Depois do parto: O luto invisível das mães que perderam os seus bebés

O Balai traz o testemunho de duas mães que sofreram perda neonatal. Conforme explica a psicóloga Maria Dias o luto perinatal inclui a perda de um bebé independentemente da idade gestacional, como um processo doloroso, que impacta a família, mas sobretudo as mães, e que muitas vezes é invisível para a sociedade.

Conforme dados oficiais avançados no I Congresso Nacional de Neonatologia, em 2023, a taxa de mortalidade infantil em Cabo Verde tem vindo a decrescer: em 2014 a taxa era de 20,3 por mil (nados vivos), tendo passado para 13 por mil em 2018 e atingido a meta prevista de 12,5 por mil, em 2021. Já a mortalidade neonatal passou de 10,8% para 6,3%, e a taxa de mortalidade perinatal passou de 25% em 2014, para 19,1 por mil, em 2018, e 11% em 2021. Na ocasião, a Diretora Nacional da Saúde, Ângela Gomes, afirmou que estes dados mostram que Cabo Verde tem apresentado, ao longo dos anos, uma tendência globalmente positiva em termos de cuidados materno infantis. 

Apesar da tendência positiva, as perdas neonatais ainda acontecem, à semelhança de outros países, podendo dever-se a diferentes causas, conforme avança a médica Ginecologista obstetra Gisele Modesto mais à frente na reportagem. E a perda de um bebé independentemente da idade gestacional, é um processo que impacta toda a família, mas sobretudo a mãe, conforme alerta a psicóloga Maria Dias, também ela atende no Hospital Universitário Agostinho Neto, (HUAN), na Praia.

“Não sei a cor dos olhos do meu filho”

É o caso de Leila Gonçalves, de 30 anos, que perdeu o seu bebé à nascença em 2023. Nove meses de gestação tranquila fizeram Leila, que é natural da Praia, acreditar que iria viver um dos momentos mais felizes da sua vida. No entanto, o parto acabou por se transformar num dos episódios mais dolorosos que vivenciou.

“Estive três dias internada na maternidade com contrações intensas, mas sem dilatação. Pedi várias vezes para fazerem cesariana, mas recusaram porque era o meu primeiro parto”, recorda.

A mesma conta que no terceiro dia começou a passar mal e foi levada para a sala de parto, onde afirma que passou várias horas sem nenhuma evolução. “A enfermeira que me acompanhava acabou por me deixar sozinha, foi nesse momento que comecei a sangrar, sem qualquer ajuda no momento em que mais precisava, quando a enfermeira voltou, acusou-me de ter feito algo para estar a sangrar daquela maneira, e eu sem saber porquê estava a sangrar”.

A situação agravou-se rapidamente, “a médica disse que tinham de me levar de urgência para a sala de bloco, porque eu estava a ter um descolamento de placenta e havia apenas quatro minutos para salvarem a minha vida e a do meu filho, no entanto nesse momento, foram buscar um termo de responsabilidade para eu assinar, declarando que queria cesariana, algo que já tinha solicitado três dias antes”, acrescenta.

Leila sobreviveu, mas não escapou às sequelas físicas e emocionais: teve o útero removido, e o filho, apesar de ter nascido com vida, não resistiu, por causa de insuficiência de oxigénio no cérebro, conforme consta na certidão de óbito, diz.

“Não sei a cor dos olhos dele, nem o seu choro, não tive condições de conhecer o meu filho”, lamenta.

A mesma conta que no momento em que recebeu a confirmação do falecimento do bebé foi devastador. “Pensei que a má notícia era apenas porque tinham retirado o meu útero e não poderia ter mais filhos, nunca imaginei que ia ouvir que o meu filho tinha entrado em óbito”, desabafa.

O apoio da família, em especial do marido, foi essencial. “Ele foi cuidadoso, amoroso, esteve sempre ao meu lado, também recebi suporte dos meus pais, da minha sogra, cunhadas, irmãos”.

Entre o luto e a fé

As datas ligadas ao filho, como o dia do nascimento, continuam a ser particularmente difíceis. “No primeiro aniversário não consegui levantar da cama, não queria falar com ninguém, só ficar no seu quartinho a ver os seus brinquedos, foi muito duro”, confessa.

Leila acredita que a sociedade não reconhece a dor das mães que perderam os seus bebés. “As pessoas pensam que como não houve convivência, não é uma perda significativa, para elas é só mais um que partiu, mas para nós não é assim, é uma dor real e profunda”, apontou.

