Cynthia Ramos: “É preciso apostar na educação sexual”

Há cerca de quatro anos que Cynthia Ramos tem usado as redes sociais para promover o empoderamento feminino e, mais recentemente, para quebrar tabus associados à sexualidade. Em entrevista ao Balai, a influencer digital mindelense, que conhecida como Imperatriz, defende que “é preciso apostar na educação sexual” e explica porquê.

Cynthia Ramos, que reside em Mindelo, é artesã, maquilhadora e influencer digital. “Como costumo dizer, sou como um canivete suíço”, explica entre risos. Começou por fazer bijuterias para mulheres e, mais tarde, para homens e crianças. Mas Cynthia não parou por aí.

Apaixonada pela maquilhagem, a jovem fez da sua paixão uma profissão e atualmente adaptou um espaço em casa onde atende pessoas.

Com a chegada da pandemia da Covid-19, ‘Imperatriz’ resolveu investir na formação na área de estética. “A nível de negócio foi difícil e ainda está a ser. Ainda não voltamos à normalidade. A solução que encontrei foi investir em formações”, diz e revela que no futuro pretende fazer workshops e dar formação na área.

Há cerca de um ano que começou a usar as suas redes sociais também para falar sobre sexualidade e considera-se uma pioneira nesta área em Cabo Verde. Foi nessa altura que a sua conta na rede social Instagram cresceu chegando hoje aos 23 mil seguidores.

“A nível de sexualidade, o meu pai foi uma peça-chave já que sempre falamos abertamente de tudo. Então, para mim, a sexualidade sempre foi uma coisa normal. Em jeito de brincadeira, comecei a fazer algumas lives e vídeos. Cada vez que abordava esses temas o feedback era positivo. As pessoas começaram a enviar sugestões. Foi durante a quarentena, de 2020 para 2021, que o meu Instagram cresceu”.

A influencer revelou ao Balai que decidiu abordar a sexualidade porque diz que há muita falta de informação sobre o tema e que as pessoas no geral têm a tendência de confundir educação sexual com pornografia.

“As pessoas acham que educação sexual é ensinar a fazer sexo, kamasutra. Restringem-se a isso, quando é um mundo muito mais vasto do que isso (…) quando me apercebi que uma grande parte, para não dizer a maioria, de mulheres não conhece o seu corpo e nem sabe identificar onde é a uretra e o clitóris, vi que é preocupante”.

Apesar de não ser sexóloga de formação, a mindelense diz que quer se profissionalizar na área. “Faço muitas pesquisas. Não tenho formação na área ainda, mas já participei em alguns workshops com sexólogas e fisioterapeutas pélvicas do Brasil. A ideia é fazer formações na área de coaching de sexualidade para ser mais profissional”.

Desde que passou a falar sobre a sexualidade, Cynthia acabou por investir na área de venda de produtos online e diz que tem sido “maravilhoso”.

Falar abertamente e investir na educação sexual

Segundo Cynthia Ramos, a sexualidade é um tema que precisa ser abordado desde cedo. “É preciso que os pais tenham abertura suficiente para falar com os filhos sobre sexualidade para poderem identificar situações de risco a nível de abuso sexual, estupro e assédio sexual, por exemplo. O meu objetivo é fazer com que as pessoas encarem a sexualidade como um tema normal”.

… ainda há mulheres que não pronunciam a palavra menstruação, acham que é algo sujo

Salienta igualmente que outro tema que é rodeado de tabus para muitas meninas e mulheres é a menstruação. “No meu tempo muitas mães não falavam com as filhas sobre a menstruação. Se formos a ver ainda há mulheres que não pronunciam a palavra menstruação, acham que é algo sujo (…) se num quesito tão corriqueiro ainda existe tabu, imagina nos outros”.

Imperatriz defende que a sexualidade é um tema que deveria ser inserido no currículo escolar. “As informações que dão nas escolas são superficiais que até os próprios alunos não levam em consideração. (…) Nos países onde desde o ensino primário há educação sexual, o resultado é uma juventude mais esclarecida, com taxas mais baixas de IST (…) É preciso apostar 100 % na educação sexual. É a melhor forma de prevenir outras coisas no futuro”, diz e defende que as atuais campanhas de prevenção não são suficientes.

Cynthia Ramos diz que grande parte das suas pesquisas são baseadas em dados internacionais pois explica que há falta de estatísticas nacionais sobre a sexualidade em Cabo Verde e chama igualmente a atenção para a ‘cultura de estupro’ e ‘culpabilização das vítimas’.

“Infelizmente, a nossa sociedade ainda é assim, uma mulher é estuprada, assediada, a tendência é ver se, aparentemente, há motivos para culpar a mulher. A vítima deixa de ser vítima”, lamenta.

… a primeira coisa que as pessoas têm que fazer é “não se anular em prol do prazer do outro”

Diz que desde que passou a abordar o tema da sexualidade nas redes sociais, o feedback do público tem sido “maravilhoso”, apesar de alguns constrangimentos. “Há pessoas que acham que por abordar temas relacionados com a sexualidade e a educação sexual estou a dar-lhes liberdade para enviar nudes e propostas”, lamenta.

Diz que por ser a primeira no país e até então a única, sente que “é uma responsabilidade grande”.
“Existem tabus, mas é um assunto que as pessoas gostam de abordar. No início, as pessoas achavam “uma falta de respeito”, mas quando comecei a posicionar-me e a mostrar a diferença, as pessoas começaram a dar-me credibilidade”.

Segundo a jovem, ainda existem vários tabus na sexualidade que devem ser quebrados. “O vibrador é um tabu enorme, mas muitas não sabem como usar, por exemplo”. “Ainda existem vários preconceitos à volta do sexo que devem ser quebrados. Estou na luta”.

Apesar de terem mais questões de autoconfiança e insegurança, Cynthia não hesita em dizer que as mulheres são mais desinibidas e curiosas em relação a temas sobre a sexualidade.

“As mulheres são mais curiosas e mais recetivas no que tange ao sexo e a produtos eróticos. (…) A maioria dos homens fica mais retraída”.

No que se refere a receitas para ter uma vida sexual mais feliz, a influencer diz que a primeira coisa que as pessoas têm que fazer é “não se anular em prol do prazer do outro”. “Quando pões toda a responsabilidade nas mãos do outro, estás-te a anular completamente (…) O sexo não é tudo, mas tem um papel no nosso bem-estar geral”.

“E depois, as pessoas têm de entender que o sexo acima de tudo é comunicação”, conclui.

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