é a rotina no seu todo. Sou mãe cuidadora e também uma profissional que trabalha das 8h00 às 16h30, na área de administração (…) é a rotina de mãe atípica, profissional, mulher, etc. Todos os papéis que um ser humano tem, em termos de género, e ainda ser cuidadora”.

Além das limitações no sistema de saúde, a falta de apoio institucional e social para mães cuidadoras é uma das maiores preocupações de Janine.

Reconhece que as crianças com diabetes sentem o peso da doença, mas quem cuida dos menores acaba por viver como se estivesse doente porque também é uma carga. “É um misto de sentimentos maternos e de cuidadora”.

Janine aponta dificuldades no ambiente escolar, como a ausência de enfermeiras nas creches e escolas nacionais. No seu caso, durante uma altura teve de recorrer a enfermeiras para administrar a insulina nas refeições e formar as mesmas para saber lidar com os alertas do sensor.

Juntamente com outras mães cuidadoras, Janine Matos almeja um dia criar uma associação para apoiar famílias de crianças com diabetes tipo 1. A iniciativa nasce da consciência de que, apesar das dificuldades, elas são mães “atípicas privilegiadas”, como costumam dizer, com acesso a cuidados e recursos que muitas outras não têm. O objetivo é ser a voz das mães que enfrentam a doença sem meios para garantir insulina, tiras de medição ou apoio.

Adnízia Ribeiro, pelo seu lado, reitera que a escola que frequenta a filha sempre os apoiou e tem sido uma parceira e que, inclusive, teve de recorrer à professora numa altura em que a filha estava a comer às escondidas.

Contudo, a mãe lamenta que em Cabo Verde não haja muita educação alimentar. À semelhança de outras mães, foi adaptando receitas que encontra na internet, mas reconhece que há dias que a filha “vai à escola e vê outras crianças a comer e também quer experimentar“.

Controlo da alimentação é essencial

A alimentação tem um papel chave no controlo da diabetes tipo 1, conforme explica a nutricionista Fernanda Azancoth, também ela atende no hospital central da cidade da Praia. “É através desse controlo que a criança vai ter um equilíbrio, conseguir fazer as suas atividades diárias, como brincar, aprender, sem muitas dificuldades para que não haja hipoglicemias, por exemplo”.

Nutricionista Fernanda Azancoth

A contagem de hidratos de carbono e como estes são distribuídos ao longo do dia, nas diversas refeições é essencial e exige o envolvimento da criança e da família, explica a profissional.

“Ensinamos qual é a quantidade de carboidratos que existem numa porção de cada tipo de alimento de cada um dos grupos alimentares. Assim é mais fácil controlar a ingestão ao longo do dia. Normalmente, se essa criança passar por um acompanhamento nutricional, ela vai saber a quantidade ideal de carboidrato (ou hidratos de carbono ) que tem de ingerir ao longo do dia e distribuir nas diversas refeições.”

Fonte: Associação Portuguesa dos Diabéticos

Numa tabelinha disponibilizada aos pacientes é explicada essa quantidade e assim cada paciente já sabe a quantidade que tem que ingerir numa determinada refeição e qual é a dosagem de insulina também que tem de ser administrada para compensar.

Segundo a especialista, as crianças podem comer de tudo com moderação, desde que haja planeamento e orientação adequada, entretanto salienta que se deve evitar o consumo rotineiro de açúcares simples e produtos industrializados e optar por alimentos naturais e ricos em fibras, proteínas e gorduras saudáveis.

Frutas, por exemplo, não devem ser consumidas sozinhas, mas sempre associadas a uma fonte de proteína ou fibra, como iogurte ou aveia, para evitar picos de glicemia. A especialista recomenda também refeições regulares e bem estruturadas, com pequenos intervalos (cerca de 3 horas) entre elas e a presença de saladas, legumes e proteínas nas principais refeições.

Outro aspecto a ter em atenção é as combinações feitas: dar preferência a hidratos de carbono complexos, mais ricos em fibra e evitar hidratos de carbono refinados, por exemplo, optar por pão integral ou uma panqueca de aveia.

No almoço é importante que nunca falte a salada, mesmo que seja só tomate e pepino porque são fontes de fibra e a fibra retarda a digestão o que é benéfico para os diabéticos porque a quantidade de glicose que vai chegar ao sangue também vai de forma gradual.

Quando as pessoas não têm a possibilidade de ter todos os dias uma fonte de carne ou de peixe, as leguminosas podem ser uma solução, diz a nutricionista.

Apesar de crianças com diabetes poderem participar em eventos sociais e consumir petiscos com moderação, isso deve ser feito com planeamento, bom senso e preparação prévia, para que não se sintam excluídas.