Para enfrentar a dor, Leila encontrou força na fé. “Apeguei-me muito à palavra de Deus e à Bíblia, e isso trouxe-me alívio, junto com o acompanhamento psicológico e o apoio da igreja”.

Ainda assim, a tristeza permanece. “Prefiro guardar muitas das vezes dentro de mim, porque não quero ver os outros tristes, é uma dor que muitas das vezes carrego em silêncio”, diz.

A mesma conta que desde a perda, aprendeu a viver um dia de cada vez. “Se hoje está a ser complicado, sei que amanhã pode ser mais leve ou até mais difícil. Nunca penso no dia seguinte, vivo apenas o presente, se hoje der para ser assim, será assim, se amanhã for diferente, será diferente, partilha.

“O trauma fica para sempre”

Este é o caso de Cleusa Alves, de 28 anos, que perdeu o seu bebé, à nascença, em 2024. Natural da ilha do Fogo, Cleusa também viu a maternidade ser interrompida de forma brusca, quando estava grávida de sete meses e acabou por perder o bebé durante o parto.

Aos três meses de gravidez realizou a sua primeira ecografia, na ilha do Fogo, mas na altura a médica não lhe explicou os detalhes, afirma, apenas foi-lhe dito que a bexiga do bebé apresentava distensão. “Não entendi o que significava, levei o exame à consulta de ginecologia, mas também não me explicaram nada”, recorda.

“Como não me explicaram , achei que estava tudo bem, até que numa consulta no PMI, disseram-me que o exame apresentava distensão da bexiga, e perguntaram-me se ninguém me tinha informado sobre isso”.

Cleusa realizou, aos cinco meses, uma nova ecografia morfológica, no qual acabaram por confirmar o diagnóstico da megabexiga.

Mesmo diante da gravidade da situação, Cleusa foi orientada a levar a gravidez até ao fim, com a indicação de que, no final, seria transferida para o hospital da Praia. Contudo, a evacuação aconteceu antes da data programada. “Acabei por ser transferida porque já não tinha líquido e o bebé pedia para nascer”, lembra.

“Fizeram-me cesariana porque não dava para ser parto “normal” (vaginal), devido à condição rara chamada de megabexiga fetal, que afeta o desenvolvimento da bexiga do feto, e com isso não conseguiria sobreviver”, recorda.

“A perda deixou marcas profundas, é muito angustiante, porque até hoje lembro dele, fiquei com aquele trauma na cabeça”, confessa.

Cleusa avançou que recebeu apoio emocional e psicológico do hospital, mas no entanto as datas ligadas ao nascimento permanecem dolorosas. “Quando lembro, tento tirar logo da mente, para não ficar no sofrimento com algo que não volta mais”.

“Prefiro não lembrar, claro que penso sempre nele, mesmo quando o pensamento surge do nada, tento evitar, porque a ansiedade tornou-se uma realidade constante na minha vida”.

A mesma contou que o acompanhamento psicológico e o suporte da família têm sido fundamentais para que consiga seguir em frente com a presença dos amigos e familiares, mas admite que nem sempre o apoio recebido foi suficiente.

Nova gravidez, entre medo e esperança

Hoje, Cleusa está novamente grávida de um menino, mas apesar da alegria de esperar outro bebé, a experiência da gravidez passada traz sentimentos mistos.

“A minha mente está mais preocupada com o outro filho que vem, não é que não me lembre do primeiro, lembro, mas estou mais focada nesta gravidez. Só que o trauma ficou, tenho medo de passar pelas mesmas coisas, e isso faz com que a ansiedade volte”, avançou.

A tristeza, a angústia, a ansiedade e o medo continuam presentes, Cleusa descreve ainda sintomas físicos que acompanham essas emoções. “O coração fica acelerado, e muitas vezes pergunto, porquê isso aconteceu comigo”.

Apesar da dor, a jovem tenta encontrar forças para olhar para frente e preparar para a chegada do novo bebé, mas sem esquecer do primeiro filho que partiu.

Acolhimento e acompanhamento são essenciais, alerta psicóloga

Logo no início da perda gestacional, é essencial que a mulher seja acolhida e que a sua dor seja validada, porque a mulher precisa encontrar um espaço de escuta e empatia, livre de julgamentos ou pressões, explica a psicóloga, e mentora da iniciativa Maio Furta-Cor, Maria Dias, que trabalha no Hospital Universitário Agostinho Neto, (HUAN), na Praia.

