Empresa social holandesa que só emprega mulheres produz conservas artesanais de pratos tradicionais. A cachupa é um deles

Depois de terem começado a circular imagens nas redes sociais da tradicional cachupa de Cabo Verde a ser vendida em lata, na Europa, o Balai Cabo Verde foi procurar saber como surgiu esta iniciativa e descobriu que a mesma é produzida na Holanda numa organização de caráter social que engloba pratos de vários países do mundo.

A ideia surgiu em 2020 em Roterdão, na Holanda, nos Países Baixos. Atualmente, a MixBlik, uma empresa social que comercializa cinco pratos regionais que são vendidos como conservas artesanais. Um dos pratos é a cachupa de Cabo Verde.

Há cerca de dois anos, duas mulheres holandesas Iris van Beers e Esther van der Hoeven juntaram-se e criaram a MixBlik.

“Roterdão é uma cidade multicultural com pessoas de todas as nacionalidades. Eu e a Esther tivemos esta ideia de criar uma empresa com mulheres que não estejam tão integradas na sociedade holandesa ou, mesmo que estejam, não estão com mulheres de outras culturas. Começamos com mulheres que chegaram cá como refugiadas, mas atualmente recebemos todas as mulheres”, explica a holandesa Iris van Beersem em entrevista e acrescenta que a ideia é combinar a aprendizagem, com o trabalho e a confeção de receitas das diferentes culturas.

“Acreditamos que a comida é uma boa forma de ligar as pessoas. Ao partilhares a tua comida, as pessoas podem saber mais sobre ti e a tua cultura, é bom para compreender e conhecer melhor as pessoas e assim teremos menos racismo e menos dificuldades, por exemplo”.

Assim surgia a MixBlik. Começaram com pratos da Eritreia, depois com o húmus e este ano começaram a produzir cachupa e mafé (caldo de mancara) do Senegal.

Uma das várias questões que lhes são colocadas é o porquê de terem optado por conservas artesanais. Uma das mentoras explica que a decisão de apostar nos enlatados surgiu porque quiseram apostar na comida, mas de uma forma sustentável. “Fizemos uma pesquisa e chegámos à conclusão de que a opção mais ecológica seriam as latas, pois são facilmente recicláveis. O vidro também é uma boa opção, mas nas estatísticas vê-se que se gasta mais energia para reciclar o vidro porque é mais pesado”.

As mulheres que estão a trabalhar na fábrica e as que estão a aprender outras ofícios e a língua holandesa no projeto são de várias nacionalidades desde a Arábia Saudita, Eritreia, Senegal, Turquia, Síria, Vietname, Mali, Congo e Cabo Verde.

Preocupadas com o desperdício alimentar, a opção dos enlatados também se mostrou a melhor para reduzir as perdas. Cada lata traz uma pouco da história de cada prato e país.

Os pratos são veganos e feitos com produtos orgânicos e naturais. “Sempre é possível adicionar carne mais tarde, mas retirar é mais difícil”, argumenta Iris van Beersem respondendo à pergunta o porquê de os pratos serem confecionados sem carne.

Além de cinco pratos enlatados, também fazem chamuças congeladas. A produção é relativamente pequena já que cada prato é produzido e enlatado uma vez por semana. Além da venda online, os produtos estão disponíveis nos Países Baixos, mas também na Bélgica e querem agora começar a vender em Portugal. Para já não enviam para fora da Europa.

Sónia e Diva, as cabo-verdianas que levaram a cachupa para a MixBlik

Natural de Calheta São Miguel, há oito anos que Sónia Correia e Silva emigrou de Portugal para a Holanda. Com a deterioração do nível de vida por causa da pandemia recorreu ao apoio social e começou a ter aulas de holandês e foi assim que, há cerca de um ano, começou a colaborar com a MixBlik.

Como cada integrante nova do projeto faz um prato para comerem em conjunto, um dia Sónia e a colega Diva (Leonilde Lima), também ela cabo-verdiana natural de Santiago, fizeram uma cachupa para as colegas. Inicialmente não queriam fazer em grandes quantidades, mas todos os que experimentaram, gostaram e começaram a perguntar se não havia também cachupa enlatada. “Até que decidimos tentar. Mas não foi fácil porque inicialmente não queríamos. Mas experimentámos e teve saída”.

Sobre alguma polémica que se instalou online sobre a cachupa vegana e enlatada, Sónia defende que muitas pessoas falam sem procurar saber mais sobre o assunto. “É lógico que preferia que a cachupa fosse enlatada em Cabo Verde. Mas já aconteceu aqui (na Holanda). Devemos agradecer e acho que a nossa culinária está a expandir-se. Não acho que haja algo de errado com isso”, defende.

A emigrante explica que a cachupa é vegana e leva muitos legumes e vegetais orgânicos desde abóbora, cenoura, couve, mandioca, abobrinha, tomate, cebola, além de temperos e hortaliças. “A cachupa não vai molinha por isso depois pode-se adicionar a carne e cozinhar durante 10 minutos e fica perfeita”, explica.

Apesar de antes não estar a trabalhar nesta área, Sónia Silva explica que acabou por fazer uma formação que engloba também a confeção de doces.

“Quem sabe um dia posso abrir uma fábrica (de enlatados) em Cabo Verde”, diz com uma gargalhada e como uma boa cozinheira, a cabo-verdiana não revela o segredo de uma boa cachupa.

Sónia e Iris salientam que a técnica usada não envolve o uso de conservantes. “Cada lata é como uma panela de pressão porque inserimos todos os ingredientes na lata que depois vai para uma máquina onde é cozida a mais de 100 ºC e fica lá durante duas horas (processo esterilização). Nenhuma bactéria pode entrar e (o alimento) pode ser usado durante mais de dois anos. É uma forma artesanal de fazer conservas”.

No total, 160 cachupas são enlatadas a cada semana, sendo que cada dia é confecionado e enlatado apenas um prato tradicional.

“Se tudo correr bem, podemos crescer aos poucos. Para nós o mais importante é que este seja um bom local para que mais mulheres venham cá trabalhar e aprender. Esperamos que mais pessoas nos Países Baixos possam experimentar os produtos, descobrir mais sobre Cabo Verde e os outros países (de onde são os pratos). Todos cá adoram (na fábrica) a cachupa e pedem sempre mais”.

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