Da EHTCV para o mundo: A receita de sucesso do cabo-verdiano Neldinho Tavares

Após vários anos a dedicar-se à gastronomia, o jovem natural do interior da ilha de Santiago prepara-se para lançar “Prato di Nós Terra”, um livro composto por mais de 50 receitas com enfoque nos pratos tradicionais de Cabo Verde.

José Augusto Tavares Cabral, mais conhecido como Neldinho Tavares, é um jovem santiaguense de 27 anos que encontrou na cozinha e na confeitaria a sua verdadeira vocação. Formado na Escola de Hotelaria de Turismo de Cabo Verde, emigrou em 2023 para a França, país onde tem-se dedicado à sua paixão.

Em entrevista ao Balai, o jovem natural de Calheta de São Miguel conta que o gosto pela cozinha nasceu ainda na adolescência, quando vivia com uma tia e se viu forçado a cozinhar por necessidade. Já no 12.º ano de escolaridade, decidiu que a gastronomia seria o seu caminho.

Em 2018, formou-se na área de Cozinha e Pastelaria na Escola de Hotelaria e Turismo de Cabo Verde, EHTCV, e fez da cozinha o seu mundo. O percurso não foi fácil, mas Neldinho diz que “foi uma das melhores escolhas” que já fez na vida.

“É uma base que me fortifica até hoje em dia. Vim de uma família com poucos recursos financeiros e tive que trabalhar em restaurantes, fazer horas extras e até videoclipes para artistas para poder pagar a formação e a renda. Durante um mês fui impossibilitado de frequentar o estágio porque não tinha pago a propina.”

Ainda assim, Neldinho guarda a experiência com carinho e gratidão. A convivência com os chefs e o ambiente formativo moldaram-no como profissional e como pessoa. “(…) ajudou-me como ser humano porque de onde vim havia delinquência e tinha sido influenciado.”

Projeto Kuzinha Ku Mi

Em 2021, após dois anos a trabalhar num restaurante na capital do país, o jovem decidiu empreender e lançou o projeto Kuzinha Ku Mi, dedicado à prestação de serviços em eventos como casamentos e aniversários. Atendia maioritariamente em Santiago, mas chegou a ir para as ilhas do Sal e do Maio. O objetivo, segundo diz, era “acabar com o stress de quem organizava eventos”.

Dois anos mais tarde, emigrou para França para juntar-se à companheira, também cozinheira. Apesar das dificuldades com a língua francesa, Neldinho trabalhou em restaurantes para ganhar experiência, além de manter o espírito empreendedor.

“Aqui em França tenho uma empresa denominada Eurico Cakes, que tem como base a confeitaria (bolos), mas ofereço todo o tipo de serviços para casamentos”, conta, acrescentando que por trás dos seus bolos há uma história, algo que diferencia o seu serviço dos demais. “Não é só confeitaria, são os momentos marcantes que proporciona.”

Hoje, Neldinho trabalha com chef domiciliar, serviços de catering, faz workshops de comida africana e consultoria para restaurantes. Conta com uma equipa de seis profissionais, com ele e a esposa como ponto central.

“Para mim a culinária representa tudo, neste momento não me vejo a trabalhar noutra área. (…) A culinária faz parte de mim e sou conhecido como Neldinho confeiteiro”, diz com um sorriso.

A gastronomia cabo-verdiana está sempre presente no seu trabalho: “A cachupa é o prato mais pedido, mas pessoalmente gosto mais de ‘sapatinha’ e congo”. Inclusive, o santiaguense já trabalhou em restaurantes cabo-verdianos em Nice e Paris, a promover os pratos tradicionais.

Noventa por cento dos seus clientes são cabo-verdianos e, segundo o mesmo, o feedback é positivo. “Sinto-me mais motivado quando vejo o meu povo a apoiar-me”.

Resgatar pratos tradicionais em livro

Entre os grandes sonhos que estão por se concretizar, destaca-se o lançamento do livro “Prato di Nós Terra”, previsto para dezembro deste ano (2025) em Cabo Verde. A obra reúne mais de 50 receitas, com enfoque nos pratos tradicionais esquecidos, como o ‘tenterem’, sem esquecer da confeitaria. “O objetivo é resgatar os pratos mais antigos da gastronomia cabo-verdiana.”

O santiaguense também é bastante ativo nas redes sociais, onde compartilha receitas, dicas e tutoriais. “Senti falta de conteúdo em crioulo quando comecei. Hoje partilho o que sei para ajudar outros que estão a começar. (…) O meu intuito sempre foi ajudar as pessoas.”

Para os jovens que sonham com uma carreira na cozinha, Neldinho aconselha a terem disciplina e prestarem atenção às críticas mais do que aos elogios. “O fundamental é não desistir e prestar atenção em cada receita. Na confeitaria, aprende-se com os erros.”

Apesar de ser uma área dominada por mulheres, Neldinho sente-se honrado em representar os homens e diz que é acolhido. “Aprendi muito com mulheres, e elas sempre me apoiaram”, diz realçando que foi através da chef Faustina Semedo que descobriu a pastelaria/confeitaria.

A ambição de Neldinho e da companheira é abrir um espaço de confeitaria em Cabo Verde, dedicado às pessoas sem condições financeiras. “É um projeto que queremos realizar já no próximo ano”, avança, esclarecendo que a ideia ainda não é regressar ao país, uma vez que, o mercado europeu é maior e com mais oportunidades.

Balai Notícias 

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