Psicóloga, e mentora da iniciativa Maio Furta-Cor, Maria Dias

O acolhimento vem desde o hospital até o ambiente familiar. A especialista alerta que, sobretudo quando a perda acontece no hospital, é essencial permitir que a mãe veja o bebé e o carregue, tire recordações e seja ouvida por toda a equipa, com paciência, e deve-se evitar frases que minimizam a perda, explicar o que aconteceu no seu tempo e isso já constitui um suporte emocional importante.

Nas primeiras semanas após a perda é comum que a mãe sinta tristeza profunda, choro frequentemente, sentimento de culpa, raiva e vazio, e é saudável que viva esse processo, mas no entanto muitas vezes, esses sentimentos não conseguem ser expressos, por isso é fundamental falar e validar a sua dor.

O apoio da família é considerado fundamental, mas segundo a psicóloga, é preciso primeiro que os familiares tenham consciência da dimensão da dor e da importância de viver esse luto. “Muitas vezes, por não terem conhecido o bebé, os próprios familiares tendem a minimizar a perda”, avançou.

“O primeiro passo é que a família reconheça a dor da mulher e compreenda que este é um processo que precisa ser respeitado, ouvir sem julgamento, permitir que ela chore e não apressá-la a superar a dor,” alerta.

A mesma avança que a mulher fica pouco funcional, por isso é importante oferecer apoio prático, bem como ajudar nas tarefas domésticas, acompanhar nas consultas médicas e psicológicas, não deixar que ela se isole. A família também deve respeitar a memória do bebé, compreendendo que mesmo sem convivência, o vínculo e a dor da perda são reais.

“Quando a família valida a dor e acompanha de perto, torna-se um elemento essencial para que o luto siga um caminho saudável, prevenindo que se torne num luto patológico”, avançou.

Além das emoções intensas, é importante que a mulher compreenda os processos pelo quais vai passar, bem como os sintomas físicos e emocionais, entre eles a ansiedade, a insônia, a perda de apetite, falta de compreensão e não da invalidação da dor dessa mãe, isolamento social, especialmente quando as pessoas minimizam a perda com frases, bem como “melhor assim” ou “vais ter outro filho”, como se a dor é validada. Entretanto, embora carregadas de boas intenções, esse tipo de invalidação faz com que muitas mulheres se afastem de amigos e até evitem sair de casa, diz a psicóloga.

No caso da religião, ouvir repetidamente “Deus quis assim” pode abalar ainda mais a fé já fragilizada pela perda, criando conflitos espirituais e emocionais, gerando sentimentos de inutilidade, impotência e vazio.

Até mesmo o próprio companheiro, no intuito de consolar, pode dizer “logo vamos fazer outro” , essa fala em vez de ajudar, transmite a ideia de substituição, como se aquele bebé nunca tivesse existido, contudo nenhuma nova gravidez ou nenhum outro filho substitui a ausência deixada.

Outra frase recorrente é “ainda bem que não chegaste a conhecer”, o que muitos não entendem é que a mulher já conhecia o seu bebé, porque desde o momento em que o gerou criou uma ligação profunda. “Ela já o imaginava, já projetava características físicas e comportamentais, sobretudo quando se tratava de uma gravidez desejada e planeada. Ao dizer que ela não conheceu, a sociedade invalida essa relação afetiva e simbólica que já existia entre mãe e filho”.

A mesma avançou que o outro impacto significativo é no relacionamento conjugal: “homens e mulheres lidam com o luto de formas diferentes, também por fatores culturais e pelas expectativas sociais, a sociedade espera comportamentos distintos de cada um, e quando não há diálogo, a relação pode se fragilizar e até levar à separação”, explica.

Segundo explica, quando a mente não é cuidada no momento da perda, as consequências podem surgir mais tarde, manifestando-se de forma intensa e inesperada.

“Muitas vezes a mulher continua a funcionar, mas de repente deixa de estar bem, e os sintomas voltam com muita força”, alerta.

Entre os sinais a ficar atento estão a tristeza profunda e prolongada, sentimentos de culpa, raiva constante, desesperança, luto prolongado, dificuldades em retomar rotinas simples do dia a dia, recusa em falar sobre a perda, vergonha e inutilidade como a ideia de “não fui capaz de gerar e cuidar do meu bebé”.

Esses sinais indicam que o luto se tornou mais complicado e que a mulher precisa de apoio especializado e acompanhamento de urgência, de modo a evitar que o sofrimento se transforme em algo mais sério, como o luto crónico.

