“É através das repetições que conseguimos implementar novos hábitos”, coach Cimyck Silva

Com o início de um novo ano, a tendência é traçar metas novas, que muitas vezes são esquecidas ainda no mês de janeiro. Mas afinal como ser bem-sucedido nos objetivos traçados para 2022? Em conversa com a coach cabo-verdiana Cimyck Silva, que é mentora de rotinas, fomos tentar entender o que faz com que muitas pessoas falhem nos objetivos e de que forma é possível implementar novos hábitos.

Da tua experiência como coach, qual é a importância das rotinas nas nossas vidas e, por outro lado, como não cair no excesso de controle?

– Ter uma rotina é muito importante, principalmente, para o nosso bem-estar. O levantar em cima da hora, apressada, tem depois grande efeito no corpo, nas hormonas e na mente. Nós passámos horas a dormir, ao levantar depressa não estamos a dar ao nosso corpo tempo para despertar…

Sempre há quem recorra ao café em excesso …

– Também (risos). Um exemplo muito prático: quando vais ligar o motor do carro logo de manhã. O carro está frio. Mesmo com pressa, se queres atingir 100 km/hora isso não vai acontecer. O carro leva o seu tempo para aquecer. O mesmo acontece com o nosso corpo. Se começares o teu dia devagar, com tempo, te levantares e te alongares, estás a dizer ao teu corpo que já despertaste e que agora é hora de fazer atividades. Todas estas mensagens estão a ir do cérebro para o corpo. Ter uns cinco minutos para ti, em vez de fazer tudo a correr. Com tempo para cuidar de ti e da tua mente, o que faz com que a tua mente te ajude a começar o dia com mais foco e clareza e ajuda na produtividade. Se reparares, nos dias em que estás atrasado, como corre o dia? Parece que estás sempre a correr o que é diferente de quando começas devagar (…) com tempo para tomar o pequeno-almoço antes de sair de casa. O dia corre muito melhor. Ou então, (quando) levantas e começas logo a fazer scroll nas redes sociais. Ter uma rotina matinal é importante porque aí é que definimos o que queremos para o nosso dia e como alimentamos o nosso corpo e a nossa mente (…)

A chave para uma boa rotina matinal é teres clareza no que queres e definir quanto tempo tens para isso”

Depois há o outro lado da moeda que estavas a referir: ter rotina sim, mas não podemos deixar esta rotina sobrecarregar-nos. Daí a importância de seres tu a definir o que queres no teu dia. É onde entra todo o planeamento do teu dia porque tens de saber quanto tempo tens e o que nesse tempo podes fazer. (…) Uma pessoa que tem de sair de casa às 7h30 ou 8h da manhã, sabe que tem meia hora antes de sair. Nessa meia hora o que pode fazer? Pode ser acordar mais cedo para se arranjar sem pressa. É importante ter clareza sobre o que se quer e precisa. Sem sobrecarregares a ti mesma, porque quando queres fazer tudo, podes não conseguir fazer nada, o que gera stress e frustração. Por isso, que a chave para uma boa rotina matinal é teres clareza no que queres e definir quanto tempo tens para isso. Quando tens isso organizado consegues ter uma rotina adequada a ti.

Mas quanto tempo que normalmente é necessário para haver uma mudança de hábitos. Por exemplo, as pessoas podem esperar resultados numa semana ou por exemplo há pessoas que começam a ter resultados e começam a desleixar-se?

 – ‘Aí é que mora o perigo’, como dizem os brasileiros. O nosso cérebro demora 30 a 60 dias para criar novos hábitos. Ou seja, não é de um dia para o outro que tu consegues novos hábitos. É normal na primeira semana tudo correr bem. Estás motivado e focado. Na segunda semana, o teu cérebro começa a sabotar-te …

(…) se queres que algo se torne um hábito, tens de fazer um esforço para no dia seguinte retomar a rotina “

Mas porque é que isso acontece?