” (…) se a criança quiser comer esporadicamente um pedaço de bolo, tem de saber qual é a quantidade de carboidratos que esse pedaço de bolo tem e como vai fazer a administração de insulina”, afirma.

No que diz respeito à contagem, Fernanda Azanconth diz que à primeira pode parecer complicado, mas depois, com a prática, a criança já sabe (…) tornando-se um hábito, e quanto mais praticar, até não terá necessidade, por exemplo, de estar sempre com a tabela (ver exemplo em cima).

“A nossa preocupação maior é que se evite o contato com o açúcar simples, principalmente o contato rotineiro, porque acaba por prejudicar o tratamento“, alerta e diz que existem casos de crianças, principalmente adolescentes, que já sabem qual é a quantidade de açúcar nos alimentos e sabem usar bem a insulina e “acabam por levar uma vida não muito saudável, abusando do uso da insulina.”

Ambas as mães entrevistadas salientam que há quase uma pressão social para se comer doces em festas infantis. Janine Matos leva sempre algo mais saudável para equilibrar os “exageros” e explica que tem a balança para pesar a comida do filho e depois fazer a contagem de hidratos de carbono, inclusive nas festas, mas reconhece que há mães que fazem a olho, por exemplo, e não condena. “Tenho um lema que é: enquanto eu puder cuidar do Mário, eu cuido. Como mãe quero fazer o máximo possível. Assim quando ele for adulto ele terá uma base, mesmo que ele se desleixe depois“.

A prática desportiva também é encorajada, desde que acompanhada de atenção à alimentação para prevenir episódios de hipoglicemia, inclusive para pessoas com diabetes tipo 1, já que faz com que precisem menos doses de insulina, corrobora a endocrinologista Vanusa Oliveira.

Nesta linha, a filha de Adnízia pratica ginástica rítmica. “Quem olha para ela não diz que ela tem diabetes e ela também não gosta que se diga às pessoas”.

Concorda que haja falta de empatia, talvez por falta de informação, segundo a entrevistada, e afirma que as crianças sentem isso, que é um dos motivos da filha não querer dizer que tem diabetes. “Não há educação alimentar e mesmo nas escolas não há opções saudáveis nas cantinas. (…) Claro que depois não é tão simples dizer: “Não come”. Se houvesse um ambiente onde houvesse mais opções, a criança com diabetes, não se sentiria tão diferente“.

Famílias carecem de suporte

A opinião é partilhada por Edna Moreira, presidente da Associação Caboverdiana de Crianças e Jovens Adultos Diabéticos – ACCJAD, que evidencia que o apoio psicológico, nem sempre existente, é muito importante até porque “há pessoas que não aceitam (a doença)”, bem como na fase escolar, os adolescentes, principalmente, começam a ter vergonha em lidar com as perguntas dos colegas ou de comer coisas diferentes dos colegas, sendo que as opções nas cantinas nem sempre são as melhores a nível nutricional.

Associação Caboverdiana de Crianças e Jovens Adultos Diabéticos – ACCJAD

A ACCJAD surgiu em 2020, em resposta às dificuldades enfrentadas pelas famílias com crianças diabéticas, agravadas durante a pandemia, conforme explica a jurista e presidente da associação, Edna Moreira. A pandemia foi um período marcado por alguma escassez de medicamentos devido às restrições no transporte de mercadorias e a associação surgiu da vontade de ajudar quem mais precisava.

O histórico familiar de diabetes foi uma das motivações para Edna Moreira criar a fundação, diz e acredita terem sido pioneiros em Cabo Verde ao focar-se numa doença autoimune como a diabetes tipo 1

No entanto, reconhece que a associação tem estado menos ativa nos últimos tempos por vários motivos, entre os quais a falta de apoios, bem como a falta de voluntários, explicando que o secretário da associação que era a pessoa mais ativa no dia-a-dia acabou por se ausentar do país por motivos de saúde.

Ainda assim, não fecharam as portas, e a presidente mantém viva a esperança de que alguém com mais disponibilidade possa dar continuidade. Continua a apoiar sempre que pode os pais e as famílias que precisam de suporte na compra de medicamentos, por exemplo.

Explica que medicação mesmo sendo comparticipada em Cabo Verde não é barata, variando entre os três mil e os cinco mil escudos, diz. “Há situações em que se a criança não tem muitos sintomas, a família adia a medicação”.

Ter uma sede própria é um dos maiores sonhos da ACCJAD, um local onde pudessem prestar serviços de saúde e consultas de psicologia, bem como ensinar os pais a preparar refeições, por exemplo.

