Elzo Rodrigues, o jovem que deixou o escritório para ficar em contacto com a natureza

Começou a fazer caminhadas há cerca de seis anos e de repente todos os fins-de-semana passaram a ser dedicados às trilhas. Na altura trabalhava num escritório e sentia que lhe faltava algo. Por isso este ano, o cabo-verdiano Elzo Rodrigues embarcou numa aventura e diz que nunca se sentiu tão bem”.

Através do exemplo dos pais, Elzo cresceu sempre em contacto com a natureza, não fosse filho de Santo Antão, mais concretamente Puvuason (Ribeira Grande).

Há 12 anos rumou para São Vicente, ilha onde ficou a residir depois de terminar a licenciatura em Gestão Empresarial e Organizacional na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), em Mindelo.

Longe estava de imaginar que um dia seria um travel influencer nem que iria abandonar um emprego estável para criar um negócio próprio que conciliasse prazer com trabalho.

Diz que enquanto trabalhava no escritório, sempre sentiu que lhe faltava algo. Elzo recorda como tudo começou.

Há cerca de seis anos, desafiado por um antigo colega da empresa onde trabalhava, foi participar numa caminhada. Chegou dois minutos depois da hora marcada. Pensou que os colegas ainda não tinham chegado. Afinal já tinham partido e assim aprendeu a lição. Desde então passou a chegar a horas e a fazer trilhas todos os fins-de-semana.

“Quando comecei a fazer a trilha foi como se tivessem aberto uma porta (…) Como sempre gostei de redes sociais, principalmente do Instagram, comecei a criar de forma involuntária, até a criar conteúdos que começaram a despertar a curiosidade das pessoas”.

Depois de partilhar as suas aventuras, os amigos e conhecidos começaram a interessar-se pelo o que estava a fazer. “As pessoas perguntavam-me: ‘Este lugar existe em São Vicente?’”. Pediam para ir, mas o grupo não era da sua iniciativa, portanto não quis convidar outras pessoas.

Dam Mon, um projeto que surge na pandemia

Entretanto, veio a pandemia da covid-19 e as pessoas ficaram impossibilitadas de viajar.

Elzo ponderou então criar algo que motivasse as pessoas a sair de casa, mas teria de ter um conceito por detrás. “Não poderia ser apenas andar num lugar e já está.
Estive meses a pensar num conceito que motivasse uma pessoa que nunca tivesse feito nada a sair de casa e a explorar a sua ilha”.

Surgiu então a ideia de tomar um café num lugar conectado com a natureza e partilhar algo com os outros. “A ideia mesmo é gerar esta partilha que leva a uma conexão entre pessoas. No meio da partilha falamos também da nossa história”, diz. Foi assim que em março de 2021 começaram as caminhadas lideradas pelo Elzo.

“Não levava pessoas conhecidas, nem familiares, nem casais (…) só pessoas que não se conheciam”. O objetivo era tirar as pessoas da sua zona de conforto, com novas conversas e rotinas, uma experiência que depois permitisse gerar novas amizades, parcerias, clientes, etc.

Elzo promovia estas caminhadas todos os fins-de-semana, porque durante a semana continuava a trabalhar numa empresa de combustíveis.

Em junho deste ano, depois de 6 meses a fazer contas e de conseguir alguma segurança, decidiu que era altura de dar o salto e não se arrepende. “Sempre fui muito conectado com a natureza. Estar num lugar fechado com quatro paredes a limitar o meu horizonte não me dava prazer. Então, cada vez que estava nas trilhas sentia que estava no meu lugar (…) chegou um ponto em que tinha de me libertar”.

A tentar entrar noutras áreas, enquanto travel influencer e criador de conteúdos, Elzo Rodrigues, hoje com 30 anos, quer também criar parcerias com empresas e agências locais.

“Não é só mostrar o luxo, mas mostrar o mais simples que é bonito, que é estar no meio do verde ou no topo de uma montanha. Quero levar Cabo Verde às pessoas. Não consigo contabilizar a quantidade de emigrantes que já vieram a Cabo Verde porque a minha página despertou-lhes a vontade de regressar ao país”, diz e explica que tem como público-alvo maioritário os cabo-verdianos, quer residentes no país quer na diáspora.

Explica que apesar de trabalhar atualmente com outras nacionalidades, “o seu foco é o seu povo” e quando tem estrangeiros no grupo tenta junta-los com os nacionais.
Elzo explica igualmente que não faz diferenciação de preços entre clientes. “Digo sempre tenho preços para pessoas”.