– (risos) Porquê? Porque é algo que não estás habituado a fazer. Por exemplo, se não estás habituado a acordar para fazer ginástica às 6h da manhã é o teu cérebro vai dizer: “Tu não estás habituado a fazer isso todos os dias, então para quê que estás a fazê-lo?” Essas conversas que temos dentro da nossa cabeça são os nossos sabotadores internos que nos estão a dizer: “Não faz”. Essa procrastinação, que é o nosso maior sabotador, é que nos leva muitas vezes a desistir porque não temos consistência que é necessária para qualquer coisa. O mesmo acontece com as dietas (…) por isso é preciso ter consistência e disciplina. Como digo às minhas alunas: repetir, repetir, repetir. É através das repetições que conseguimos implementar novos hábitos. Por isso é que existem muitos desafios de 21 dias ou 30 dias. É algo que fazes todos os dias até que chegue ao momento em que o teu cérebro já reconhece a nova atividade, o momento em que as coisas começam a ficar mais fáceis. Não quer dizer que a partir daí não é necessário repetir, só que se torna menos cansativo. O hábito entra na rotina. Se falhares um dia, no próximo dia já recomeças (…) quando estamos a implementar novos hábitos temos esta quebra porque não temos consistência e sem consistência podes cair no erro de desistir (…) lá porque não conseguiste cumprir um dia, não quer dizer que no dia seguinte não consigas. Todos nós falhamos, há dias em que não temos paciência. Mas se queres que algo se torne um hábito, tens de fazer um esforço para no dia seguinte retomar a rotina.

Às vezes é fácil falarmos ou já vimos uma amiga que atingiu tal objetivo, mas realmente é isso que queremos ou é só porque a amiga já conseguiu?

“Ano novo, vida nova”, muita gente tem este lema. Na linha do que estás a dizer, traçam-se objetivos, não se consegue cumprir e as pessoas desistem logo. Mas como traçar objetivos de modo a efetivamente alcança-los?

– Lá está, Ano Novo, vida nova, novos objetivos. Comemos 12 passas, cada uma é um desejo, mas já no dia 3 já se esqueceram os desejos todos. O que é completamente normal, porque pomos muitas expectativas no que queremos, mas são coisas que, entretanto, não colocamos no papel. “Em 2022 o que quero para mim? A nível pessoal e profissional?” A nível pessoal: quero melhorar a minha alimentação, fazer mais exercício, quero estudar algo? A nível profissional, no meu trabalho, que formações posso fazer para me ajudar? Que metas de relacionamento? Meter tudo no papel, não estamos habituados a fazer isso, apenas a falar sobre isso. A diferença é que quando colocamos no papel, temos 12 meses em que podemos atingir estes objetivos e metas a curto e a longo prazo. O que posso a fazer já em janeiro? Por exemplo, já em janeiro posso tratar da minha alimentação. Depois, metas a longo prazo. Quero fazer uma formação? Quando é? Qual é o valor? Como posso me organizar para o fazer? Saber dividir as metas e depois as metas em tarefas. Quais as tarefas é que posso começar agora e quais no próximo mês? Então tudo fica mais simples. É o chamado objetivo S.M.A.R.T* que é tu definires as tuas metas, coloca-las no papel e veres quais podes começar agora e quais mais tarde. Isso ajuda-te a entrar em ação. É veres a tua tabela e pensares eu consigo fazer. É uma motivação para começares. Uma coisa é hoje vou traçar as minhas metas de 2022, o que sinto que faz sentido para mim. Outra é, pôr no papel, isso vai ajudar-te a atingir as tuas metas. Pensar: “Realmente quero isso? Vai ajudar-me a crescer, a ser melhor pessoa?” Às vezes é fácil falarmos ou já vimos uma amiga que atingiu tal objetivo, mas realmente é isso que queremos ou é só porque a amiga já conseguiu.

É um pouco um exercício de autoconhecimento…

– Muito autoconhecimento, reflexão e olhar para dentro. O nosso objetivo é o que nós queremos, que precisamos e que nos ajuda a crescer e a sermos o nosso melhor. Muitas vezes, as nossas metas e objetivos acabam por ser coisas muito fora de nós. Mas quando temos essa conversa connosco próprios, de sabermos realmente o que precisamos em 2022 para sermos melhor profissional, melhor mãe, melhor amiga, melhor pessoa, quando fazes essas perguntas, as coisas começam a fluir. Começas a pensar: Se calhar se fizer isto, vou-me sentir melhor. São pequenas coisas, pequenos passos, pequenas mudanças. Um por cento que posso fazer já amanhã. Daqui a uma semana vês que ao fazer 1% já estás a notar a diferença. Até o final do ano, olhas para trás e vais ver que este 1% fez toda a diferença.

Desde que começaste a fazer mentoria profissionalmente, tens visto resultados? Existem vozes críticas que sugerem que qualquer pessoa o pode fazer e que banalizam a profissão. Em termos práticos, de resultados, porque é que podes dizer que o que fazes resulta?