Explica que muitas famílias, principalmente as mais carenciadas e com vários filhos, têm dificuldades em manter uma dieta mais rigorosa, já que implica de certa forma que toda a família mude de hábitos alimentares. “Há famílias que não têm como fazer duas refeições diferentes”.

Necessidade de um atendimento multidisciplinar

Se aos 3 anos a filha de Adnízia Ribeiro reagia de forma normal e dizia que só “tinha sangue doce”, aos cinco anos queria comer coisas que não podia e mais tarde veio a revolta. “Dizia que não queria ter essa doença e que queria ser ‘normal’ e eu tento mostrar-lhe que ela é normal”.

A progenitora entende que poderá ter chegado o momento da filha e da família ter o acompanhamento de um psicólogo porque cada fase traz desafios diferentes. “Vou pesquisando e tento falar com ela, mas não sei se é da forma mais correta”.

Janine Matos argumenta que a alimentação tem que ser mais abordada nas escolas, e acredita que mesmo uma pessoa com menos posses consegue fazer uma alimentação mais saudável desde que tenha formação para tal.

Além da falta de literacia, lamenta que haja “um certo preconceito com a diferença”, nomeadamente a nível de patologias.

A nutricionista Fernanda Azancoth defende um acompanhamento multidisciplinar contínuo, envolvendo nutricionistas, psicólogos, endocrinologistas e pediatras, um modelo que ainda não existe de forma integrada no sistema público de saúde.

Aponta como principal desafio a falta de seguimento nutricional regular, devido à desvalorização do papel da nutrição por parte de muitas famílias. Muitas só retomam as consultas quando já há descontrolo da glicemia.

“As famílias vão numa primeira vez, aprendem, recebem o plano alimentar e nunca mais as vejo. É muito comum. Nas outras especialidades nem tanto, mas na nutrição é muito comum e só nos procuram quando há um total descontrolo. A glicemia permanece muito tempo muito alta e não se consegue controlar de outra forma”, diz a nutricionista.

Questionada sobre os motivos desta falta de assiduidade, a especialista acredita que “seja mais por desleixo do que por não conseguir uma consulta de nutrição”. A especialista acredita que o facto de terem a insulina sempre para socorrer, pode motivar o relaxamento.

Sublinha que uma dieta saudável não exige produtos diet ou light: é possível alimentar-se bem com alimentos simples, acessíveis e naturais, desde que se compreenda e respeite a lógica da doença.

“Se levar a sua vida regrada, digamos assim, tenha todos os cuidados que são necessários, a criança vai chegar na fase adulta e vai viver, construir família, trabalhar, fazer todas as atividades que todos nós fazemos“, diz Fernanda Azancoth.

Salienta que se houver controlo, os sinais de comorbidades que a doença traz vão aparecer muito mais tarde. Não se pode dizer que vão evitar que se apareçam, mas o aparecimento é mais tarde do que se não houver esse cuidado.

A médica Vanusa Oliveira também defende a importância de serem criadas consultas mais organizadas com o paciente a ter acesso a equipas multidisciplinares com várias especialidades, pelo menos para a diabetes tipo 1, bem como o reforço da telemedicina para regiões sem endocrinologistas.

A especialista segue atualmente cerca de 100 pacientes, entre crianças e jovens adultos, e salienta que só há quatro endocrinologistas a nível nacional, 1 em São Vicente, outro em Santiago Norte e outro em Santa Cruz, mas que no geral esta é uma especialidade não muito apreciada.

Outro ponto trazido pela médica é que a nível mundial já há vários avanços, estando a ser usada uma terapêutica biológica, como no caso do lúpus ou de outras doenças autoimunes, onde através de anticorpos é possível manter a doença estabilizada.

Para esta endocrinologista, a literacia em saúde e sobre a diabetes em Cabo Verde é ainda muito “pobre”. As pessoas têm muitas dúvidas e mitos e até associam a picada ao uso de drogas e perguntam se vão ficar dependentes, por exemplo.

A nutricionista partilha da mesma opinião e diz que as ideias preconcebidas associadas à diabetes ainda persistem principalmente na população mais idosa. “Realmente, quando recebem o diagnóstico, muitos pensam que o mundo já acabou. E até há pessoas que escondem a condição. Se disseres que são diabéticas, elas quase que acham que lhes estás a faltar com o respeito. Ainda existe um mito muito grande ao redor da doença.”

A uma mãe com um filho recém diagnosticado com diabetes, Janine Matos daria antes de mais um abraço e depois explicaria que tudo melhora.

“Acho que tudo tem a ver com conhecimento, porque aquela força de mãe vem depois, acho que é o clichê mais válido para mim. E depois, a mesma força, o mesmo motivo que te derrubou, é o mesmo motivo que te levanta para a luta (…) ou melhor para a caminhada“.

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