A especialista avança que o luto por um bebé ainda é tratado como um tabu e é diferente dos outros tipos de luto, porque noutros contextos da perda, vizinhos, familiares e amigos partilham memórias com a pessoa que partiu, mas no caso do bebé, quase ninguém além da mãe criou essas memórias, por isso, trata-se de um luto menos falado e muitas vezes não reconhecido pela sociedade.

Ginecologista destaca importância do acompanhamento pré-natal 

Por ocasião da reportagem, a médica Ginecologista obstetra Gisele Modesto, que trabalha no HAN há cerca de oito anos, aponta para diferentes causas que podem levar à perda gestacional, sendo que no primeiro trimestre, os estudos demonstram que uma das principais causas está relacionada com cromossomopatias (doenças genéticas causadas por alterações no número ou na estrutura dos cromossomas).

Ginecologista obstetra Gisele Modesto

A mesma acrescenta, que para fazer essa confirmação após a perda teriam de ser realizados estudos genéticos do feto, analisadas alterações anatômicas uterinas e infecções como rubéola, citomegalovirus, sífilis, etc..

Já no segundo trimestre, a perda pode estar associada a “infecções que levam a partos prematuros extremos e levando a sepsis neonatal”.

Conforme explica a obstetra, no terceiro trimestre podem ocorrer complicações da gravidez de risco, nomeadamente hipertensão e diabetes. “A redução do líquido amniótico que pode ocorrer no pós datismo por isso se realiza uma vigilância após as 40 semanas mais apertada e se resolve as gravidezes de baixo risco com 41 semanas”, aponta.

Já no pós parto imediato, pode estar associado ao descolamento prematuro da placenta.

“No serviço onde trabalho temos um protocolo de assistência às mulheres e mães com perdas gestacionais, neonatais, entretanto todas as pacientes que dão entrada no nosso serviço HUAN são avaliadas na consulta de psicologia com o objetivo de apoiar no luto e no impacto psicológico da situação”, avançou.

A mesma alerta que para reduzir as perdas gestacionais é importante que todas as mulheres realizem consultas pré-concepcionais (antes da gestação), com o objetivo de identificar os fatores de riscos. “É forma de estratificar a mulher e identificar se serão grávidas de alto ou baixo risco, modificar os fatores que são mutáveis e tentar controlar os que não são mutáveis e minimizar o seu impacto na gravidez”, afirma e apela que “as mulheres realizem todas as consultas pré-natais e os exames solicitados e seguir as orientações durante a gravidez”.

Além da importância de realizar um pré-natal de qualidade, identificar fatores de risco atempadamente, é importante tratar as infecções identificadas durante o pré-natal, realizar os exames preconizados pelo SNS, aplicar as boas práticas durante o trabalho de parto preconizado pela OMS.

A nível da mortalidade materna dados divulgados pelo ministério de Saúde apontam que em 2023 Cabo Verde ocupava o segundo lugar no índice de mortalidade materna na CPLP com 42 óbitos por cada 100.000 nascidos vivos, precedido apenas por Portugal que apresenta 12 óbitos.

Os dados são corroborados pelo SDG tracker ou ODS em Cabo Verde- Situação e Tendências (ferramenta desenvolvida em 2023 para monitorar de perto o progresso dos objetivos de desenvolvimento sustentável no país, utilizando dados entre 2015 e 2022), que apontam que Cabo Verde fez progressos consideráveis nalgumas dimensões do desenvolvimento humano e a nível do ODS 3, área de saúde de qualidade, o país tem feito uma evolução rápida nos quesitos de mortalidade materna, mortalidade em crianças com menos de 5 anos, Taxa de mortalidade neonatal, por exemplo. 

Mensagem para outras mães

Apesar do sofrimento, Leila deixa palavras de encorajamento para outras mulheres que passaram pela mesma situação “Viver um dia de cada vez, Deus não nos dá uma carga que não possamos suportar, no início parece impossível, mas Deus dá forças para continuar, nunca vamos esquecer, mas precisamos acreditar que nada é em vão, tudo tem um propósito”.

Ambas as mães entrevistadas pelo Balai, receberam e ainda continuam a receber acompanhamento psicológico, um suporte essencial para validar a dor, acolher as memórias e ajudá-las a seguir em frente, um dia de cada vez.

** Reportagem realizada no âmbito do trabalho final de estágio **

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest

Daimara Furtado

Jornalista estagiária.

Outros artigos

Deixe um comentário