Bióloga cabo-verdiana premiada em Portugal quer inspirar os mais novos a seguir a área das ciências

Natural de Santo Antão, Mónica Medina reside há mais de uma década em Portugal, país onde tem-se destacado na área da investigação científica, tendo sido premiada com uma bolsa de estudos. Recentemente, foi convidada para integrar a comitiva de Cabo Verde na Web Summit, que está a decorrer em Lisboa.
´Foto@Leonor Arrimar

Licenciada em Biologia e Mestre em Biologia Humana e Ambiente pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Mónica Medina conta que desde pequena teve uma conexão muito forte com a vida e a natureza.

“Adoro animais. Queria ser veterinária, mas fui desenvolvendo uma paixão também pelas ciências naturais, pelo corpo humano e quando completei o 10º ano já sabia o que queria ser. Embora tenha uma ligação muito forte com os animais, a curiosidade de estudar e entender a complexidade da vida falou mais alto. Queria saber o que se passava no nosso corpo e também nas plantas e animais, a nível microscópio. O porquê do nosso sangue ser vermelho, como o nosso corpo combatia uma infeção, o porquê de as plantas fazerem fotossíntese, entre tantas outras questões que ainda me intrigam”, conta em entrevista ao Balai.

A portonovense reside em Portugal há mais de 10 anos e tem-se destacado na área da investigação científica. Em 2020, conquistou um dos Prémios António Coutinho Science Awards, programa que oferece bolsas de mestrado e prémios de pós-doutoramento à comunidade científica afrodescendente.

Segundo a bióloga e cientista, esta bolsa representa o reconhecimento do talento de África, a abertura de oportunidades para estudantes e investigadores dos Países de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) de se conectar com cientistas e institutos de investigação científica renomados em Portugal.

“É muito importante que sejam criadas as condições que nos permitam crescer enquanto investigadores e alargar a nossa rede de contactos e conhecimento. Representa o reconhecimento de anos de estudo e trabalho, mas também representa esperança para os futuros cientistas do nosso continente, esperança de que há oportunidades que lhes permitem ter acesso à excelência, à formação avançada, e esperança que tenham voz e visibilidade devidas.”

No início deste ano (2022), Mónica concluiu, com nota máxima, o seu mestrado em Biologia Humana e Ambiente com uma tese de investigação sobre “Metodologias para o controlo da pandemia da Covid-19”.

Questionada sobre quais os desafios e as oportunidades da bolsa na sua carreira, a bióloga responde: “Não diria desafios, mas sim o peso da responsabilidade de manter a qualidade do meu trabalho e do meu percurso académico e profissional. Foi depositada em mim a confiança de continuar a ser uma profissional que desafia a si mesma, desafia os outros também a serem melhores. As oportunidades e portas que se têm aberto desde que ganhei a bolsa são extraordinárias. O mais importante além do apoio financeiro, que me permitiu terminar o meu mestrado foi e tem sido o networking, o contacto com cientistas, profissionais de outras áreas, oportunidades de divulgar o meu trabalho e a minha carreira na rádio, televisão e jornais, oportunidades de levar o nome do meu país além-fronteiras.”

Cabo Verde e o longo caminho na área das ciências e tecnológicas

Apesar de destacar projetos desenvolvidos na área em Cabo Verde, Mónica Medina diz que “ainda há muito caminho a percorrer, principalmente na investigação biomédica”.

“Tem havido o reconhecimento por parte do Governo de que a ciência e a tecnologia são uma peça-chave para o desenvolvimento de qualquer país, e isso tem levado à criação de bases e incentivos importantes para o desenvolvimento dessa área no nosso país. Temos projetos muito importantes em Cabo Verde na saúde pública, um deles liderado pelo meu antigo colega de faculdade Doutor Adilson de Pina, que tem estado na linha da frente no Programa de Eliminação da Malária; temos também projetos promissores na área da investigação de recursos marinhos, outros com foco na agricultura e liderados por investigadores cabo-verdianos de excelência”, diz e frisa que pretende regressar um dia ao país e ajudar a alavancar a ciência.

Recentemente, a bióloga explica que foi convidada pelo Secretário de Estado da Economia Digital, Pedro Lopes, para se juntar à comitiva cabo-verdiana na Web Summit que está a decorrer em Lisboa, Portugal.

Para Mónica Medina estar num evento deste calibre “é uma honra e um privilégio” e espera tirar o maior proveito das oportunidades que podem ser criadas.

“É importante ficarmos a par da inovação e das tendências deste mundo em rápida transformação. Como mulher africana e das STEM (Science, Technology, Engineering and Math sigla em inglês para Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática) é ainda mais relevante estar neste tipo de eventos, visto ser um evento onde a presença africana ainda não é muito notória. Para além da inspiração e conhecimento que espero adquirir das conferências e apresentações de grandes líderes, CEO de grandes empresas, políticos e especialistas, espero também fazer contactos que são sempre importantes para criarmos mudanças. Precisamos sempre de estar conectados aos decisores políticos, ao sector privado, à sociedade para que consigamos levar o nosso trabalho ao próximo nível.”

No que tange as ambições e sonhos, a cabo-verdiana diz que quer continuar a aprender mais, sair da sua zona de conforto e aprender coisas novas de outras áreas, aceitar novos desafios e conectar-se cada vez mais com o que se passa em Cabo Verde.

“Sonho em tornar-me uma profissional e um ser humano melhor, que respeita sempre o outro. O conhecimento não deve ser só para mim, estudei e estudo para poder partilhar e aprender com os outros, de modo a tornar o mundo um lugar melhor. Temos muitos desafios à nossa frente, a ciência e a tecnologia são transformadoras e irão, de certeza, criar soluções para os desafios deste planeta. Sonho fazer parte dessas soluções, inspirar os mais novos a seguir a área das STEM, a acreditar nas suas capacidades e numa África de excelência”, conclui.

Foto@Leonor Arrimar
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