A nível de oferta da agência, há trilhas com pequeno-almoço ao ar livre, passeio de barco, snorkeling com tartarugas, isto em São Vicente. Já em Santo antão, existem excursões com experimentações gastronómicas com a degustação de produtos nacionais (através de uma parceria com uma empresa local o Sabor das Montanhas).

 

A ambição de Elzo é explorar o mercado nacional, mas os transportes limitam a oferta. “O principal desafio nem é estar numa ilha, mas é como chegar lá. A maioria das pessoas que trabalham não tem confiança de quando vamos sair da ilha (não quer viajar perante as incertezas). Por isso ainda não consegui fazer uma excursão para outra ilha que não seja Santo Antão que é a única ligação certa que temos”.

No entretanto, o jovem procura mudar a forma como as pessoas vivem estas experiências e, quem sabe, incentivar outras empresas e pessoas a desenvolver projetos do género nas respetivas ilhas.

Atualmente, lança um programa mensal e as pessoas se inscrevem nas caminhadas que querem participar. O momento do café também é uma oportunidade de falar sobre temas como suicídio, saúde mental, educação financeira, entre outros.

 

“Nunca me senti tão bem. Seguro não, porque quando estás seguro vais te acomodando e aí cais na ‘mesmice’. Não quero estar seguro, quero estar constantemente a pensar no que devo fazer para inovar, criar ou mudar. Sou viciado em fazer as coisas de forma diferente”.

O que é ser influencer de viagens?

Apesar de não ser fã da palavra influencer aceitou-a, mas salienta que só fala do que gosta de fazer e da sua experiência. “Não mostro lugares onde nunca fui ou coisas que nunca fiz (…) o que conecta as pessoas é porque eu tenho a minha experiência e depois falo sobre isso (…) não vou a um lugar só para falar de coisas bonitas. Dou sempre a minha opinião”.

“Desde que comecei a usar (as redes sociais), tive essa consciência de que estas são uma arma, que pode ser usada para o bem e para o mal. (…) Decidi focar-me em mostrar às pessoas a minha terra. Fui postando por gosto (…) e as coisas foram ganhando a sua proporção sozinhas ( …) até que chegou a um ponto em que a tua responsabilidade aumenta e passas a ter cuidado com o que dizes e quando”.

Sou um apaixonado por Cabo Verde. Independentemente dos problemas que temos, acho que temos tantas coisas bonitas que temos que eu gostaria que as pessoas conhecessem mais.”

Até que um grande amigo em São Vicente lhe lembrou que poderia tirar proveito das redes sociais e apesar de estar a investir há vários anos, o retorno financeiro só surgiu no início deste ano, quando teve o seu primeiro contrato. “Até essa altura (…) foi tudo do meu bolso e com apoios só de amigos (…) Tudo é um processo. Quando comecei não sabia o que poderia obter e hoje aqui estou eu cada vez mais focado nisso”.

Enquanto travel influencer diz que o seu objetivo é além de mostrar Cabo Verde e despertar a curiosidade para as viagens cá dentro, é futuramente incentivar viagens para fora.

“A ideia é também criar experiências incríveis fora do país”, explica que através de uma empresa parceira local em São Vicente que esteve na organização de uma viagem para o Brasil, nada mais nada menos do que para o Sambódromo da Marquês de Sapucaí, também conhecido como Sambódromo do Rio de Janeiro.

Do resto, Elzo diz que quer aproveitar a vida enquanto pode.

Além do próprio, Elzo emprega mais uma pessoa a cuidar das redes sociais e está a recrutar guias turísticos para trabalhar consigo.

Ainda não conhece todas as ilhas, estando a faltar Maio, Fogo e Brava, bem como Santa Luzia que deve visitar ainda este ano.

Por isso uma viagem de sonho, sem dúvida seria fazer um périplo pelas ilhas de Santo Antão à Brava, com 3 a 5 dias em cada ilha. “Seria uma viagem custosa, mas que vou fazer, com certeza. Desde pequenino tenho este sonho (…) estive a fazer umas contas e no mínimo seria um mês e meio”.

“Poderíamos ter um fluxo de turismo interno bastante elevado se as pessoas tivessem confiança nas rotas, mesmo que não fosse todos os dias”.

Não consegue identificar o seu local favorito em Cabo Verde, mas a ilha preferida é Santo Antão, com certeza.

A nível de outras ambições, o jovem refere a necessidade de criar momentos para falar com outros players da área sobre as potencialidades das redes sociais, nomeadamente a monetização.

Dicas para fazer boa uma trilha:

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest

Pode gostar também

Deixe um comentário

Follow Us