– Eu sou coach, mas tenho um coach. Eu sou mentora, mas tenho a minha mentora. Porque todos nós precisamos do nosso apoio. Para ajudar os outros, tenho de ter alguém a apoiar-me, tenho de estar no meu melhor para ajudar os outros. No início, quando comecei a fazer disso a minha profissão, tinha muito receio porque realmente são muitos coach neste mundo pequeno. E o meu coach disse-me: sim há muita gente a fazer a mesma coisa, mas não és tu. Aí está essa diferença. Se calhar, o que estou a dar outros também dão, mas não da mesma maneira que eu. Vejo resultados nos meus clientes e é como digo: o monetário é bom, porque é o meu trabalho, mas o mais gratificante quando todos os meses e semanas recebo mensagens dos meus clientes. Para mim, é a diferença que faço na vida dos meus clientes e eles sabem que eu estou cá para as dificuldades que aparecerem e elas vão aparecer. Depois de uma mentoria de 6 semanas, não precisas de ninguém, não. Nem todos os dias são iguais, todos os dias há desafios e é normal acontecer …

 

Já tiveste casos de pessoas que viste que precisavam de outro tipo de acompanhamento, psicológico, por exemplo?

– Sim, já. E como digo, cada um no seu quadrado. Quando vejo que alguém precisa de uma psicóloga e não um de um coach, faço esse encaminhamento, porque eu tenho a minha psicóloga. Ainda bem que está a deixar de ser tabu isso de ter psicólogo, graças a Deus. Porque é algo tão normal e que faria bem a muita gente. Então é normal que quando estamos num processo de autoconhecimento tocamos com o dedo nas feridas e há coisas que vêm ao de cima, há lembranças, crenças e sabotadores que estão enraizados desde que somos mais pequenos, as vezes com mudanças de hábitos e de comportamento, podemos conseguir (alcançar objetivos) mas as vezes há coisas mais profundas. Já tive clientes que tive que encaminhar para um psicólogo, antes de continuarmos. São coisas que acontecem quando começamos um processo de autoconhecimento. Eu passei por isso. Muitas vezes temos comportamentos que achamos que nascemos com eles. Mas nem sempre é isso. Quando nascemos somos páginas em branco, é consoante o que ouvimos da família e da sociedade é que nos vamos formando. Então depende que tipo de adulto somos. Todo esse processo é muito profundo. Por isso faço questão de acompanhar os meus clientes quer a nível individual, quer em grupo.

“Porque não ajudar outras mulheres a conseguir o que eu consegui?”

Cimyck Silva é Coach & Mentora de Rotinas. A cabo-verdiana que reside atualmente em Portugal é licenciada em Secretariado e Assessoria à Direção, área onde trabalhou durante vários anos. Ainda em Cabo Verde fez uma certificação como Coach, mas quando se mudou para a cidade do Porto, no Norte de Portugal, é que começou a aplicar algumas técnicas de coach em si própria.

Depois de várias formações na área de desenvolvimento pessoal, a cabo-verdiana criou um blog em 2018 “onde começou a partilhar dicas sobre desenvolvimento pessoal, crescimento pessoal, meditação e espiritualidade”.

“Hoje fiz disso a minha profissão porque vi muitos benefícios em mim e nas mudanças que consegui fazer em mim através da mudança de rotina e de novos hábitos. Fui percebendo o porquê de muitas vezes as pessoas terem dificuldade em implementar rotinas e ir até ao fim com as mesmas. E então eu pensei: “Porque não ajudar outras mulheres a conseguir o que eu consegui?””, explica Cimyck, que começou oficialmente a fazer mentoria em junho de 2020, e acrescenta: “Hoje em dia é o que eu faço com muito orgulho”.

Trabalha só com o público feminino já que entende “as mulheres têm mais dificuldade em parar e olhar para dentro e cuidar de si mesmas antes dos outros. “Damos prioridades à casa, ao marido, aos filhos, ao cão, ao gato, a todos, antes de darmos prioridade a nós mesmas (…) mas quando temos uma rotina diária de bem-estar que nos ajuda a cuidar de nós e é um impulso que damos a nós mesmas para cuidar dos outros”.

Entre as mulheres que atende estão cabo-verdianas, portuguesas e angolanas com uma faixa etária que vai desde os 18 até aos 60 anos.

Nota de autor: objetivo SMART: Specific (Específico), Measurable (Mensurável), Achievable (Alcançável), Realistic (Realista) e Time based (Temporal);

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