Em meio a renúncias e sacrifícios, empreendedora salense concretiza sonho do negócio próprio na área da pastelaria

Em meio a renúncias e sacrifícios, empreendedora salense concretiza sonho do negócio próprio na área da pastelaria

Liliana Pimentel desistiu de estudar Medicina para se dedicar à culinária e mais tarde abriu mão de um emprego estável para seguir o sonho de ter uma pastelaria. Hoje os seus bolos conquistaram o mercado na capital.

Natural da vila de Palmeira, na ilha do Sal, Liliana Pimentel iniciou a sua formação superior no Brasil, na área de Medicina, mas no terceiro ano decidiu abdicar do curso para abraçar a culinária, uma área que sempre gostou.

“Não estava a identificar-me com a ideia de vir a ser médica e não me sentia realizada. Estava a sentir que o meu propósito não era aquilo”, contou em entrevista ao Balai.

Apesar de ter ficado receosa da reação dos familiares, bem como da sociedade, Liliana manteve-se firme na decisão e no final contou com o apoio dos pais.

Confeção de bolos em casa

Depois de alguns anos, conseguiu prosseguir com os estudos na área da culinária, enquanto o desejo permanecia vivo e sempre compartilhado com o marido, Emerson Pimentel. Juntos desde o Brasil, há mais de duas décadas e que sempre a apoiou a idealizar o negócio desde 2004.

Aos olhos do casal, a ideia consistia na criação de um espaço onde as pessoas pudessem encontrar produtos prontos para serem levantados, como bolos, bases de pizzas prontas e outros produtos práticos para o dia a dia e que facilitassem a vida das pessoas.

De regresso a Cabo Verde, Liliana começou a atuar na área da gastronomia enquanto monitora de cozinha e pastelaria numa escola de formação profissional de hotelaria, na cidade da Praia.

Em 2013, a profissional de cozinha começou, a partir de sua residência, a confecionar bolos para venda, e uma observação foi o pontapé inicial.

“Na época não havia muitas pessoas a fazer bolos com cobertura de pasta. No Brasil, tive o meu primeiro contacto com a pasta americana durante o meu curso e tinha feito um mini curso de modelagem que me ajudou a trabalhar com aquele material e comecei a dedicar a isso”, lembra.

Abdicar do emprego fixo em nome do sonho

Conforme o tempo passava viu que o negócio crescia e que chegava o momento de tomar mais uma decisão. “O que queria? Continuar a trabalhar e a contar com um salário fixo ou continuar a seguir com aquilo que acredito?”, voltou a questionar a si mesma.

Durante um ano dedicado ao trabalho na escola de formação conciliada com as encomendas a partir de casa e as responsabilidades maternas divididas com o marido, Liliana decidiu abrir mão do antigo trabalho e dedicar-se apenas ao negócio, onde ficou um bom tempo sem contar com um salário.

Em 2014, ela e o esposo decidem alugar um espaço para instalar o Atelier Pimentel, onde a salense e mais uma funcionária produziam os produtos da loja.

“Na época não existiam espaços que eram apenas para bolos, embora fazíamos cupcakes também, mas eram os bolos com coberturas de pasta americana que vendíamos e a ideia do espaço era principalmente para isso”, explica.

Aposta num espaço próprio

Conforme conta, inicialmente todo o financiamento aplicado ao negócio eram referentes aos apoios dados pelos familiares e os investimentos feitos pelo casal.

Até que em novembro de 2019, perante uma nova necessidade, decidem dar um passo maior e investir num espaço próprio para instalar o Atelier.

Enquanto Liliana procurava formas de singrar no mercado, teve de lidar com alguns desafios. Entre eles a concorrência, uma vez que depois da criação do negócio outros empreendedores começaram a apostar na divulgação massiva dos produtos através das redes sociais, dando popularidade ao setor da pastelaria.

“Temos que pagar os impostos, os nossos funcionários, manter o espaço e quando fazem comparação as pessoas não se lembram que temos toda uma estrutura preparada para produzir os nossos produtos e isso interfere (nos custos)”, sublinha.

Além dos desafios por conta da concorrência, a mesma destaca os avanços em relação à comercialização de materiais para pastelaria que agora encontram-se facilmente no mercado.

“No início, conseguir matérias-primas e outros materiais para trabalhar era complicado, porque aqui não tínhamos nada. Por exemplo, a nossa pasta, fomos obrigados a desenvolver localmente, para não ficarmos à espera. Víamos o que era possível fazer cá e o que era necessário buscar fora nós íamos buscar”, comenta.

“Hoje em dia, podemos encontrar de tudo nas lojas, equipamentos e produtos. Por isso que agora está muito mais fácil fazer bolos do que antes”, completa, embora lamenta o aumento de alguns materiais, principalmente no período pós-pandemia da covid-19 e na sequência do conflito armado na Europa desde 2022.

Nunca abdicar dos sonhos

Atualmente o Atelier emprega entre 9 a 10 pessoas, sendo na sua maioria mulheres, uma escolha feita pela própria empreendedora que defende que dessa forma estaria garantido um emprego fixo para mães e donas de casas que “são quem mais lidam com o peso das responsabilidades”.

Depois de todo trajeto percorrido e renúncias feitas, Liliana Pimentel celebra os ganhos obtidos através do negócio.

“Hoje já temos uma casa própria e uma vida mais estável derivado da empresa que nós criamos, tudo o que vemos aqui é um “sonho acordado”, um projeto de 20 anos que tem sido implementado aos poucos”, celebra.

“Não é fácil chegar a esse ponto, exige bastante trabalho e renúncias de muitas coisas, muitas vezes as pessoas diziam que não estavam a nos ver, porque estivemos todo esse tempo a investir nesse projeto”, acrescenta.

Até agora o negócio conta com apenas um ponto de venda, na cidade da Praia, mesmo assim, dizem que já fizeram encomendas para outras paragens além da cidade, como o interior da ilha de Santiago, bem como para outras ilhas como São Vicente, Fogo, Maio, Sal e Boavista.

Segundo conta, embora haja pedidos para a abertura de outras lojas nomeadamente em São Vicente e no Sal, a empreendedora ainda não pensa na possibilidade como um projeto a curto prazo, uma vez que ainda não reúnem condições de logística e profissionais capacitados para garantir a mesma qualidade e conduzir o negócio à distância.

Para Liliana, enquanto empreendedora as lições são várias, mas realça que o que nunca deixa passar em branco é que “é necessário seguir os sonhos e acreditar que é possível concretizá-los, mesmo quando for fazer um caminho diferente daquele que a sociedade espera que façamos”.

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